Qual é a Vontade de Deus?

Todo cristão que se preze entende que a vontade de Deus é revelada, basicamente, de duas formas: através das coisas que foram criadas e através da Escritura. Esse é o entendimento mais elementar acerca do conhecimento de Deus e da salvação. Aquilo que se pode conhecer de Deus (Rm 1.18-21) somente é possível pois ele livremente se dispôs a revelar de si mesmo a nós.

A vontade de Deus revelada na criação

Quanto à criação, entendemos que a vontade de Deus é atrair glória, louvor, honra a si mesmo. Significa que Deus decidiu compartilhar sua bondade e dignidade conosco para o conhecermos. Ele não tem uma necessidade de ser elogiado ou de estar com a razão. Mas nós é que precisamos entender ser ele a razão da existência de todas as coisas e que jamais estaremos satisfeitos com as coisas criadas. Sendo assim, a vontade de Deus em relação ao homem é que este glorifique, dê razão a Deus e tenha prazer eterno unicamente nele. É nesse sentido que podemos entender o propósito das palavras do Salmo 19: “Os céus proclamam a glória de Deus; e o firmamento anuncia as obras de suas mãos” (v.1) e muitos outros. O que Deus revelou através da criação é para despertar nossa admiração, respeito e adoração a esse Deus tão sublime.

A vontade de Deus revelada pela fé e na Escritura

No que concerne à vontade de Deus revelada na Escritura, podemos entender que, para o homem, na História, a ela se antecipa a palavra da fé. Quer dizer que antes que a vontade de Deus se tornasse manifesta por meio da escrita, ele revelou a si mesmo por meio do dom espiritual chamado fé. Pela fé os antigos entenderam que o universo foi criado pela palavra de Deus (Hb 11.3). Foi assim que Abraão foi chamado, saiu de sua terra, recebeu as promessas, peregrinou em terra estranha, praticou a circuncisão, entregou e recuperou seu filho Isaque, e foi sepultado. Todo o restante de sua vida foi guiado pela fé na vontade de Deus. Foi por meio da fé que Noé recebeu instruções sobre a arca e todos os demais antepassados andaram tendo a firme convicção de que caminhavam de acordo com a vontade de Deus.

Essa fé precede a revelação dada na Escritura, ainda que esteja ligada à palavra falada (tradições orais). Pois em relação à escritura nos remetemos ao que fora transmitido no Sinai, como a vontade de Deus revelada a Moisés e aos hebreus. Somente a partir dali a vontade de Deus se tornou objetivamente cognoscível (embora subjetivamente sempre o tenha sido, ou em outras épocas seria essa a maneira objetiva). A vontade de Deus se torna conhecida pelos mandamentos e todo o restante da lei, também nos escritos, nos Salmos e no decorrer do Antigo Testamento. De modo bem mais particular, os profetas entenderam a vontade de Deus de duas formas: pela fé que tinham e pela Escritura que tinham acesso. É por essa razão que vemos muitas percepções e discernimentos novos em seus escritos, mas por outro lado também temos muitas citações, alusões e ecos da lei em suas mensagens. Por exemplo:

“Eis que eu envio um Anjo adiante de ti, para que te guarde pelo caminho e te leve ao lugar que tenho preparado.” (Êxodo 23.20)

“Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim” (Malaquias 3.1a)

Podemos incluir inúmeras referências dos profetas à lei, como as pragas de Deuteronômio 28 continuamente repetidas pela quebra da aliança, a vinda do descendente prometido de Gênesis 3.15, ou o descendente de Davi que se assentaria em seu trono para sempre. São muitas. Várias delas os profetas reiteraram a partir da Escritura que dispunham. Outras, no entanto, vieram pela fé que tinham e as visões que receberam como algo completamente inédito.

Poderíamos dizer que há um misto de revelação objetiva e subjetiva aqui. Como exemplo, várias menções são feitas ao Messias, como vividamente descrito por Isaías, ou pela sua origem mencionada por Miqueias, pela extensão do seu reinado profetizado por Daniel, etc. São inúmeras, e as novas formas são ainda mais abundantes. Mas vamos a uma terceira forma de conhecimento da vontade de Deus, pois estas duas primeiras ainda não compreendem seu objetivo final para nós, apenas circunstanciais. Estou dizendo que o conhecimento de Deus pela fé, seja através da criação seja da palavra escrita ou falada terão um fim quando o que é superior chegar (1Co 13.8-13).

Jesus e a revelação da vontade de Deus

Como dito no início, tudo isto ainda é bastante básico. E como dito também, como cristãos, nosso parâmetro último é Cristo. Ele é o arquétipo de toda revelação, profecia e palavra de Deus. Ele é e sempre foi o padrão, o selo que imprimiu a vontade de Deus a Abraão, que viu os seus dias, a Moisés que ordenou ao povo que o ouvisse quando viesse, a Isaías que viu sua glória e a todos os demais que falaram a seu respeito. Toda revelação converge para Jesus na História, pois antes dela, antes da fundação do mundo, ele era o Princípio de todas as coisas. Esse é o entendimento do escritor da carta aos Hebreus, ao dizer: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.” (Hebreus 1.1,2). Jesus revela de forma definitiva a vontade de Deus. Não devemos esperar nenhuma outra superior àquele que é a Palavra (Verbo) de Deus. Jesus encarna toda a vontade de Deus para o homem, não letras em pedra ou papel.

Podemos ter certeza disso pelo fato de que Jesus fez com que toda revelação convergisse para ele ao dizer “está escrito” e todas as demais expressões similares, como “é necessário”, “importa”, termos estes todos relacionados à sua missão. Ele fez isso em inúmeras ocasiões, principalmente quanto à sua morte e ressurreição. Porém, talvez de modo mais explícito ele o referiu na passagem de Lucas 24 em que se dirige aos discípulos no caminho de Emaús: “Então, lhes disse Jesus: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras.” (vs 25-27) e “A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém.” (vs.44-47).

Jesus não estava mais validando a Escritura do Antigo Testamento (isso já era pressuposto), ele estava afirmando o cumprimento de tudo o que constava a respeito dele. A Escritura apontava para ele. A sombra indicava o corpo que a projetava.

O conselho oculto de Deus

Ainda assim, quando atentamos para a vida de Jesus vemos que nem sempre ele se guiava pelo que estava escrito. Desde sua infância Jesus compreendia a vontade de Deus em detalhes que poderiam ser desconhecidos a outros, mas não a ele. Veja: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?” (Lucas 2.49). Havia algo da vontade de Deus revelada a Jesus de uma forma que a Escritura não supria, nem seus pais ou povo. Outros exemplossão a escolha dos doze, a necessidade de passar por Samaria, de jantar na casa de Zaqueu e tantas outras ocasiões em que somente ele compreendia ser a vontade de Deus.

Não seria precipitado concluirmos que, embora tenhamos a revelação objetiva da vontade de Deus na Escritura de modo subsidiário, e em Jesus de modo definitivo, juntamente há algo do conselho oculto de Deus que subjetivamente revela a nós sua vontade pela instrumentalidade da fé em Jesus. Digo subjetivamente pois há variadas situações que se aplicam para a vida de um filho de Deus, porém jamais se aplicariam a de outro. Nem mesmo os dons concedidos em um só Corpo são os mesmos. De modo semelhante, a vontade de Deus sempre incide sobre algum ponto subjetivo que nos impelirá a caminhar pela fé. Isto de maneira nenhuma significa uma “porteira aberta” para novas revelações. Pelo contrário, significa que cada um deve andar em conformidade com o que já foi revelado, pois a vontade de Deus inclui toda nossa vida.

A vontade de Deus para sua vida

A partir de Jesus entendemos a vontade de Deus de forma objetiva através de seus mandamentos, de seu exemplo, de suas ordenanças, de suas palavras. Há momentos em que claramente Deus nos leva a experimentar particularmente da sua vontade, o que não implica um novo parâmetro de revelação. Tão somente significa que o modo de agradar a Deus nunca foi, não é e jamais será algo mecânico, frio e programado para nós. Porque sem fé é impossível agradar a Deus. É essa fé que nos compele a andarmos como vendo o invisível, mas em convicção e certeza de que a vontade de Deus em Jesus é a nossa conformação à sua imagem e semelhança, seja qual for a situação.

Portanto, não se perca em elucubrações infindáveis sobre cada detalhe da sua vida sendo amparada por um versículo, uma profecia, um dogma. Até aqui espero que você tenha entendido que não há uma fórmula, uma receita de bolo, ou tantos passos para isso ou para aquilo. Leia a palavra, conheça-a profundamente, estude-a, deixe-se levar pelo seu ensino, siga a Jesus como Senhor de sua vida, quer viva quer morra. Siga-o como exemplo de obediência e de atitude, tenha coragem de assumir as responsabilidades de suas escolhas pessoais, mas sempre na dependência de Deus, em espírito de oração, com zelo, fervor e entendimento. Tome suas atitudes refletidamente no Senhor, confie nele, encare os desafios que daí virão, não adie nada a menos que seja realmente a atitude mais prudente. Não se esconda atrás da Bíblia sob o disfarce de crente zeloso para justificar sua covardia. Apenas ame a Escritura e a obedeça. Ame a Jesus e o obedeça, siga-o. Seja forte e corajoso, seja cristão.

Leia também o post “O Que Deus Quer de Mim?

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