O Que Significa Ser Humano? Olhe Para Jesus

Esta é uma era importante em muitos sentidos, e o sentido não menos importante deles é a luta da era moderna com o significado e a natureza da humanidade. Cinquenta anos atrás, a visão febril de Nietzsche de uma era sem Deus tornou-se dominante, refazendo a vida pública, e levando a um dia em que ser ateu é moda, e é ser bem-informado. A doutrina da humanidade veio em seguida. Nos últimos 40 anos, a sociedade ocidental reeditou sua concepção da pessoa humana. Por milênios, a humanidade foi entendida à luz de Deus; a humanidade foi feita à imagem de Deus e, assim, a raça humana tinha certos deveres perante Deus. Não devemos romantizar o passado; muitas pessoas não tinham conhecimento salvador de Deus. Eles também tinham uma consciência limitada da capacidade de retrabalhar tanto a teologia como o homem teológico.

Tudo isso mudou. Nós, no Ocidente, já não baseamos nosso pensamento, nosso mover e nosso existir em Deus, de modo que não mais aderimos a uma compreensão estável e fixa da humanidade. As pessoas não são feitas de nenhum molde, nem formadas por qualquer visão, ou projetadas com qualquer telos (propósito). Elas podem ter um corpo, mas isso nada lhes diz sobre ontologia e propósito. É, em vez disso, uma tela, um veículo para a expressão do eu (ou qualquer desejo que se deva escolher). A cosmovisão resultante oferecida hoje é uma espécie de paganismo secularista — a única coisa verdadeira, ao que parece, sou eu e, por extensão, meus instintos mais fortes, meus anseios mais autênticos. (Eu defendo este ponto de vista da antropologia moderna em certo grau em meu próximo livro Humanidade Reencantadora: Antropologia Bíblica para o Século XXI.)

Quão bem-vindo, então, é o recente livro de Marc Cortez, ReCursos de Antropologia Teológica: Um Relato Construtivo da Humanidade à luz de Cristo. Professor de teologia na Wheaton College, Cortez é um pensador talentoso e um escritor fluente, adepto de atrair o leitor para discussões terrivelmente densas sobre assuntos de alto nível. Por tudo isso, Cortez mostra equidade, uma propensão a resumos expressivos, traços de humor e uma relutância contra estar preso a qualquer campo teológico em particular.

Humanidade à Luz de Cristo

A ambição do projeto de Cortez em ReCursos de Antropologia Teológica é resumido em um comentário que ele faz ao discutir natureza e graça: “tudo que achamos que sabemos sobre a humanidade deve ser reinterpretado à luz do telos sobrenatural que vemos em Jesus” (66). Cortez deixa claro que há uma oscilação neste argumento: lugares onde as habilidades e experiências do Cristo humano se aplicam mais ou menos diretamente às nossas, mas não podemos perder a natureza ousada e bíblica dessa afirmação.

Declarar em 2018 que a humanidade, de algum modo, é inerente e inevitavelmente Cristotélica ou Cristológica, é, deveras, subversivo. Se alguém concorda ou não com todas as facetas da apresentação de Cortez, a argumentação dele está correta: você não pode entender a humanidade sem conhecer a Cristo. “Em Jesus”, ele afirma, “vemos não apenas a renovação da criação, mas também sua consumação” (67). Nós não olhamos para o Novo Testamento, então, apenas para observar os ensinamentos de Jesus a fim de imitá-los. Nós olhamos para o Novo Testamento para ver como Cristo refaz todas as coisas, e, preeminentemente, para ver aonde nossa humanidade está se dirigindo. Precisamos nos ver enxertados na história de Cristo, indo para onde Cristo agora está, capazes de glorificar nosso Salvador pela união com ele.

Jesus Experimentou a Tentação Interna?

Essa discussão está ligada à compreensão exata da natureza que Cristo assumiu em sua encarnação. Cortez argumenta que Jesus assumiu uma natureza decaída e experimentou tanto a tentação externa quanto a interna. Em outras palavras, Jesus foi tentado por Satanás — externamente — como em Mateus 4, e Jesus também experimentou o desejo tentador de dentro. Se não fosse assim, argumenta Cortez, não poderíamos dizer que Cristo entrou na plenitude da condição humana e, assim, sua obra sacerdotal seria inutilmente limitada.

Que fique claro que esta é uma área complicada de consideração; teólogos que concordam sobre muita coisa podem ter perspectivas diferentes aqui. Mas eu pessoalmente diria que a “verdadeira humanidade” de Cristo significa que o vemos primeiro em termos de sua filiação divina. Ele é o Deus-Homem. Ele não é um homem que também é Deus. Ele é Deus em feitio humano. Sem entrar em uma prolongada seção, eu diria que o Novo Testamento enfatiza sua natureza justa, sua identidade santa e imaculada. Ele é o Deus-Homem, não obstante, o Deus-Homem que obedece ao Pai no poder do Espírito. Como Bruce Ware argumentou persuasivamente, o Espírito capacita e ministra a Jesus durante toda a sua vida e ministério.

Jesus experimenta toda a gama de sofrimento e provações humanas em sua vida terrena. Mas ele faz isso como o “verdadeiro humano”. Ele, portanto, não tem o que 2 Pedro 1.4 chama de “desejo maligno” emergindo das profundezas de seu coração e mente, como todos nós temos. Ele não tem desejos maus. Ele é tentado em todas as coisas como somos, mas sem pecado. Tiago 1.13-15 deixa claro (em conjunto com Mateus 5.21-30) que o desejo não é neutro. Se é dirigido para um fim justo, é justo; se é dirigido para um fim maligno, é mal. Em outras palavras, é injusto olhar com luxúria para um homem ou mulher feito por Deus (fora do pacto do casamento monogâmico) por um segundo.

O Cristo que entra em nossa humanidade na totalidade é o mesmo Cristo que perfeitamente — uma palavra forte e necessária — obedece ao Pai no poder do Espírito, mapeando o caminho até Deus em que todo verdadeiro crente viaja.

Raça e Gênero

O livro de Cortez emprega, de maneira útil, várias questões polêmicas. Seu tratamento da raça é cuidadoso e sólido, resistindo a um Cristo isolado enquanto faz justiça ao seu Judaísmo. Nós saímos gratos pela diversidade dada por Deus enquanto nos regozijamos na centralidade e acessibilidade de Cristo para todos os povos. Como precisamos da unidade cristocêntrica, criada pelo evangelho, em nossos dias, particularmente quando devemos considerar justamente as muitas maneiras pelas quais a própria igreja tem obscurecido e até mesmo negado tal unidade.

O tratamento de Cortez do essencialismo de gênero parece menos firme. Ele afirma que “o essencialismo de gênero não é necessário para manter uma ética sexual tradicional ou uma visão complementarista da governança da igreja” (209). É verdade que mantemos os decretos de Deus devido ao seu caráter teísta, como Cortez confessa, mas estou surpreso que um teólogo de uma faculdade evangélica emblemática se afaste do essencialismo de gênero desse jeito.

Sobre este ponto, Cortez argumenta que devemos “questionar até que ponto devemos enfatizar a masculinidade e a feminilidade como realidades distintas que diferem essencialmente em consequência de processos biológicos subjacentes” (210). Em vez disso, devemos nos concentrar em nossa natureza humana comum, reconhecendo simultaneamente a “interdependência das diferenças humanas”. Esta seção requer uma análise cuidadosa, dada sua verbosidade sofisticada; na base, porém, não conheço nenhum teólogo complementarista que negasse a natureza comum de todas as pessoas humanas.

Mas mesmo quando ligamos os sexos como feitos por Deus na imago Dei (que eu vejo como Cortez, não como um traço ou habilidade particular, mas como uma questão de essência que leva à função), não podemos nos afastar do homem e da mulher como a criação especial da superinteligência de Deus. Afinal, a imagem do evangelho da graça depende do casamento pactual, de um homem se casando com uma mulher por toda a vida e vivendo com ela em uma exibição vívida e alegre de liderança e submissão. A imagem do amor conjugal que nos é dada em Efésios 5.22-33 representa a gloriosa revelação da Bíblia sobre todo o telos do casamento e revela para nós o relacionamento entre Cristo e a Igreja de maneira sem precedentes.

Em suma, vamos celebrar a nossa unidade como pessoas feitas por Deus. Nós temos o verdadeiro fundamento para a união. Mas nunca percamos a beleza da diversidade criada por Deus, o homem e a mulher feitos por Deus, recebem papéis diferentes e são criados com distinções físicas e traços pessoais. Foi Deus quem fez a “biologia”, para usar a frase de Cortez, biologia única para um homem e uma biologia única para uma mulher. É Deus quem deseja que o seu evangelho crie homens e mulheres para a sua glória, refletindo a glória de maneiras que se sobrepõem significativamente, mas que nunca devem cair na mesmice.

Verdade Exótica

Há muito mais para investigar e ponderar em ReCursos de Antropologia Teológica. Eu aprendi e me beneficiei com o trabalho de Marc Cortez, e muitos leitores também. É precisamente porque Cortez tem cavalos de potência intelectuais e curiosidade bíblica que leitores de todos os tipos vão se engajar e discutir com o texto dele. Na base, podemos lucrar muito com esse relato criativo e construtivo para compreender a pessoa humana de uma nova forma, à luz da pessoa e obra de Jesus Cristo.

Embora este projeto pareça estranho e exótico no século 21, na verdade é antigo. A ideia de que a humanidade deve ser entendida à luz do Deus-Homem chocou os gregos e romanos pagãos dois milênios atrás. O milagre de Cristo, o Deus-Homem, não é menos controverso hoje em dia. Deste Cristo, e do resgate antropológico que ele ocasionou, nós cantaremos em todas as eras da eternidade e além, cheios de admiração, cheios de gratidão, nossa humanidade de retalhos corrigida e verdadeira pelo verdadeiro humano.


Owen Strachan é o autor de “Despertando a Mente Evangélica” e “O Pastor como Teólogo Público” (com Kevin Vanhoozer). Professor de teologia sistemática no Midwestern Baptist Theological Seminary, ele é o diretor do Centro de Teologia Pública e hospeda o podcast City of God. Ele está escrevendo um devocional de Jonathan Edwards (Tyndale House) e uma antropologia teológica (B&H Academic). Você pode segui-lo no Twitter.

Traduzido por Victor San

Você pode repostar esse artigo em seu blog, desde que não deixe de creditar a autoria e tradução. O texto original pode ser conferido aqui.

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