O Evangelho e a Amizade

Por Aaron Menikoff

Muitos de nós lemos bons livros sobre casamento e sobre discipulado, mas eu me pergunto: quantos de nós lemos um bom livro sobre o que significa ser um amigo? Não muitos, é o meu palpite. Surpreende-me que poucos livros sobre amizade são lidos ou, talvez, que tão poucos sejam escritos. Nem todos somos chamados a ser maridos ou esposas, mas todos somos chamados a ser amigos.

Nunca me surpreendo quando programas de televisão como Friends ou Seinfeld ou Cheers disparam nas classificações. A televisão pode ser como uma droga potente, dando ao espectador um gosto breve e intenso de algo que ele deseja experimentar. O tema para Cheers captura o anseio em nossos corações para uma comunidade de amigos:

Às vezes, você quer ir onde todos conhecem seu nome, e sempre estão contentes por você ter vindo…

Adorei assistir a um programa chamado The Courtship of Eddie’s Father — o conto de um menino e sua amizade com seu pai. Lembro-me da linha de abertura da música tema também:

As pessoas me deixam falar sobre o meu melhor amigo…

Podemos ter dificuldades em definir a amizade (para aqueles interessados ​​em uma tentativa antiga, veja Lísias de Platão), mas nós a conhecemos quando a vemos. A amizade existe onde existe amor e carinho, confiança e encorajamento. Mas esta é uma resposta desajeitada. Dizem que um cachorro é o melhor amigo do homem. É verdade que um homem pode dar amor, carinho, confiança e encorajamento a um cão, e até receber o mesmo dele. Mas quando tudo é dito e feito, acho que a maioria de nós quer amizades que são mais profundas e mais ricas do que as que o melhor cachorro pode oferecer.

Para uma melhor compreensão da amizade, volto primeiro para João 15.9-15, onde Jesus disse aos seus discípulos:

​Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei no meu amor. ​Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço. ​Tenho-vos dito estas coisas para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo. ​O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. ​Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. ​Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. ​Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer. 

Nestes versículos, Jesus ensinou o que ele passou a modelar: a verdadeira amizade exige sacrifício.

A preocupação global de Jesus em João 15 é que seus discípulos perseverem na fé. Nos versículos 1-8, Jesus ensina que os verdadeiros discípulos produzirão frutos espirituais: “​Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos” (v. 8). Nos versículos 18-26, Jesus ensinou que o fruto espiritual consiste em suportar a oposição do mundo — o mundo que não considera que Cristo seja amigo: “Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros” (v. 20). Mais uma vez, o ponto deste capítulo é que aqueles que seguem Jesus pela obediência aos seus mandamentos, enfrentarão a perseguição do mundo. Estas são as ordens de Cristo para vivermos como amigos de Deus.

A amizade é amor sacrificial. Versículos 12-14: “O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando”. Em outras palavras, amigos de Cristo são aqueles que se amam. Aqueles que se amam são aqueles que estão dispostos a dar suas vidas um pelo outro. No coração da amizade estão o amor e o sacrifício. Jesus, é claro, estava principalmente preocupado com o fato de seus discípulos tolerarem voluntariamente o sacrifício e o sofrimento que viriam quando obedecessem seus mandamentos.

Os discípulos, no entanto, não compreenderiam verdadeiramente o ensinamento de Cristo até terem testemunhado a sua morte e serem transformados pela sua ressurreição. Jesus entregou voluntariamente sua vida. Ele suportou a dor atroz da cruz e a ira de Deus quando morreu no lugar dos pecadores. Jamais vimos, e nunca conheceremos, um ato de amor mais profundo e poderoso do que esse. Como João expôs em sua primeira carta: “​Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós” (1 João 3.16a).

A importância dessa verdade para a compreensão cristã da amizade não deve ser desperdiçada. Há muita sabedoria sobre a amizade em toda a Bíblia, e a melhor sabedoria vem do próprio evangelho. Olhe para suas próprias amizades e faça as seguintes perguntas:

(1) “Eu tomo a iniciativa em minhas amizades?” É muito fácil esperar que outra pessoa faça o primeiro movimento, faça o primeiro telefonema, envie a primeira mensagem, faça o primeiro convite. O medo da rejeição estimula a inatividade. Felizmente, Deus não esperou que nos aproximássemos dele, “​Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4.19). Se houver uma amizade em sua vida que esteja ardendo como uma brasa, reavive-a tomando a iniciativa.

(2) “Eu sacrifico em minhas amizades?” O custo de seguir a Jesus deve ser refletido em nossos relacionamentos. Isso é verdade para as famílias — biológicas e espirituais — mas é verdade para todas as amizades. Considere os custos que você tem para manter viva uma amizade. Pode ser tão simples quanto uma vontade de passar uma hora no telefone, quando parte de você preferiria dormir. Pode ser tão tentador quanto dirigir quilômetros fora do seu caminho para ser um incentivo. Eu lembro quando um amigo fez exatamente isso por mim. Eu precisava de um conselho e ele estava no meio de uma viagem pela estrada. Embora eu não estivesse em sua rota, ele mudou seus planos para vir falar pessoalmente. Isso é um amigo.

(3) “Eu aprecio meus amigos por quem eles são ou pelo que eles podem me oferecer?” A amizade não é uma ciência exata; não está claro por que escolhemos algumas pessoas acima de outras. Nós, sem dúvida, queremos estar cercados de pessoas que nos energizam, e isso é conveniente. No entanto, se o nosso padrão de amizade é sempre o que alguém pode fazer por nós, então está faltando evangelho na relação. Deus não amou Israel por causa do valor inerente de seu povo; ele simplesmente escolheu amá-los (Deuteronômio 7.7). As nossas amizades não devem ser marcadas por um compromisso semelhante e deliberado?

(4) “Eu quero amigos íntimos?” Não suponho que todos desejem amigos íntimos. Nem somos todos como Sócrates de Platão, que disse: “Tenho uma paixão pelos amigos; e eu prefiro ter um bom amigo do que… o melhor cavalo ou cachorro. Sim, pelo cão do Egito, eu preferiria muito mais um amigo verdadeiro do que todo o ouro de Dario, ou mesmo do que o próprio Dario; eu sou um amante de amigos desse tipo”. Não, nem todos temos paixão pela amizade. Alguns preferem um tempo sozinho com um livro, ou na frente de um filme. Outros acham apoio suficiente na família imediata, a ponto de evitar buscar amizades em outros lugares. No entanto, devemos observar que, embora Jesus tenha desfrutado de uma amizade e comunhão perfeitas na Trindade divina, a encarnação mostrou seu desejo de que outros se tornem seu amigo. Através dessa obra na cruz, Cristo nos permitiu tornar-se seu amigo. Esta é uma motivação maravilhosa para o evangelismo, sim! Mas também é uma motivação para procurarmos amigos para amar sacrificialmente.

(5) “Eu tenho expectativas piedosas da amizade?” Vários anos atrás, eu estava caminhando com um amigo nas ruas de Nova York. Ele gentilmente se ofereceu para me ajudar. Eu gentilmente recusei. Sua oferta era tão graciosa que para mim parecia ser demais aceitar. Ele discordou. Embora essas não sejam suas palavras exatas, sua mensagem para mim foi clara: “Talvez você não queira receber minha ajuda. É uma coisa muito humilde aceitar a ajuda de um amigo. Você os permite que eles o sirvam quando você não tem nada para dar em troca. Mas não é isso que é a amizade? Além disso, você não deveria pedir aos amigos que se sacrifiquem por você como um símbolo de sua dependência deles?” Ele estava certo. Quando o evangelho está no coração de nossas amizades, isso nos levará a ter expectativas piedosas por nossos amigos.

(6) “Eu suporto meus amigos?” Muitas vezes somos feridos por nossos amigos. Nossa paciência é testada por eles. Nós nos perguntamos se vale a pena lutar, se vale a pena o esforço. Mais uma vez, o evangelho fornece nossa resposta. Esperando a graça e a misericórdia de Deus expostas na cruz, Jesus ensinou aos discípulos que suas vidas também deveriam ser marcadas pela graça e pela misericórdia: “​Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará” (Mateus 6.14). O perdão é um pilar da vida cristã que irá impedir que se acabe mais de uma amizade.

(7) “Eu me torno para Deus através da amizade?” As amizades podem ser algumas das relações mais gratificantes e desanimadoras na Terra — especialmente quando temos expectativas piedosas. Vale ressaltar que, embora a Bíblia fale muito sobre a nossa necessidade dos outros, fala ainda mais sobre a nossa necessidade de Deus. Considere os salmos. Eles são um testemunho do carinho de Deus e do terno cuidado com seu povo. São canções de confiança em Deus: “​​SENHOR, a ti clamo, dá-te pressa em me acudir; inclina os ouvidos à minha voz, quando te invoco.” (Salmo 141.1). Esta é uma oração de um homem que conta com o Senhor para ser seu amigo. Abraão, também, foi chamado de amigo de Deus (Tiago 2.23).

Nós devemos ser cuidadosos. Primeiro, devemos ter cuidado para não minimizar a transcendência de Deus. Ele não é o tipo de amigo que esperamos encontrar no nosso bairro ou na nossa igreja. Como observou Don Carson, comentando esses versículos de João, “a amizade mútua e recíproca do tipo moderno não está em questão, e não pode estar sem rebaixar a Deus”.[1] Carson apontou que nossa relação com Deus é diferente de qualquer outra. Ele é nosso Senhor e nosso Mestre — nós somos seus escravos, felizmente. Em segundo lugar, devemos ter cuidado para não minimizar a unicidade da relação matrimonial. A relação entre um marido e sua esposa que revela serviço e sacrifício é uma imagem especialmente profunda do evangelho.

No entanto, devemos abraçar a verdade de que Deus fez amizade conosco em Cristo. Ele é tudo o que precisamos. Embora ele queira que alguns se casem e que outros tenham ricas amizades, somente ele satisfaz. Podemos procurar amigos durante todo o dia, mas nunca encontraremos alguém que nos ame e nos ajude mais do que Deus fez e continua a fazer em Jesus Cristo. Nossa busca por amizades nunca deve superar, ofuscar ou ultrapassar nossa busca por Deus. Só ele nunca nos decepcionará.

A Bíblia diz muito mais sobre a amizade do que já foi mencionado aqui. Há muitas outras questões a serem respondidas. Por exemplo, há uma diferença entre fazer amizade com alguém e discipular alguém? No entanto, por enquanto, basta notar que os cristãos realmente deveriam ser os melhores amigos dos outros, porque nos tornamos amigos do Salvador.

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Aaron Menikoff (PhD, The Southern Baptist Theological Seminary) é pastor sênior da Igreja Batista Monte Vernon em Atlanta, Geórgia, e autor de Politics and Piety (Pickwick, 2014).
Traduzido por Victor San. O artigo original pode ser lido aqui.  É permitido copiar ou repostar em seu blog, desde que faça as devidas referências de autoria e tradução. É preferível que insira o link deste artigo em seu post.
[1] Comentário de João, p. 523

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