Os Incomodados Que Se Retirem

“Os incomodados que se retirem”, diz o ditado popular. Ninguém deveria se sentir obrigado a permanecer em determinado ambiente ou condição diante da qual retirar-se é uma opção válida e saudável. Permanecer nem sempre é a melhor escolha, sejam quais forem as suas intenções: agradar, evitar confronto, esquivar retaliações, etc. Claro, tudo isso pode ficar velado para sua percepção. Sua forma instintiva de preservar a si mesmo é ativada, então você continua ali sem perceber bem a razão. Você está fazendo média no modo “piloto automático”.

Saber a hora de se retirar e fazê-lo pode ser a melhor atitude em algumas situações. Ainda mais quando se é o incomodado. Não é fácil, mas é simples, e por vezes, é a atitude mais honesta e sensata a ser tomada.

Por várias vezes nos evangelhos, Jesus é descrito como alguém que se retirava sem nenhum ressentimento. Qualquer que fosse a circunstância, ele não se prendia a ela ou às pessoas à sua volta a menos que fosse por compaixão. Não havia nenhum senso de obrigação em Jesus que não fosse fazer a vontade de Deus e socorrer os necessitados, ensinar os pecadores e repreender os hipócritas. Por esse motivo, ele frequentemente se retirava com seus discípulos, e, às vezes, até sozinho.

Em uma de suas primeiras retiradas, ao receber a notícia do encarceramento de João Batista, ele deixou sua cidade de criação, Nazaré, e foi morar nos confins da Galileia, em Cafarnaum, cidade costeira (Mt 4.12). Havia uma efervescência de várias ordens acontecendo em torno da Judeia nos dias de João, mas Jesus simplesmente não se envolveu com nenhuma causa que não fosse o anúncio do evangelho (Mt 4.17).

Um tempo depois ele voltou para Nazaré e pregou na sinagoga deles. Lá teve que lidar com a incredulidade retroalimentada pelo senso de familiaridade que tinham com Jesus, o filho do carpinteiro José. Nessa ocasião, ao dizer algumas verdades sobre essa incredulidade endêmica profundamente arraigada na história de Israel, tentando arremessá-lo em um precipício, ele passou por eles e se retirou (Lc 4.28-30). Seguido a isso, vem a notícia da morte de João e novamente Jesus se retira, dessa vez para um lugar ainda mais remoto e deserto (Mt 13.53 – 14.13).

Na sequência desses acontecimentos, ao ser provocado pelos escribas e fariseus que lhe pediam um sinal que confirmasse quem diziam Jesus ser, ele simplesmemte responde que nenhum sinal seria dado e se retira para o outro lado do mar da Galileia (Mc 8.13,14). Jesus deixou os líderes de Israel “no vácuo” em seu pedido de credenciais que o habilitasse. Foi questionado por causa da falta de observância da tradição dos anciãos que lavavam rigorosamente as mãos e objetos antes de comer e, havendo exposto a hipocrisia dos líderes e explicado particularmente a questão aos seus discípulos, se foi para a região gentia de Tiro e Sidom, fora do alcance dos judeus. Pelo menos ali ele não seria importunado com perguntas tão ridiculamente cansativas e espiritualmente irrelevantes (Mt 15.20-21).

Quando se assentou no monte junto ao mar de Tiberíades, encontrou uma multidão aflita que o buscava. Por compaixão, Jesus ficou, ensinou-os sobre o reino de Deus e deu de comer a todos quando o dia já declinava. Ele viu a aflição daquela gente e decidiu ficar. Mas isso somente até terem percebido o que ele havia feito e terem se juntado para o proclamar rei. Jesus não ficaria ali e mais uma vez se retirou sozinho para o outro lado do mar (Jo 6.14,15).

Ao ver que o povo havia dado a volta a pé para encontrá-lo e o proclamar rei, Jesus praticamente fugiu da cena, pois sabia que o queriam entronizá-lo apenas porque ele os havia fartado de pão (Jo 6.26). Jesus como governante político seria cômodo em muitos sentidos, mas não havia o menor interesse da parte dele por qualquer partido, por mais piedoso que parecesse. Também foi uma ocasião de retirada.

Em meio a festa da dedicação em Jerusalém, no templo, ele foi questionado pelos líderes judaicos sobre se ele seria mesmo o Cristo. Ao reiterar tudo o que o Pai estava realizando por meio dele, Jesus simplesmente disse que seus ouvintes não criam por que não discerniam a voz de Deus e não faziam parte de seu rebanho. Ao acusarem-no de blasfêmia quiseram prendê-lo, e ele, tendo-se retirado, foi para a região deserta onde João começou seu ministério batismal. Ali muitos creram nele (Jo 10.40-42).

Em outra ocasião, ao ter ressuscitado a Lázaro em Betânia, os líderes judeus planejavam como o matariam, já que um sinal notável havia sido realizado e muitos dos judeus haviam crido. Jesus decidiu não aparecer mais publicamente e se retirou para uma cidade pouco mencionada no Novo Testamento próxima ao deserto. Ali ele ficou com seus discípulos até o período da purificação na Páscoa (Jo 11.54).

Dali em diante o Senhor não se retiraria mais, pois seu tempo havia chegado. E em Jerusalém todos o procuravam. Tendo-o encontrado o receberam e o saudaram como rei dos judeus na proclamação de ramos (Jo 11.53ss). Assim era necessário, era a vontade de Deus que Jesus cumpria.

Em todas as ocasiões Jesus nunca se prendeu a nenhum imperativo social, político ou moral, ou ainda relacional que não fosse por pura misericórdia. Se não fosse de sua vontade ficar, ou inconveniente, ele simplesmente se retirava. Retirar-se é uma atitude honesta e saudável. Especialmente quando nada de bom pode sair da situação. Afinal, Jesus disse aos seus discípulos antes da prisão e crucificação que era conveniente que ele se “retirasse”, isto é, que fosse morto, ressuscitasse, ascendesse aos céus e não estivesse mais presente fisicamente entre eles, apenas de modo intermitente por um tempo. Retirar-se, portanto, é conveniente e pode ser também, até mesmo, necessário para o bem dos que ficam e dos que se retiram.

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