Complexo de Gósen

Complexo: sistema de ideias associadas (parcial ou totalmente inconscientes, vinculadas ao terreno da afetividade, contraditórias, não necessariamente reprimidas) capaz de levar o indivíduo a pensar, a sentir e por vezes a agir de acordo com um padrão de natureza definida.


Wikipedia

Estamos nos encaminhando para a primeira semana de isolamento em virtude da pandemia e pelo jeito, pelo menos, mais uma semana virá. Em tempos como esse sempre surgem sentimentos de consternação pelas vidas perdidas, em alguns de tristeza, outros de pânico e desespero. Não são esses que realmente preocupam do ponto de vista da sensatez que uma situação como essa evoca. Lamentar e chorar nunca é vergonhoso em momentos de aflição, principalmente quando há perdas.

O que provoca aquele suspiro profundo de indignação é a cegueira de outras pessoas que permanecem insensíveis em relação às circunstâncias e posam como se fossem inatingíveis. Imaginam estar envoltas em uma bolha privilegiada, não obstante estarem no mesmo planeta que todos os demais e, por vezes, no mesmo ambiente, a alguns centímetros.

Elas “acreditam” que por pertencerem a Deus nada as afetará, mesmo em um cenário que requer cuidados como o atual. Este é um tipo de complexo cujo padrão comportamental tem origem na narrativa bíblica de Êxodo, capítulos de 7 a 12. Nestes capítulos são narrados os acontecimentos relacionados às dez pragas sobre o Egito por ocasião da libertação dos israelitas que viviam sob a opressão de Faraó, possivelmente Tutemés III.

Neste contexto terrível, algo inusitado acontecia. Enquanto todas as pragas castigavam o Egito, uma pequena cidade, também chamada de “cidade-celeiro” permanecia intocada. Era a cidade em que os hebreus se alojavam, Gósen.

É certo, mas nem todos entendem que nem tudo que é bíblico é cristão! Ou ainda, nem tudo que é biblicamente narrado em relação a um povo ou situação significa que se tornou um padrão de Deus para esse povo. O cativeiro egípcio ocorreu pela vontade de Deus, como revelado a Abraão em Gênesis 15.13: “Então disse a Abrão: Saibas, de certo, que peregrina será a tua descendência em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos”. Nem por isso tomam este fato por padrão.

Não é razoável querer parecer que em nome de Deus se abre o peito para mostrar ao mundo que se é de Deus, quando na verdade, no íntimo, é apenas um reflexo da reclusão de uma alma apavorada pela possibilidade de não ser confirmada como alguém de Deus. Precisa-se dessa confirmação gosênica para mostrar ao mundo que se é de Deus. Mas se aplicarmos a lógica empregada, quem seria de Deus? Pois dizem: “quem é de Deus não pega vírus.” Logo, se os que se dizem de Deus, mas acabam pegando vírus, pela lógica eles mesmos estariam se confirmando como não-de-Deus.

A questão é que se valer de Gósen como padrão é ignorar o que é ser cristão e é bem triste, para não dizer patético. As circunstâncias mudaram, mas a palavra de Jesus, não. No mundo, os discípulos terão aflições, perseguições, passarão por pestes, terremotos, fomes e guerras, mas o centro de sua confiança é: “Tende bom ânimo, eu venci o mundo”. Jesus venceu o mundo, mas nós permanecemos aqui e somos encorajados a enfrentar as situações que ainda deverão acontecer ao mundo, mas sempre com a convicção de que também isto é passageiro.

Portanto, lamentar, mas confiar é a atitude mais sensata que o cristão pode ter dado o contexto presente. Orar, mas também refletir sobre a situação e usar o entendimento para que meu padrão de consciência e comportamento não seja Gósen, mas Jesus. Vou orar, mas vou lavar as mãos. Pois pela oração, chego junto ao trono da graça para socorro em ocasião oportuna. Mas pelas minhas mãos eu toco meu próximo.

A promessa que temos é: quem é de Deus, o malígno não lhe toca. Mas as pragas, são o exército de Deus operando seus propósitos. Se praga nenhuma chegar à minha tenda isso se deve pelo fato de que Jesus levou sobre si as nossas enfermidades. Mas se ela vier sobre mim, todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus e foram vocacionados segundo o seu propósito de os tornar conforme Jesus. Jesus é o centro, não eu, não a peste, nem Gósen.

Pragas no Egito

“Sétima Praga do Egito” (1823), de John Martin (1789–1854)

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