O Reino dos Céus é Tomado por Esforço?

“Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele” (Jesus, em Mateus 11.12).

O reino dos céus é tomado por esforço?

A primeira resposta é: Não. O Reino dos céus não é tomado por esforço, não da maneira que as pessoas pensam. O Reino dos céus é recebido de graça, mediante a fé e a fé é um dom que só Deus pode dar. Jesus disse que só pode entrar no Reino dos céus quem nascer de novo. E ninguém pode, por si mesmo, realizar tal ato. Paulo afirma que todos nós estávamos mortos em nossos delitos e pecados. Mortos não fazem escolha alguma. Na condição de mortos espirituais, jamais escolheríamos a Deus e o Reino dos céus. Reconhecendo sua total falta de incapacidade moral e espiritual, Charles Spurgeon admite a eleição afirmando: “…tenho absoluta certeza que, se Deus não me escolhesse, eu jamais o escolheria. Tenho certeza que ele me escolheu antes de eu nascer, ou do contrário nunca me escolheria depois disso.” Assim, nenhum ser humano possui mérito a qualquer tempo que o habilite para a salvação. Essa é uma escolha total da vontade soberana e graciosa de Deus.

Os profetas do Antigo Testamento sofreram oposição ferrenha por terem pregado a mensagem da graça. Pela maneira como eles e a mensagem deles foram recebidos fica claro que o Reino nunca foi acolhido como proposto: de graça. Contrariando tudo, os homens preferiram o próprio mérito, o próprio esforço, negando a graça, ora perseguindo e torturando os profetas de Deus, ora matando-os. Porque o seu desejo era manter o reino que eles criaram em torno de si mesmos. Qualquer um que viesse a falar contra seu reinado nacionalista, era considerado uma ameaça, mesmo que viessem em nome de Deus. Então, os mensageiros de Deus sofreram violência como Hebreus 11.36-40 resume bem.

Essa recepção agressiva durou até o tempo de João Batista e culminou com a crucificação do Filho de Deus pelas mãos dos filhos do Reino que rejeitaram sua palavra. João pregou arrependimento, e os religiosos o rejeitaram como a um fanático por causa da sua aparência e gravidade no falar. Jesus veio e pregou as boas-novas da graça, também o rejeitaram, como a um liberal e dissoluto, amigo de pecadores que pregava coisas absurdas e incompreensíveis para a maioria deles.

Contudo, os judeus não foram os únicos. Os governantes romanos e autoridades de Israel fizeram o mesmo que no passado, se opondo e resistindo ao avanço do Reino. Herodes, o Grande, por exemplo, perseguiu a Jesus e sua família, e Herodes, seu filho e sucessor na Judeia, mandou prender e matar a João Batista.

A verdade por trás de toda essa violência reside no fato de que o entendimento de salvação seria pelo próprio esforço. O problema é que, por justiça própria, ninguém pode ser salvo (quem de si mesmo é bom o suficiente para merecer o céu?). Pelo contrário, o esforço de se produzir uma justiça própria que resulte em salvação, só demonstra a perversidade e condenação dos homens, sua arrogância, prepotência e vanglória. E é precisamente por isso que os homens rejeitam a graça e se opõem violentamente contra o Reino, por querer salvar a si mesmos. Isso porque os que buscam estabelecer a própria justiça negligenciam a justiça que vem de Deus, e se tornam os algozes da graça, negando a eficácia da cruz. Além do mais, foram os ávidos por entrar no Reino dos céus pela força que desprezaram a graça e crucificaram o Senhor. E o que para eles seria motivo de mérito, se tornou de perdição. E essa loucura ainda é a mesma, e muito mais patológica entre os esforços obstinados e sem entendimento dos dias atuais

No contexto da afirmação de Jesus sobre o esforço por se apoderar do Reino João Batista, o maior dos profetas do Antigo Testamento e o maior de todos os seres humanos (conforme Jesus 11.11), foi preso como malfeitor. A própria geração de João rejeitou a sua pregação e também a pregação de Jesus. As cidades que ouviram as grandezas do Reino pela pregação do Evangelho, também não se arrependeram nem creram na mensagem da graça (Corazim, Betsaida, Cafarnaum). Esta é a condenação dos judeus a que Paulo se refere em Romanos 10.3: “Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus”. A salvação é um dom de Deus recebido pela fé, não pelo esforço humano, para que ninguém se vanglorie diante de Deus (Ef 2.8, 9). Quando os homens não se sujeitam à justiça de Deus (que é loucura para eles) estabelecem sua própria justiça, seus meios de autojustificação. Isso é o que se denomina religião. É o esforço do homem querendo chegar a Deus por uma dignidade própria. Na parábola do fariseu e do publicano Jesus disse que o fariseu, que se autojustificava diante de Deus na verdade, não foi justificado, pois apenas exaltou a si mesmo como se fosse digno de receber o bem de Deus pelas coisas “boas” que praticou. Para ele, é como se Deus estivesse obrigado a retribuir. De fato, nossa retribuição como pecadores e naturalmente inimigos de Deus é o castigo e condenação. Nossas melhores obras são como um trapo imundo (Is 64.6).

Por outro lado, a resposta à pergunta O Reino dos céus é tomado por esforço? é: Sim. Porque em vista da incapacidade humana de salvar a si mesmo, de oferecer a Deus uma justiça própria, existe aí a necessidade de um salvador separado dos homens. Existe a necessidade de um substituto inculpável e apto para salvar os pecadores e alguém em quem eles possam confiar, exceto em si mesmos. Deus é quem estabelece a sua justiça e o seu reino, cabe ao homem buscarem-nos. Pois a justiça que Deus requer deve ser cumprida integralmente, sem falhas nem omissões. O que demanda perfeição (Mt. 5.48). No entanto é evidente que por si só ninguém jamais seria salvo e sem a graça ninguém teria força ou virtude em si mesmo para buscar o reino de Deus. Mas isso que era impossível aos homens foi possível a Deus, que enviou o seu único Filho para ser o nosso substituto legal perante ele. Jesus obedeceu em tudo o que não poderíamos obedecer, pagou o preço das transgressões, e foi condenado em nosso lugar. Jesus Cristo, sendo rico se fez pobre por amor de nós para que nos fizesse ricos.

Por meio dele, quem crê na justiça de Deus, já está justificado, assim de graça! Sem esforço, sem barganhas, sem obras de justiça, sem sacrifícios próprios, mas pelo sacrifício perfeito de Jesus, o Cordeiro de Deus. Por esse motivo, sim o Reino dos céus é tomado por esforço, pelo esforço de Jesus, suas obras de justiça, sua pureza e santidade, sua obediência completa ao Pai, pelo seu sangue. Coisas essas que ninguém em si mesmo é perfeito a não ser ele. Se quiser tentar, o azar é seu.

Leia, por exemplo, o que o Salmo 24 nos diz sobre os que subirão à presença se Deus: “Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente. Este obterá do SENHOR a bênção e a justiça do Deus da sua salvação.” Agora pergunte a si mesmo: “quem em si mesmo é limpo de mãos (inocente)? Quem é puro de coração (perfeito)? A resposta é: somente Jesus. Por isso somente Jesus é digno, somente ele é merecedor. Ele subiu ao Pai, permanece diante dele, e intercede por nós, pois é limpo de mãos e puro de coração, jamais se entregou à falsidade, e nunca jurou premeditadamente sobre algo que não deveria. Ele obteve do Senhor a bênção, a justiça e a salvação. E ele nos entrega por meio da fé.

É por esse motivo que no mesmo capítulo 11 de Mateus Jesus faz aquele convite à entrega à graça de Deus nele:

Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve (Mt. 11:25-30).

Jesus se alegra que o Pai tenha escondido esse mistério dos que se consideram aptos e entendidos, e revelou aos pequenos, aqueles que se veem como totalmente incapazes e desprovidos, posto que só os pequeninos podem compreender o tamanho, a largura, a altura e a profundidade da graça que os conduz a Deus.

Como o jugo de Jesus é leve e seu fardo é suave! Bem diferente do jugo dos fanáticos e religiosos que querem à força entrar no Reino de Deus e, não só deixam de entrar, como impedem os que querem entrar, e fazem de seus seguidores filhos do inferno duas vezes piores do que eles próprios, como disse Jesus.

12 comentários em “O Reino dos Céus é Tomado por Esforço?

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  1. Victor, a paz!! Obrigada pela explicação nesse texto! Que Deus te use cada vez mais! Eu fiquei com uma dúvida, entretanto…o que você pensa sobre a adaptação dessa passagem para o contexto de evangelizarmos as nações? Isso faz algum sentido para você? De “ganharmos” as pessoas não pela violência física e emocional, mas pela violência no sentido de energia, pelo estímulo intenso dado pelo Espírito Santo?

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    1. Olá, Gabriela. Paz. Obrigado por sua visita e comentário. Adaptar um texto nunca é saudável, pois estaremos distorcendo sua interpretaçãonpara justificar o que pensamos ser. Ainda que sejam coisas boas como a que você mencionou. Sobre evangelização das nações temos abundantes textos na Escritura falando sobre isso e conclamando o povo de Deus a proclamar as boas-novas. Veja por exemplo o Salmo 67, 96 e muitos outros, os textos de Isaías, Marcos 16, Mateus 28, o livro de Atos inteiro nos ensina como a igreja e cada cristão deve viver na dependência do Espírito para anunciar o evangelho por onde passar. Então acho que não faltam textos para isso. O que pretendi nesse post não entra diretamente em relação com isso. Deus te abençoe e te use para alcançar muitos para Cristo. Um abraço.

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  2. Meu querido parabéns. Sua explicação foi mto abrangente referente ao texto de Mt 11:12 sobre o reino ser tomado por esforço. Por isso q travei pq antes de ler seu estudo viajei nisso. De sim ou nao ai vc esclarecer “sim e nao ” foi mto bom. E tbm explicando ao icaro sobre a graça nao nos permite sair dissolutamente pecando e sim cuidar para q nao se perca a graça .
    Se nao dermos valor a graça ela será inutil. Obg

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    1. Glauber, é uma satisfação e uma felicidade para mim saber que pessoas como você estão em busca do conhecimento da graça de Deus e que tenho a mesma graça de ser participante nisso. Seja sempre bem-vindo. Deus te abençoe e te ilumine sempre mais e mais. Abço.

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  3. Não concordo com esta explanação, se não nós teremos uma Graça barata. É necessário permanecer até o fim, para ser salvo Mt 24:13. O Senhor Jesus veio exclusivamente para perdoar os pecados, vejo muitas pessoas aceitando, declarando Jesus e não tendo continuidade com Cristo e achando que está salvo. Jesus Cristo Ele Salva, mas é necessário a nós vivermos uma vida como salvos e caminhando em santificação, sem a qual ninguém verá a Deus.Hebreus 12:14.

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    1. Olá, Edson. Obrigado por sua visita e comentário. Primeiro, se discorda, sugiro que o faça biblicamente. Segundo, o que está em questão aqui é apenas a doutrina da salvação (soteriologia). A vida com Deus e boas obras pertencem a outro ramo doutrinário, santificação, que não é o alvo do post. Terceiro, como você bem disse, o verdadeiro crente em Jesus não desprezará, ultrajará ou abusará da graça, barateando-a. Esse assunto também pertence a outro segmento doutrinário, a eleição. Nós não sabemos de fato quem são os eleitos, mas cremos que todos eles manifestarão genuína vida piedosa. Mesmo pessoas não convertidas podem ter uma vida piedosa, mas nunca terem nascido de novo. Por isso, cremos conforme a Escritura que fomos chamados por Deus através da pregação do Evangelho, vivificados e convencidos pelo Espírito, recebemos a fé em Cristo como um dom de Deus, somos justificados pela graça mediante a fé, e só então passamos a desenvolver nossa salvação com temor e tremor. E isso não sem a graça e o poder do Espírito que habita em nós. Assim, vamos sendo transformados de glória em glória, de fé em fé, por causa da nossa união com Cristo e da vida eterna que nele temos. A soteriologia e a santificação andam de mãos dadas, assim como a fé e as boas obras. Contudo, somos salvos pela graça, para as boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas. A santificação é, portanto, a consequência inescapável da nossa salvação. Mas a salvação vem primeiro. Resumidamente, é isso. Como em outra resposta a um outro comentário, sugiro também a leitura de Romanos 4 a 12, onde Paulo discorre a respeito de cada uma dessas doutrinas da maravilhosa e preciosíssima graça, da eleição até a santificação. Um abraço.

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      1. Perfeito pra mim. Somente a graça.
        Fui escolhido antes da fundação do mundo.
        Sou filho amado do meu Senhor, abençoado com todas as bênçãos espirituais em Cristo, que me escolheu, me chamou, me justificou. Enfim, é tudo dele, por Ele, pra Ele. E sou eternamente grato por isso.

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  4. ola victor, não compreendi muito bem, então basta aceitar Jesus para ser salvo? pois sempre vi a graça como uma porta, algo que te da acesso, o qual homem nenhum poderia realizar, e todos os designos do NT sobre vivencia comportamento, moral e etc… não temos que cumprir?

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    1. Olá, Icaro. Sim, basta aceitar a Jesus, mas compreendendo que isso não vem de nós, é dom de Deus. No entanto, isso não significa que toda vida cristã está consumada. A nossa justificação é um ato da graça de Deus àquele que tem fé em Jesus. A salvação pela graça é apenas o princípio da vida com Deus. Pois como diz a Escritura, todos nós estávamos mortos em nossos delitos e pecados, alheios às promessas de Deus e à aliança. Mas fomos aproximados pelo sangue de Cristo, não por nossas obras. É sobre esse fundamento que a vida cristã se desenvolve, como diz também a Escritura no NT: “desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor”, “segui a santificação”, “não vos conformeis com este século”, e muitas outras ordenanças como estas. A diferença é que nenhuma dessas coisas cooperam para a nossa salvação, elas são fruto da graça de Deus mediante seu Espírito que nos vivificou em Cristo. Por isso Paulo diz: “andai no Espírito e jamais satisfareis a concupiscência da carne”. Enfim, somos alcançados pela graça para vivermos uma vida plena na presença de Deus e dos homens, guardando os mandamentos de Cristo. Portanto, nossas atitude morais e éticas são o resultado dessa graça justificadora, da qual somos incluídos para andarmos nas boas obras que Deus preparou para que andássemos nelas. Pois ele é quem opera em nós tanto o querer quanto o realizar segundo sua boa vontade. E isso não é de modo algum uma vida mecânica, mas orgânica por causa da nossa união com Cristo.
      Obrigado por sua pergunta séria. Recomendo uma leitura devocional e bastante atenta em Romanos, especialmente os capítulos 3 a 12. Um abraço.

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  5. Victor que Deus continue te abençoando,e te dando um entendimento que vem do alto,pois este entendimento no faz mergulhar em mistérios
    bíblicos que verdadeiramente alimentam a nossa alma e nos faz conhecer um pouco do nosso amado Jesus .Graça e paz de nosso Senhor Jesus Cristo seja você e sua família.

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