O Louco, o Tolo, o Sábio

O livro de Provérbios é uma fonte quase inesgotável de ensino e sabedoria. Seu ensino ético é profundamente fundamentado no temor a Deus. Em síntese, o temor a Deus nos faz pessoas sábias, felizes e cuidadosos em relação à vida geral e a sociedade. O caminho da pessoa que teme ao Senhor é ensinado através da constante busca pela sabedoria (sábio, justo) em contraste com outros dois tipos de pessoas, o idiota (louco, escarnecedor, arrogante, estúpido ou ímpio), o ingênuo (simples, néscio, falto de senso), que não temem a Deus e nem consideram os próprios caminhos. Em vários momentos, as seduções que virão sobre a pessoa sábia (justa) são personificadas na figura da mulher adúltera e do homem criminoso. Para essas situações é garantido que a sabedoria será de grande valor para afastar o justo do caminho mau e conduzi-lo na vereda da justiça, da paz e da prosperidade. Cada um destes protótipos de vida é relacionado a um fim que tem relação direta com as atitudes que o indivíduo tomou.

Dito isto, vamos aos três caráteres de Provérbios. O que se segue é uma condensação ao longo dos primeiros 14 capítulos.

– O Ímpio: é aquele que atropela tudo e todos e ainda se safa. Ele sempre se dá bem no seu mau caminho e por isso se torna alguém cheio de si e orgulhoso de seu proceder estúpido. Ele desfruta de um bem-estar adquirido pela sua estultícia, sua malandragem. Esse é o tipo de pessoa que despreza conselhos, não tem o menor interesse em ser prudente, não liga para o conhecimento e acredita que sua esperteza é a verdadeira inteligência. A sua desonestidade é como uma medalha para ele. É uma pessoa que não entende nada sobre justiça, juízo e retidão, e nunca aprende nada com seus erros, pois ele nem sequer os enxerga. Há uma descrição terrível sobre o comportamento psicológico dessa pessoa, da seguinte maneira: “… não dormem, se não fizerem mal, e foge deles o sono, se não fizerem tropeçar alguém; porque comem o pão da impiedade e bebem o vinho das violências” (4.16-17). O fim desse caminho é a destruição, como dito em 14.12: “Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte”. Apesar disso, ele não atenta (1.32b): “e aos loucos a sua impressão de bem-estar os leva à perdição”, sobre a sua casa está a maldição de Deus e sobre ele virá a desgraça: “A maldição do Senhor habita na casa do perverso… os loucos tomam sobre si a ignomínia” (3.33, 35). Eles andam em escuridão, desconhecem os próprios caminhos e nem sequer reconhecem onde tropeçam. São incapazes de reconhecer seus próprios erros. “Quanto ao perverso, as suas iniquidades o prenderão, e com as cordas do seu pecado será detido. Ele morrerá pela falta de disciplina, e, pela sua muita loucura, perdido, cambaleia.” É uma descrição terrível. Por isso, a advertência da sabedoria para aquele que é instruído é: passe longe desse tipo de pessoa, isto é, não seja alguém assim, não se assemelhe em nada com o perverso. Não busque sociedade com ele, nem permita que o seu caminho se aproxime do dele. Nele não há nenhum temor a Deus.

Na verdade, é bem fácil encontrar pessoas assim. Elas andam na contramão no trânsito e nem se importam com quem vem no sentido contrário. Elas fingem ser pessoas carentes nos cruzamentos, mas são profissionais em abusar da boa vontade dos outros. Sonegam impostos, fazem ligações clandestinas de energia, água e internet e acham que estão certas, pois apenas estão tomando para si o que pagam em impostos (como se isso não significasse que roubam tanto das concessionárias quanto de outras pessoas que pagam corretamente). Mentem nos cadastros do Governo apenas para receberem benefícios sem trabalhar e esbanjar com o que não precisam e nem podem ter. Se mostram arrogantes, desrespeitos e violentos achando que, por estarem “lutando” por direitos ameaçados isso lhes dá a justificativa de agredir verbal e fisicamente outras pessoas e estabelecimentos. Vivem vidas regaladas através de seu trabalho corrupto e usurpador. Eles estão em todas as classes e sociedades, têm diferentes faces. Querem estar sempre “por cima”. E não aceitam nada que os humilhe e sugira que estão errados. Pessoas assim, até prosperam na sua maldade, mas o fim delas sempre é de destruição, tristeza, vergonha e morte.

– O Ingênuo: o “simples” de Provérbios (ARA) é alguém que, pela falta de conhecimento, é facilmente convencido a adentrar o matadouro sem ao menos perceber que ele próprio é a vítima. Provérbios o chama de tolo, néscio ou falto de senso. Diz-se dele: “… como o boi que vai ao matadouro; como o cervo que corre para a rede, até que a flecha lhe atravesse o coração; como a ave que se apressa para o laço, sem saber que isto lhe custará a vida”. (7.22-23). É alguém que corre atrás de coisas fúteis (12.11), se volta contra seu vizinho por causa da sua ignorância, não consegue manter a boca fechada e suas palavras são a sua ruína por que ele “… dá crédito à toda palavra” (14.15). Comumente, o ingênuo é o tipo de pessoa que precisa sofrer na pele ou ver alguém sofrendo a punição de seus atos para aprender alguma coisa, como está dito: “… a vara é para as costas do falto de senso” (10.13b) e “Quando o escarnecedor é castigado, o simples se torna sábio”. Quando algum esquema malicioso está em curso, ele não consegue discernir e sofre a pena. Em resumo, o simples é alguém que não consegue adquirir sabedoria, inteligência e o conhecimento ou o ensino, mas precisa aprender com o erro dos outros ou com os seus próprios para entender alguma coisa. Mas nem sempre aprendem. Há muitos que levam “bordoadas” da vida, mas nunca aprendem essa lição, estão sempre repetindo os mesmos erros, ainda que de formas diferentes. Aprendem sempre, mas nunca chegam ao conhecimento da verdade.

É igualmente fácil achar esse tipo de pessoa. Sabe aquela pessoa que entra em “pirâmides” achando que vai ficar rico em 1 mês? Pois é, esse é o falto de senso. O indivíduo que realmente acredita que se alguma notícia é passada na televisão só pode ser verdade. Mais recentemente essa ingenuidade migrou para as redes sociais e aplicativos de mensagens. Aquela mesma pessoa que acredita em tudo que se passa na TV agora acredita que tudo que está na internet é verdade. O falto de senso é enganado e não percebe, sofre a pena e só depois se dá conta. Seus bens são saqueados pelo seu próprio consentimento ingênuo. Ele se vende por qualquer preço e nunca consegue refletir sobre a malícia humana ou sobre questões razoavelmente básicas. Se envolve com coisas duvidosas ou criminosas sem nem sequer pensar ou se informar a respeito. O fim desse tipo de procedimento é um fruto amargo e danoso.

– O Instruído: esse é para quem os provérbios foram escritos. É o tipo de pessoa que aprende quando lhe ensinam alguma coisa e considera o conhecimento importante para momentos de necessidade. É alguém que não precisa cometer graves erros para aprender alguma coisa, basta que ele seja ensinado ou repreendido. O instruído é elogiado no livro de Provérbios e constantemente ensinado a obter a sabedoria como o bem mais precioso que pode ter. O sábio atenta para os seus caminhos, não é tagarela, não aceita suborno nem se deixa levar por palavras maliciosas e suaves. Para ele há promessas de longevidade, tranquilidade, paz, riqueza, honra, segurança e felicidade. Está dito: “Quando te deitares, não temerás; deitar-te-ás, e o teu sono será suave” (3.24). Para os retos promete-se a intimidade e o favor do Senhor (3.32-35). É alguém que atenta para o seu próximo e para a vida dos seus animais, aborrece a mentira. “A sabedoria do prudente é entender o seu próprio caminho” (14.8). Por fim, é alguém que mesmo “morrendo, tem esperança”. (14.32).

Esses são mais difíceis de achar. São poucas pessoas que se dão ao trabalho de aprenderem coisas úteis para a própria vida. A ignorância tem um preço muito alto e são muitos que pagam por ela. Pessoas sábias falam pouco ou apenas o que importa com quem devem. Não expõem a própria vida, nem buscam consolo à vista das pessoas. Os sábios prosperam sem serem notados, conhecem o que é de seu interesse, buscam fazer o bem, afastam-se da aparência do mal. São capazes de passarem-se por tolos para revelarem-se sábios.

Temos portanto, três tipos de pessoas: as que ignoram completamente a sabedoria e o ensino e são incapazes de aprender mesmo quando castigados; as pessoas que precisam ver alguém sendo castigado ou passar elas mesmas por alguma desgraça ou situação ruim para depois aprender; e as pessoas que buscam sabedoria para o seu viver e alcançam graça diante de Deus.

A vontade de Deus é que sejamos sábios diante dele, em toda a humildade e prudência. Não foi em vão que um livro inteiro cheio de ensino e sabedoria foi escrito e entregue a nós. Aqueles que o examinam em busca de inteligência, alcançarão grande honra e serão coroados com a sabedoria. Muitos correm, mas poucos sobem ao pódio. Provérbios nos diz que a pessoa que busca disciplina para alcançar a sabedoria será justamente recompensado.

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