Existiram Gigantes?

Muitos mitos foram construídos em torno da figura de seres humanos gigantes na antiguidade. Há muita falsificação de fotografias circulando na internet onde supostas escavações arqueológicas mostram esqueletos e crânios de gigantes. Apesar disso há estudos sérios da literatura antiga sobre humanos ou humanoides com cerca de três metros de altura, embora as comprovações e brm assim as referências semânticas existentes sejam bastante escassas.

A temática surge da passagem muito incógnita no livro de Gênesis 6.1-4, mas ganha reforço em outras passagens também no Antigo Testamento. A partir daí alguns viram base para defender a origem dos “gigantes” como resultado da relação entre anjos (caídos) e mulheres. Vale a pena citar aqui o texto-base:

Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram. Então, disse o SENHOR: O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal; e os seus dias serão cento e vinte anos. Ora, naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade.

Segundo algumas posições hermenêuticas, esse texto pressupõe a existência de gigantes, os quais seriam a descendência dos “filhos de Deus”(bnei ha elohim). Eis algumas das interpretacões:

1. Os filhos de Deus mencionados seriam, na verdade, anjos caídos (nephilim). Essa interpretação é encontrada no judaísmo rabínico, na literatura apocalíptica e nos pais da igreja primitiva; também podemos ver essa influência apocalíptica em 2 Pedro 2.4; Judas 6, 7 a respeito dos anjos “que pecaram” e “não guardaram seu estado original”;

2. Os filhos de Deus seriam os descendentes da semente santa de Sete, enquanto as filhas dos homens seriam da descendência maligna de Caim. O resultado dessa miscigenação foi desagradável a Deus e a consequência foi uma linhagem contaminada (gigantes seriam aberrações). Calvino e Lutero sustentaram essa interpretação que vem do século III;

3. Os “gigantes” seriam sucessores monárquicos do ímpio Lameque, descendente de Caim. Segundo essa interpretação, os nephilim eram nobres ou príncipes de renome na antiguidade, visão corroborada por Números 13.33. Os nefilim seriam, então, governantes com poderio militar notável e heroísmo. O pecado desses “filhos de Deus” teriam reproduzido o padrão da tentação no Éden na mesma atitude de vendo .. bom… tomar. Essa parece ser a interpretação mais plausível e explicaria o fato de terem visto as belas filhas dos homens e tomado (escolhido) para si as que agradaram seus olhos.Vejamos alguns problemas decorrentes dessas interpretações.

Quanto à primeira interpretação, o texto de Gênesis não menciona “anjos”, apenas o termo “caídos” (nephilim). Além disso, há uma tradição acerca da relação sexual de anjos e seres humanos desde muito tempo. Mas essa interpretação falha sob três aspectos: 1) o contexto deixa claro que o juízo de Deus é sobre os homens (ha adam), e que os pecadores são ditos como carne (basar) em 6.3, logo o juízo é contra os homens, e não contra anjos. Argumentar com base em 1 Pedro 3.19, 20 e Judas 6,7 de que o juízo dos anjos foi reservado não resiste à segunda razão; 2) a afirmação de Jesus em Mateus 22.30 e Marcos 12.25 evidencia que anjos não possuem a capacidade de relação conjugal como os seres humanos; 3) argumentar com base em Gênesis 19.1-3, texto que fala sobre anjos vindo a Abrão para ter uma refeição, não é o mesmo que manter relações sexuais com mulheres e gerar filhos.

Quanto à interpretação da tradição cristã do século III, o termo há adam (os homens) é genérico, ou seja, abrange a humanidade de modo geral e não limita a uma linhagem específica. E o termo banot (filhas) também se refere à descendência do sexo feminino em geral, sem especificar nada. Além do mais, é mais provável que as filhas fossem uma menção às descendentes de Sete e não de Caim, já que o termo “filhas” (banot) é citado nove vezes na genealogia de Sete (5.7ss.), mas na de Caim nenhuma vez.

A terceira interpretação é a mais natural. De acordo com a compreesão judaica, os regentes humanos sofriam ingerência ou mesmo possessão de seres caídos. Essa influência seria um dos desdobramentos da corrupção do gênero humano que não mais se submetia ao governo de Deus e, assim o Espírito não mais contenderia, pois o homem havia se tornado sobremodo “carnal”.

Além do mais, tal entendimento possibilita uma explicação plausível quando posta em concordância com o Salmo 82.1,2,6, onde a referência é aos juízes (elohim: deuses) que perverteram a justiça. O Salmo é mencionado por Jesus em João 10.34 de forma idêntica à LXX e parece legitimar sua autoridade como filho de Deus, valendo-se do que a Escritura diz Deus ter declarado a respeito dos homens: “Eu disse: sois deuses”. Assim como alguns indivíduos foram chamados de deuses no A.T. e isso não violava a Escritura, também Jesus aplica a si mesmo essa dignidade de filho de Deus sem que isso incorra em blasfêmia ou deturpação da Escritura.

Por outro lado, essa visão dificilmente se ajusta aos textos de Jó 1.6 e 2.1 onde entende-se que os bnei elohim não sejam anjos, mas juízes, filhos de Deus em uma demanda às portas da cidade. A imagem que o texto projeta é semelhante à de 1 Reis 22.19-22 e Zacarias 3.1. Embora seja possível compreender que uma participação angélica ocorra paralelamente nas assembleias humanas, como sugere Paulo em 1 Coríntios 11.10, fica difícil determinar a natureza dos seres mencionados em Jó 1.6 e 2.1 como juízes humanos (elohim). É mais provável que a referência seja mesmo a anjos, não a homens com a dignidade de filhos de Deus.

Quanto ao texto de Gênesis, levando em conta as interpretações e argumentos contrários, interpretação mais plausível é a de uma descendência humana corrompida pela influência de anjos caídos. Na expressão os filhos de Deus tomaram para si as filhas dos homens “tomar remete simplesmente à união inter-racial, não ao ato de fornicação.

Por fim, é possível que a conclusão de ter havido homens de grande estatura no passado seja fruto da versão LXX, onde o termo utilizado na tradução foi γίγαντες (gigantes). A NVI prefere o emprego da transliteração do termo hebraico nefilim em Gn 6.4, mas usa a palavra gigantes em Nm 13.33 para traduzir o mesmo termo. O texto de Gênesis afirma que naqueles dias os nefilins estavam na terra e também depois daquele tempo, uma possível referência a Números 13.33. Numa leitura natural do texto, parece que a menção dos nefilim habitando a terra seria apenas uma referência cronológica, não uma alusão aos filhos que nasceram do casamento dos filhos de Deus com as filhas dos homens.

O significado da palavra nephilim tem origem desconhecida, porém passou a designar naturalmente um povo antes do dilúvio e outro no período mosaico (filhos de Anaque) sem qualquer relação com sua estatura. No entanto, a passagem de Números 13.33 explicita que realmente os filhos de Anaque eram homens de grande estatura, descendentes dos gigantes, diante dos quais os israelitas se sentiram como gafanhotos, e assim o eram diante dos nefilim.

Gênesis 6.4 sugere que quando os filhos de Deus se deram com as filhas dos homens, elas deram à luz homens “valentes” (hagborim) de renome (como Ninrode, Gn 10.8-11). Pode ser precipitado supor que dessa relação os gigantes sejam a prole. Assim, os nephilim não seriam necessariamente os mesmos homens valentes mencionados em Gn 10.8-18, mas uma referência anterior e posterior ao surgimento dos homens perversos que surgiram do casamento misto. Se esta conjectura for correta, com base na origem da palavra, em Gênesis 6.4 os nefilim já eram uma raça violenta que habitava a terra quando surgiu outra raça do casamento mencionado, os hagdorim, ou simplesmente “homens valentes”, ou de grande fama.

Esses gigantes foram conhecidos até o tempo de Josué por vários nomes como anaquins, zanzumins, emins e refains (Js 12.4) além dos nefilins, filhos de Anaque. Além disso, há outros como Ogue, rei de Basã, Sipai ou Safe (1 Cr 20.4; 2 Sm 21.18) e Golias que tinha grande estatura, mas que era de Gate, cidade dos filisteus (1 Sm 17.4).

Gênesis 6.1-7 realmente parece demonstrar que a raça humana estava se multiplicando e os filhos de Deus haviam tomado as mulheres como resultado de uma motivação pervertida quanto ao que Deus havia estabelecido. Os que nasceram dessa relação foram homens violentos, num tempo onde já havia outra raça conhecida por sua truculência. Assim, haveriam os nephilim e os giborim, que, se Ezequiel 32.20-28 estiver mesmo aludindo a ambos, os herois (giborim) teriam sido aterrorizados pelos nephilim, mas acabaram sendo derrotados.

Portanto, os gigantes já existiam na época que antecedeu o dilúvio bem como depois, mas não nos é dito como eles surgiram, nem como seus descendentes reaparecem em períodos posteriores. O mais provável é que tenham sido gerados novamente de relações semelhantes à mencionada em Gn 6.4, não entre anjos e mulheres. E por fim, a força bruta e audaciosa desses homens parecia acompanhar sua longevidade, o que permitia difundir ainda mais a violência e a maldade da descendência dos perversos, de maneira que estes acabariam prevalecendo sobre a terra. E já que a maldade do coração humano havia se multiplicado em uma proporção maior ainda, por isso decidiu Deus três coisas a esse respeito:

a) restringiu a presença de seu Espírito no homem;

b) abreviou os anos da vida humana sobre a terra ao limite de 120 anos;

c) finalmente extinguiu da face da terra toda a humanidade, deixando apenas Noé e seus descendentes.

Assim, os gigantes misteriosamente foram mencionados pelo autor de Gênesis sem qualquer pista sobre sua real origem e reaparecimento. Pela narrativa é possível concluir que a data do livro seja bem mais adiantada ao período mosaico do que se pode admitir, ao tempo em que os gigantes seriam referenciados a dois momentos passados bem distantes e que já não haveria mais sinal deles na data da composição do livro. O certo é que se um dia houve homens famosos que dominaram a terra por meio da violência e opulência de modo a subjulgarem todos os outros, já não há mais qualquer indício inequívoco de sua passagem a não ser obscuras menções literárias. O que nos prova que sua existência foi controversa e passível de esquecimento.

Ironicamente, em contraste com todos os gigantes, herois e valentes, um dos únicos nomes dessa época que é lembrado até hoje é o de Noé, um pacato homem de família, que aparentemente gostava de animais, mexia com carpintaria e era lavrador. Sua grandeza se tornou notória simplesmente pelo fato de que achou graça diante de Deus, sendo-lhe temente e íntegro.

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