Esconderijo do Altíssimo

Leia ou ouça o Salmo 91 clicando aqui.

Como se portar diante da realidade de um inimigo potente e invisível? Como se proteger se o assombro de uma investida oculta é constante? Como se defender se não se sabe de onde seus ataques vêm?

Essa é a situação que temos vivido nesses dias incomuns de 2020. A pandemia tem se mostrado um evento de proporções ainda não enfrentadas pela humanidade. Mesmo que os infectados e mortos não se igualem por exemplo à gripe espanhola ou à peste negra, seu impacto tem atingido áreas cada vez mais abrangentes da sociedade pelo mundo todo, como economia, governo, finanças, saúde, e tantas outras. Temos visto que um inimigo invisível pode causar grandes danos sem que se quer tenhamos a oportunidade de contra-atacar com efetividade.

Experiências como essa, apesar de sempre diferentes, guardam semelhanças proporcionais e por isso também nos ensinam lições básicas de como lidar com um inimigo invisível. Esse é o ensino poeticamente elaborado do Salmo 91.

Recitá-lo ou deixar a Bíblia aberta nessa passagem na sala de casa não espantará espíritos, nem afastará males ou coisas ruins. O que move as pessoas a fazerem isso é a superstição e o misticismo popular fruto do desconhecimento de que o livramento dos males ocultos e dos perigos invisíveis não vem por magia ou encanto, ou mesmo pelo uso mágico da Bíblia, mas pela graciosa presença e ação de Deus em favor daqueles que o conhecem e nele confiam.

Este Salmo é uma poesia de confissão, de confiança corajosa, de certeza da proteção divina e, por último e mais importante, da revelação messiânica. O Salmo nos fala de basicamente 3 temas. São os seguintes:

O Deus Protetor

A primeira confissão feita no Salmo é a respeito de Deus como aquele que tem todo o poder. Acima dele não há ninguém mais, pois ele é o mais alto de todos, inclusive dos inimigos que a nós são invisíveis. Ele é o Altíssimo, o Todo-Poderoso. Nenhuma força oculta é mais forte que ele. Por isso, diante desse conhecimento, busca-se proteção nele. O Salmo utiliza figuras para falar da proteção de Deus àqueles que o buscam para encontrar segurança. Aquele que confia em Deus o experimentará como:

a) Refúgio e sombra sob o qual nos abrigamos tendo-o por nossa cobertura. Deus é um teto sobre nossas cabeças diante dos perigos da noite e uma sombra acima de nós nas aflições do dia.

b) Fortaleza para aqueles que enfrentam perseguição de um inimigo forte e numeroso. Deus é uma barreira intransponível para aqueles que se escondem nele. A sua fidelidade é como um grande escudo contra as grandes armas de guerra, e um escudo ágil contra as armas rápidas e letais.

c) Ave-mãe que protege seus filhotes sob suas asas. Enquanto somos como um pássaro indefeso e ignorante em relação aos perigos ocultos a nós, perigos como a armadilha daquele que apanha pássaros e a doença que assola os animais, Deus é aquele que nos resgata desses inimigos.

O Mal Invisível

Não temos como definir com precisão quais eram os inimigos e perigos que o salmista enfrentava. Podemos apenas inferir de sua poesia alguns deles que estão mais evidentes pelas figuras empregadas e outros que podem subjazer à essa linguagem. Por exemplo, o termo מַחְסֶה “refúgio” pode significar o abrigo tanto contra o temporal ou o perigo, quanto contra a falsidade. Já a palavra פַּח “laço” conota uma armadilha para pássaros, uma calamidade ou conspirações (ou o agente causador dessas coisas). E, por fim, a expressão דֶּבֶר “peste” sugere uma praga que atinge animais ou a calúnia que difama o próximo.

Apesar de não sabermos ao certo, a maioria desses inimigos são forças que ora agem ocultamente ora não estão ao nosso alcance evitá-las, fazê-las cessar. Por isso, ir para um lugar seguro é a melhor atitude. O melhor que podemos fazer diante de uma epidemia, guerra ou ataque sorrateiro é nos abrigarmos em um lugar seguro. Da mesma forma, uma pessoa próxima que esconde em seu interior contra nós a falsidade, conspirações e calúnias, a melhor atitude é nos retirarmos e buscarmos abrigo em Deus.

Estando nesse Abrigo, o salmista diz que estará seguro e protegido, sem temor do que pode acontecer. Uma vez abrigado, há um desassombro quanto aos perigos invisíveis, que são os seguintes:

d) o pavor que naturalmente habita o ser humano quanto a face ameaçadora do desconhecido. Nesse Salmo é referido como o “terror noturno”. A noite cai sobre todos, porém aquele que se encontra em Deus não têm medo das trevas. Aquele que sabe estar seguro não tem razão para temer as forças que se escondem nas trevas e o que delas pode vir.

e) o assalto inesperado de um projétil cuja origem desconhecemos. Nos tempos antigos a “seta voadora” era uma arma extremamente ágil e eficiente. Era possível ser atingido sem sequer saber de onde o tiro veio. O salmista diz que o protegido de Deus não se espantará diante desse perigo. Saber da existência de uma arma letal que vem de lugar nenhum não faz com que ele se atemorize ou permaneça imóvel. Não é o temor que o motiva, mas o Deus em quem confia. A fidelidade de Deus é para ele como uma grande firme barreira contra essas flechas e como um escudo móvel sempre disponível em seu braço.

f) o risco de um mal que se difunde sorrateira e ocultamente. Desde muito tempo a humanidade é fustigada pelas pandemias. Quase sempre precedendo-as vieram as guerras. De modo que guerras e pestilências sempre andaram juntas. Nem uma nem outra são para ele motivo de espanto. Ele permanece como um pintinho debaixo das asas da galinha porque encontrou segurança sob as suas penas.

O Indivíduo Protegido

Mesmo diante de variados perigos invisíveis, o abrigado de Deus verá com seus olhos o livramento e a proteção que está sobre ele. Ele verá muitos sendo derrubados e atingidos, porém ele permanecerá incólume em meio a destruição e a morte. Embora tanto seus inimigos quanto a ação protetora de Deus sejam ocultos, mas reais, seus olhos contemplam pela fé que esse livramento e proteção não são obra do acaso ou da sorte, mas de Deus.

Ele se aproxima com confiança em Deus, em plena certeza do que pode esperar dele e perfeita convicção de que Deus age ainda que seus olhos físicos não vejam a engrenagem por trás dos fatos. Sua fé o faz entender as coisas invisíveis da perspectiva da confiança em Deus, não de seus olhos. Está claro que os perigos que estão ao seu redor não são sensorialmente perceptíveis. Por isso ele entende que assim como há inimigos invisíveis, há um Deus cuja proteção é espiritualmente discernida.

Ele conhece ao seu Deus, por isso disse: “Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio.” (v.2, 9). Diante das realidades espirituais indisponíveis aos olhos, o salmista afirma que há um decreto de Deus em relação ao seu protegido no sentido de incumbir seres espirituais para o guardarem. Esses seres espirituais são chamados de anjos, são servos sob a ordem de Deus. Isso significa que o protegido não é alguém recluso na existência, um eremita ou um monge enclausurado.

g) É alguém cujos pés percorrem o caminho da vida com todas as suas adversidades e perigos. Mas que esses pés empoeirados pelo caminho experimentarão a realidade das ordenanças de Deus mediadas pelos anjos livrando-o do tropeço.

h) Seus pés estarão mesmo acima do poder da morte. Ele terá sob seus pés os perigos mortais figurados pelo leão e pela serpente venenosa. A expressão é um pouco mais forte e sugere que ele “marchará” sobre esses inimigos aqui figurados. Como alguém vitorioso sobre seus inimigos ele empreenderá uma marcha triunfante sobre aqueles que eram letais e traiçoeiros.

Por fim, a fala de Deus é introduzida no Salmo como uma profecia que menciona a recompensa daquele que fez de Deus seu abrigo. Deus diz sobre ele:

I – Eu o livrarei
II – Eu o colocarei a salvo em lugar exaltado
III – Eu o responderei ao me invocar
IV – Eu estarei com ele na sua angústia
V – Eu o resgatarei
VI – Eu o glorificarei
VII – Eu prolongarei sua vida
VIII – Eu o farei conhecer minha salvação

Deus demonstra seu comprometimento com aquele que confia nele, que faz dele seu refúgio e fortaleza. Aquele que se abriga em Deus demonstra sua confiança nele por meio de atitudes, quais são:

IX – Se apegou a Deus com amor
X – Conhece o nome de Deus
XI – Invoca a Deus

Vale notar que mesmo em face de tudo isso, o hóspede de Deus não é isento de aflições. Mas quando elas estão presentes, Deus está junto dele para o socorrer, para o salvar e resgatar das garras e das presas da morte. Esse alguém que habita no esconderijo do Altíssimo conhecerá a salvação de Deus e, mesmo depois de ter passado pela angústia da morte será saciado com vida eterna e com uma natureza não mais sujeita às aflições dessa vida terrena.

Antes de julgarmos precipitadamente que esse salmo fala acerca dos leitores, devemos considerar que isso não é verdade. Não primariamente. É certo que todos aqueles que confiam em Deus experimentarão de livramento em meio aos perigos, no entanto isso decorre em segunda mão. Esse Salmo projeta uma salvação que vai além dessa vida passageira. E fala de alguém que possui uma confiança inabalável mesmo em meio a vários inimigos e até o último deles, a morte. 

Parece que estamos diante de um Salmo messiânico. Portanto, essas promessas de livramento e glorificação são dirigidas em primeira mão ao Messias, o escolhido de Deus. Ele é o mediador de todos aqueles que desejam se achegar a Deus e encontrar socorro em ocasião oportuna. Por que o Protegido de Deus experimentou tanto as aflições e os ataques dos inimigos quanto a salvação de Deus ele pode intervir por nós eficazmente.

Não é em vão que esse Salmo termina com a palavra (יְשׁוּעָה, Yeshua) que remete a seu nome: Jesus, a nossa salvação.

As pessoas estão prontas a reconhecer um inimigo invisível quando veem suas investidas destruidoras, mas deveriam muito mais estar cientes de que há um Deus em quem podemos nos refugiar. Deveríamos estar igualmente prontos a admitir que há realidades espirituais assim como há realidades físicas que não vemos. Talvez por não verem dessa forma as pessoas têm um conceito acerca de Deus em que, por ser ele invisível, o tratam como se ele fosse uma ameaça. Mas não é dessa forma que aprendemos de Deus quando olhamos para Cristo. Nele o amor foi revelado, a salvação foi garantida, nossa libertação assegurada e nossa glorificação alcançada. Ele triunfou sobre todos os seus e os nossos inimigos: o diabo, o pecado e a morte. Jesus experimentou tudo isso por nós para que tivéssemos a certeza de que Deus realmente é Altíssimo Refúgio para aqueles que nele confiam.

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