A Radicalidade do Discipulado

Lucas 9.18-26

Ao usar o termo discipulado, me refiro ao seguir a Jesus. Embora o discipulado tenha relação direta com o discipulado de outros como conhecemos, vejo o discipulado de Jesus como precedente. Por essa razão, é importante que tenhamos a compreensão de todo o contexto em que o chamado de Jesus para negar a si mesmo, tomar a cruz e segui-lo se insere. Sem esse entendimento perderemos de vista a profundidade da convocação do Senhor.

Logo no início do capítulo 9 de Lucas surge a questão levantada por Herodes acerca da identidade de Jesus: “quem é, pois, este a respeito do qual tenho ouvido tais coisas?” (9.9). Ele não era o único com essa dúvida. Na realidade, pouquíssimos viam em Jesus quem ele realmente era diante deles.

O próximo trecho relata a incapacidade dos discípulos em acolher as pessoas, socorrê-las, ensiná-las e alimentá-las, não com recursos próprios, mas com a suficiência que vem de Jesus, de estar sob a autoridade e cuidado dele. Esse trecho é fundamental na definição do que significa seguir a Jesus e das implicações de consentir com ele.

Em seguida, o próprio Jesus é quem faz a pergunta aos discípulos: “Quem dizem as multidões que eu sou?” (9.18) e “Mas vós… quem dizeis que eu sou?” (9.20). Quanto a opinião do povo, havia uma confusão baseada na projeção de uma figura profética do passado atuando miraculosamente em seus dias, como Jeremias ou algum dos profetas. Já os discípulos possuiam um foco um pouco mais ajustado, ao menos do ponto de vista da compreensão intelectual, que concedia-lhes uma confissão precisa sobre ser ele mesmo o Cristo de Deus.

Mas estranhamente, após a confissão de Pedro, que falou pelo grupo, Jesus severamente advertiu de que não falassem isso a ninguém. E a razão é porque esse Cristo deveria sofrer muitas coisas, ser rejeitado pela cúpula da religião judaica, ser morto e ressuscitado ao terceiro dia. Esse Cristo era completamente oposto ao Messias conquistador, providente e libertador político esperado pela maioria. Esse foi o Messias aclamado na entrada de ramos, em nada parecido com Jesus. O Senhor desencorajou seus discípulos de darem testemunho dele pois era evidente que o associariam com aquele conceito errôneo de rei salvador.

É aí que este caminho de cruz é estendido aos discípulos, àqueles que têm aprendido sobre Jesus. No entanto, podemos ver que crer em Jesus, converter-se a ele como Cristo é apenas o primeiro passo do tornar-se cristão. Professá-lo porém não segui-lo é inútil.

Jesus vai deixando cada vez mais claro aos discípulos que querer segui-lo e querer salvar a própria vida são escolhas que implicam em processos incompatíveis, irreconciliáveis. Principalmente porque negar a si mesmo, tomar a cruz e seguir a Jesus é um caminho sem volta. Tal caminho leva a perder a vida por causa de Jesus e do evangelho. Ao mesmo tempo, essa decisão sacrificial é o princípio de uma vida abundante como a de Jesus. A vida de Jesus em nós é integralmente marcada pelo não-viver-para-si, mas para o outro. Nisso os doze inicialmente falharam (nós também), pois além de não confiarem, decidiram que Jesus é quem deveria ter essa responsabilidade. Essa é uma maneira muito comum de esquivar-se do outro e salvar a própria pele, eximindo-se do amor que Jesus lhes oportunava praticar no episódio dos pães e peixes para a multidão.

Do lado oposto, amar a própria vida e vir a perdê-la não é simplesmente morrer, mas é mergulhar em um complexo de Narciso. É um afogamento no “eu” ilusório, criado por nós mesmos. É amar tanto a própria vida a ponto de querer preservá-la, como água que se esvai entre os dedos. Nas palavras de Stott, “Evitamos o discipulado radical sendo seletivos: escolhemos as áreas nas quais o compromisso nos convém e ficamos distantes daquelas nas quais nosso envolvimento nos custará muito. No entanto, como discípulos não temos esse direito”. Amar e se devotar a dois senhores é impossível sem o prejuízo da vida, que se parte. Querer salvar a vida buscando abraçar o máximo que podemos do mundo é o que causa-nos a perdição e a danação.

Poucos cristãos entendem ou aceitam duradouramente o impacto dessa radicalidade de seguir a Jesus. Na maioria das vezes nos escondemos sob nossas vãs lutas por necessidades legítimas. Ou vivemos um materialismo descarado e abraçamos a própria vida de conforto com uma aparência de cristão. Com isso, nos envergonhando da simplicidade e humildade de Cristo, nos envergonhamos dele e de suas palavras. Jesus diz que quem se envergonhar dele e de suas palavras, também ele se envergonhará no último dia daquele que o preteriu por um amor outro.

Então, entenda que seguir a Jesus é aceitar a condição que ele estabelece: “quem quiser vir após mim”. Se realmente quiser segui-lo, então é esse o caminho. Do contrário, uma profissão de fé com palavras mas ausente de atitudes cotidianas de negação de si mesmo não terá nenhum efeito aperfeiçoador em direção a Jesus. Pois o nosso verdadeiro “eu” só pode ser definido em Jesus, o homem perfeito. Ele é o nosso verdadeiro ego interior a ser ganhado a todo custo.

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