Deus Está Me Chamando Para Ser Pastor?

Por David Mathis

Deus está me chamando para o ministério pastoral?

É uma questão com a qual muitos cristãos lutam em algum momento de sua vida de fé. Não apenas na adolescência ou no início da idade adulta, mas às vezes na meia-idade, ou mesmo na aproximação da chamada idade da aposentadoria.

O Novo Testamento não traz linhas claras e distintas entre o “ministério de tempo integral” e o chamado “trabalho secular”. Em tudo o que Deus, pela sua providência, nos conduz para a nossa labuta diária, ele nos chama a fazer o nosso trabalho “não servindo apenas sob vigilância, visando tão-somente agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor” (Colossenses 3.22). O apóstolo de Cristo encarrega todos os trabalhadores: ” Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens, ​cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo” (Colossenses 3.23-24, e Efésios 6.6-8).

A divisão fundamental não é entre o ministério de tempo integral e os trabalhos não ministeriais, mas esta importante distinção: o ofício da igreja. Talvez a melhor pergunta a ser feita — ou, pelo menos, onde temos alguns textos específicos para nos dar mais clareza — é a seguinte: Eu sou chamado para o ofício de presbítero?

Devemos notar que os presbíteros no Novo Testamento (também chamados pastores ou supervisores) são homens espiritualmente maduros (1 Timóteo 3.2; Tito 1.6). Não qualquer cristão, e nem qualquer homem, mas homens maduros. “Presbítero” é o mesmo ofício que muitas vezes hoje se chama “pastor” (baseado no nome pastor em Efésios 4.11 e suas formas verbais em Atos 20.28 e 1 Pedro 5.2). O mesmo ofício também é chamado de “superintendente” em quatro textos (Atos 20.28; Filipenses 1.1; 1 Timóteo 3.1-2; Tito 1.7). Ao focarmos no ofício, em vez de simplesmente um ministério vocacional (ou não-vocacional), vários textos específicos nos dão alguns rumos.

  1. Eu Aspiro? (Aspiração)

Primeiro, Deus quer que os pastores aspirem fazer o trabalho. Ele quer presbíteros que alegremente se doam nessa obra emocionalmente desgastante, “não com tristeza ou por necessidade” (2 Coríntios 9.7). Deus ama um pastor bem disposto.

Quando o apóstolo Paulo aborda as qualificações dos pastores-presbíteros-supervisores, ele primeiro menciona a aspiração. “​Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja” (1 Timóteo 3.1). Deus quer homens que desejem fazer o trabalho, não homens que o façam simplesmente por um senso de dever. Ele agarra os pastores pelo coração; ele não os torce pelo braço.

Pedro pode dizer isso mais poderosamente. Cristo quer que os presbíteros pastoreiem o seu rebanho “​não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer” (1 Pedro 5.2). Quão excepcional que o pastoreio por aspiração e prazer, não por obrigação e dever, seja “como Deus quer”. Esse é o Deus que temos — o Deus desejável (não forçoso), o qual quer pastores que (não por dever) sejam pastores que aspiram. Um Deus feliz como esse significa que os líderes de sua igreja fazem seu trabalho “com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita” ao povo (Hebreus 13.17).

Praticamente, então, quando ouvimos homens, jovens e velhos, expressarem uma aspiração ao ofício pastoral, não deveríamos querer que nossa primeira tendência seja contestá-la, esmagá-la ou ver se conseguimos dissuadi-los disso. Em vez disso, queremos dar-lhes o benefício da dúvida, que Deus está trabalhando. Tal aspiração não é um desejo natural, mas sobrenatural. Comecemos por encorajar homens que expressem um coração tão anormal.

O desejo pelo trabalho tem um papel a desempenhar no chamado ao ofício da igreja que pode não ser em outros trabalhos. Seu dia de trabalho pode ser algo que você pode fazer, mas não aproveita, e Deus pode trabalhar com isso por uma temporada. Mas uma diferença fundamental entre o ministério pastoral e todos os outros tipos de trabalho é a necessidade da aspiração.

Essa aspiração é, muitas vezes, o início de uma chamada pastoral, mas nunca é a totalidade. A aspiração é um ótimo lugar para começar, mas o desejo por si só não equivale a um chamado. Deus então nos dá duas camadas de confirmação: a confirmação dos outros e a oportunidade da vida real.

  1. Eu Tenho o Dom? (Confirmação)

Depois de sentir um desejo subjetivo pelo ministério pastoral, precisamos fazer uma pergunta mais objetiva sobre nossa dotação. Já vi provas, mesmo que pequenas, de frutificação ao servir os outros através do ensino e do conselho bíblico? E, ainda mais importante do que a minha auto avaliação, outros confirmam os meus dons para o ministério pastoral?

Aqui, os desejos do coração encontram as tachinhas de bronze das necessidades dos outros. O ofício na igreja não é para a auto realização espiritual ou apenas para afirmar a maturidade espiritual de um homem, mas é para atender às necessidades reais dos outros. As qualificações dos presbíteros são, de certa forma, menos significantes. Os presbíteros não devem ser a soma total de todos os homens espiritualmente qualificados na igreja. Em vez disso, dentre aqueles que são qualificados, os presbíteros são aqueles que estão dispostos a fazer sacrifícios extras (por uma temporada ou a longo prazo) para cuidar da igreja e atender às suas necessidades. A aspiração tem sua parte vital para desempenhar, mas o chamado ao ofício pastoral não é moldado principalmente pelo coração interno, mas por necessidades externas.

Isso é o oposto da perspectiva de “siga o seu coração” e “não se contente com nada menos do que seus sonhos”, que muitas vezes ouvimos na sociedade. O mais importante para discernir o chamado de Deus não é trazer os desejos de nosso coração para enfrentar o mundo, mas deixar as necessidades dos outros moldar nosso coração.

Ao longo do tempo, então, ocorre um diálogo entre o que queremos fazer e o que nos achamos bons em fazer para o benefício dos outros. O prazer em certos tipos de trabalho cresce à medida que as necessidades reais estão sendo atendidas, e enquanto outros afirmam nossos dons e esforços. Muitas vezes, até mesmo descobriremos um chamado e um dom para o ministério primeiro através das observações e encorajamentos de outros, e somente depois através de nossas próprias aspirações.

Antes de procurar oportunidades para pastorear no futuro, certifique-se de que você possa atender às necessidades espirituais reais na sua frente hoje, e busque a confirmação da sua igreja local atual e da comunidade cristã.

  1. Deus Já Abriu a Porta? (Oportunidade)

Em terceiro lugar, e talvez mais frequentemente esquecido nas discussões cristãs sobre chamado, é a real porta aberta por Deus, uma porta aberta no mundo real. Você pode se sentir chamado, e outros podem confirmar sua direção usual, mas você ainda não está completamente “chamado” para um ministério pastoral específico até que Deus abra a porta.

Deus em sua providência faz o trabalho decisivo. Ele iniciou o processo dando-lhe a aspiração; e ele confirmou a direção quando seu Espírito produziu frutos através de seus dons; agora ele confirma essa percepção do chamado abrindo a porta certa no momento certo. É definitivamente Deus, não o homem — e Deus, não você — que dá o chamado ao ofício pastoral.

Deus o Espírito é aquele que “vos constituiu bispos” (Atos 20.28).

Deus o Filho é aquele que “concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço” (Efésios 4.11-12).

O Senhor da seara é aquele a quem rogamos para que “mande trabalhadores para a sua seara” (Mateus 9.37-38).

Deus é aquele que envia os pregadores. “Como pregarão se não forem enviados?” (Romanos 10.15).

Deus é o mestre que colocará sobre sua casa fiéis e sábios mordomos (Lucas 12.42).

O Senhor Jesus Cristo é aquele de quem recebemos o ministério que devemos cumprir (Colossenses 4.17).

Na minha experiência, muitas vezes deixamos para fora esta etapa final de verificação da realidade. Dizemos que um estudante de seminário que aspira a pregar e recebeu confirmação de sua igreja local é “chamado ao ministério”. Bem, ainda não. Ele aspira ao ministério de tempo integral, graças a Deus, e algumas pessoas acharam seus dons úteis. Ele está bem no seu caminho. Mas o que esse aspirante, irmão confirmado, ainda não tem — para confirmar sua percepção do chamado — é uma oportunidade real em que algum ministério ou igreja apresenta uma descrição do trabalho e diz: “Estamos prontos para chamá-lo a pastorear aqui. Você aceitaria?”

Até que Deus, através de uma igreja local específica, faça de um homem um superintendente (Atos 20.28), o entregue à igreja (Efésios 4.11-12), o envie como trabalhador (Mateus 9.37-38; Romanos 10.14-15), e o coloque sobre sua casa (Lucas 12.42), ele ainda não é completamente chamado.

E que maravilha e bênção é quando Deus dá ao homem um desejo pelo ofício pastoral, dota-o para que encontre as necessidades reais na igreja com a palavra de Deus e sabedoria, com confirmação da vida real do corpo de Cristo, e abre uma porta para ele liderar e servir em uma igreja local específica. Então ele sabe que é chamado.

David Mathis (@davidcmathis) é editor executivo para desingGod.org e pastor na Cities Church (Igreja das Cidades) em Minneapolis. Ele é marido, pai de quatro filhos, e autor de Habits of Grace: Enjoying Jesus through the Spiritual Disciplines (Hábitos da Graça: Desfrutando de Jesus através das Disciplinas Espirituais). O livro pode ser comprado na Amazon (em inglês) aqui.
Tradução por Victor San. O post original pode ser conferido aqui. Você pode reblogar livremente desde que mencione a autoria do artigo e da tradução. É preferível que utilize um link deste artigo em seu blog.

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