Por Que Deus Permite o Sofrimento?

Todos sofremos em determinados graus. Nenhum ser humano jamais foi privado da experiência do sofrimento nessa existência. Experimentamos sofrimento em vários níveis, dimensões e aspectos. Mas inevitavelmente sofremos. Assim, as causas do sofrimento também são variadas, de maneira que resumi-las a uma só seria injusto contra pessoas que estão sofrendo sem uma causa aparente ou não abordada aqui.

Em muito, o sofrimento é resultado de nossas escolhas ou das escolhas dos outros que incidem sobre nós. Por exemplo, podemos sofrer por sermos um péssimo empregado, ou podemos sofrer por ser um funcionário exemplar. No primeiro, nossos erros exigem consequências. No segundo, nossos acertos atraem inveja ou ódio de quem não deseja parecer inferior.

Além dessa condição, sofremos como consequência das escolhas dos outros quando não está em nosso poder evitá-las ou não está ao nosso alcance conter forças maiores que nós, como as da natureza, do tempo ou de um governo ditatorial/corrupto.

Mas há uma dimensão bastante interior em que o sofrimento provém de nosso ideal de mundo perfeito. A aflição vem à tona quando esse ideal é frustrado pela realidade. Ansiamos por conforto, mas temos angústia. Desejamos prazer, porém experimentamos desgosto. Desejamos admiração, no entanto recebemos desprezo ou indiferença. Aspiramos por felicidade, mas a vida apresenta lamentos.

A partir de nosso olhar, o mundo parece bastante desalinhado. A ansiedade e a angústia humana produzem tanto o labor e a realização de projetos, quanto o sofrimento e a decepção de não os ver concretizados.

A verdade é que Eclesiastes 3 fará você perceber que Deus fez tudo no tempo devido, de modo que esta vida é composta por polaridades como o pranto e o saltar de alegria, o luto e o nascimento, a alegria e o choro, etc. Cada um dos eventos antagônicos da vida é o que a definem como vida nessa existência. E o sofrimento está incluído.

O tempo presente é marcado pela ambiguidade por todos os lados. Por exemplo, a água é essencial para a sobrevivência de todo ser vivo neste planeta. Mesmo assim, temos enchentes, maremotos e tsunamis que ferem e matam pessoas e animais. O sol que torna possível a vida na terra, também causa incêndios e câncer.

Essa condição é descrita pelo apóstolo Paulo como um gemido da natureza por estar sujeita à vaidade, ao desgaste (Romanos 8.19-23). A própria criação, o cosmos, está em sofrimento! E essas ambiguidades na ordem natural são seu grito de agonia, assim como nós também gememos em nosso íntimo quando sofremos.

O sofrimento é inerente a atual era e pertence à uma antiga ordem de coisas. Mas na maior parte do tempo que passamos aqui acreditamos que se há um Deus ele deveria ser mais responsável em nos manter felizes, confortáveis e livres de dor. Simplesmente queremos ser felizes em um mundo infeliz, e essa é a contradição da existência. O mundo não pode nos dar a felicidade que desejamos, apenas pequenas e transitórias doses.

Tal contradição leva a maioria das pessoas a acreditar que se Deus é bom e existe ele tem que nos fazer felizes em meio ao caos cósmico. Todavia a verdade é que nos manter entorpecidos da realidade cruel deste mundo seria algo perverso, enganoso e manipulador. Então, por meio do sofrimento Deus demonstra que este mundo está falido e precisa de um novo começo. De outra forma não conseguimos perceber isso nem desejar um novo céu e nova terra onde habita a justiça.

Apesar de ser essa a característica da história deste mundo, a Escritura também nos apresenta uma nova ordem caracterizada pelo banimento completo da dor, do sofrimento e da morte, inclusive das intempéries causadas por influência do sol e da lua, maremotos e terremotos (Salmo 121.6; Apocalipse 7.16,17).

Vivemos em um mundo mau que em breve deixará de existir com todas as suas dores e ambiguidades. O sofrimento é a didática de Deus que nos desperta para isso. Um tanto excêntrico, mas verdadeiro. Somos lembrados de que, por pior que seja, esse é o melhor mundo que teremos debaixo do sol.

O sofrimento é uma pedagogia exclusiva que nos liga à eternidade. Nenhuma outra situação tem poder para ensinar de maneira mais clara sobre este mundo, sobre nós e sobre Deus. CS Lewis escreveu que Deus “fala em nossa consciência, mas grita em nossa dor.” Segundo ele o sofrimento é o megafone de Deus “para despertar um mundo surdo.” As pessoas nunca convidam para suas vidas alguém em quem elas não confiam. Então, quando sofremos e ninguém pode dirimir nossa dor, nos abrimos para a possibilidade de não estarmos sozinhos num universo em que todos querem é cuidar de si mesmos e todos morrem sozinhos. Nós nos tornamos receptivos para Deus, para ouvi-lo e buscar algum motivo para acreditar.

Não estamos diante de um Deus impotente ou indiferente quanto ao nosso sofrimento. Deus demonstrou-se em Jesus como alguém profundamente compadecido, movido por misericórdia pela aflição e condição humana. Jesus lidou intimamente com o sofrimento causado pelo pecado na vida das pessoas, com as forças espirituais malignas opressoras, com enfermidades aprisionantes e alienantes, com discriminações de ordem religiosa, moral e social. Mais do que qualquer outro, Deus, em Jesus esteve por dentro do sofrimento humano e ainda está. Ele próprio sofreu nos dias de sua encarnação. Veja o que diz Hebreus 5.7,8: “Durante a sua vida aqui na terra, Cristo, em voz alta e com lágrimas, fez orações e súplicas a Deus, que o podia salvar da morte. E as suas orações foram atendidas porque ele era dedicado a Deus. Embora fosse o Filho de Deus, ele aprendeu, por meio dos seus sofrimentos, a ser obediente”. Jesus é o arquétipo do homem sofredor. Mais que isso, ele é o Deus sofredor. Da manjedoura à tumba, todo o sofrimento de Jesus naturalmente fez parte de sua vida, pois o sofrimento é parte desta vida. Ele não foi poupado em nada a não ser do pecado. Todas as demais dores que passamos ele passou e aprendeu a submissão a Deus em níveis que talvez jamais conheçamos.

Os sofrimentos do tempo presente são a maneira pela qual Deus forja em nós o caráter de Cristo, o qual, como disse Isaías, experimentou o que é ser “um homem de dores e que sabe o que é padecer”. Jesus encarnou o sofrimento humano de maneira plena. Foi por meio de todo seu sofrimento que o mundo inteiro de homens, de animais e de astros foi redimido. Pelo sofrimento de Cristo as nossas dores foram carregadas e nossas enfermidades, aflições e chagas foram vencidas e não terão lugar no mundo por vir. Jesus deixou claro que “No mundo, vocês passam por aflições; mas tenham coragem: eu venci o mundo.” (Jo 16.33). Por isso, sofremos neste mundo porque estamos nele, mas ele foi superado por Jesus para que quando este mundo passar estejamos onde ele está, em um mundo equilibrado e pacificado.

Foi na cruz que este mundo amaldiçoado foi de uma vez por todas extinto. E na ressurreição ficou anunciada a vitória sobre o último e mais amedrontador inimigo: a morte. A ressurreição é o convite de Deus para adentrarmos este novo mundo que ele preparou desde a eternidade. Porque Deus criou um mundo bom que se tornou mau pela liberdade da escolha humana. Agora Deus anuncia que fez novas todas as coisas, ainda que o fim seja nada mais que uma volta ao início de tudo. Ele nos concede um novo começo em Cristo Jesus. Crer nele não nos poupará de nenhum sofrimento presente, mas nos fará crescer como ele e herdar um reino inabalável. Isso é real para todos que se fazem um com Cristo em seus sofrimentos justos. Por participarmos dos mesmos sofrimentos que ele, também venceremos como ele venceu.

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