Fogo Estranho e Vanglória. O Caso de Nadabe e Abiú

Levítico 10.1-11

Existem algumas lições no Antigo Testamento que deixam um rastro de inquietação, dúvida, por vezes até perturbação e insegurança. Tudo isso surge diante de passagens que falam da retribuição divina sobre pecados, do juízo sobre cidades, guerras em nome de Deus dentre outras atrocidades. Essa é uma das razões pelas quais muitas pessoas detestam o Deus cristão. Para essas pessoas há uma imagem irremediavelmente negativa desse Deus. Porém, se esquecem que a história de Israel é apenas um exemplar de toda a história humana. Qual nação não pegou em armas e não praticou o genocídio? Qual povo não puniu pessoas à parte da justiça ou qualquer outro direito, ainda hoje, no século 21?

O grande problema é que se usa essa descrição de Deus do Antigo Testamento como “bode-expiatório” para negá-lo. Bem sabemos que o ser humano não precisa de nehuma justificativa para isso. Ele nega a Deus antes mesmo que possa entender alguma coisa. A questão é que passagens violentas ou traumáticas do AT contam nada menos que a história da humanidade. Da mesma forma que a história secular, a história “sacra” possui lições do que deve e não deve ser imitado. A História é a memória da humanidade. Pois bem, entendendo isso podemos buscar a compreensão do texto bíblico que narra o incêndio que matou os dois filhos do sumo sacerdote hebreu Arão, o primeiro da nação de Israel.

Foram sete dias de preparação e o incidente se deu no oitavo, que foi também o primeiro dia do ofício sacerdotal de Arão e seus filhos. Eram trazidos holocautos e ofertas de purificação pelo pecado dos sacerdotes e da congregação. Então, tendo sido consagrado com seus filhos, Arão veio diante do povo e, levantando as mãos, os abençoou em nome do Senhor (Nm 6.24-26).

Em seguida, era a vez das ofertas pacíficas e ofertas de manjares. Um verdadeiro banquete. E o propósito era para que o povo se preparasse porque o Senhor ali apareceria a eles em sua glória (9.4,6,23).

Depois de tudo assim feito, Moisés entrou na tenda do Encontro conduzindo Arão à presença do Senhor. E ao sairem ambos, a consagração ao sacerdócio estava completa. Um homem foi introduzido na presença de Deus e não foi consumido. A glória do Senhor apareceu, saiu fogo e consumiu o que estava sobre o altar, validando todas as ofertas e o sacerdócio.

Primeira lição: Só é possível entrar na presença de Deus por meio do sangue da expiação. Depois disso assim posto, a adoração e a exultação da confiança tem lugar também diante de Deus.

Mesmo sendo uma religação cheia de preceitos e ritos, o judaísmo essencialmente carregava em si lições de que a única maneira de se chegar a Deus é por meio do Cordeiro que ele aprova. Nenhum ser humano pode se reconciliar com Deus inventa do um caminho que ele não consagrou. Ninguém vai ao Pai senão pelo sangue do Cordeiro. O evangelho de Jesus manteve esse princípio como indispensável na reconciliação com Deus.

Em contraste a tudo isso, os filhos de Arão decidem pegar carona nessa apoteose da glória de Deus. Seu pai era agora um sumo sacerdote. E pensaram que eles e toda a família agora podiam se promover em cima do ministério glorioso de Arão. Acharam que simplesmente apresentar os elementos do rito não comprometeria a integridade do culto nem do sacerdócio, só daria a eles uma promoção diante do povo. E foram queimados, pois aconteceu o que de pior podia acontecer: que o problema  não era o fogo estranho, mas eles mesmos eram os elementos estranhos e por isso foram fulminados pela santidade de Deus.

Segunda lição: Aqueles que ministram ao Senhor devem ter discernimento e clareza ao tratar das coisas de Deus. Deus não faz vistas grossas a profanação de seu nome, especialmente quando se busca promover a si mesmo e a família às custas de Deus e da glória deste ministério. Não dá para usar o nome e o serviço de Deus para alcançar interesses pessoais ou familiares. Esse é o cerne do mandamento que diz: “Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.” (Êx 20.7).

Terceira lição: o que Deus requer de seu povo é que aprendam a discernir entre o santo e o profano, o imundo e o limpo e a ensinar a palavra do Senhor. Com isso, a gente aprende que Deus não deve ser tratado como um de nós que se deixa corromper ou influenciar. Não existem lobbystas no Conselho de Deus. Deus não faz acepção de pessoas. Isto é, não existem pessoas que desfrutam de privilégios às custas dele por causa da posição ou importância dessas pessoas na sociedade, na igreja ou entre famílias. Deus não é subornável como os homens são.

Aquilo que prometeria ser um tempo de glória para a família de Arão se tornou uma tragédia familiar proverbial.

Qualquer tentativa não genuína de se valer do nome e da santidade de Deus resulta em uma tragédia muito pequena se comparada com a que a contaminação do povo por esse tipo de atitude traria e se Deus consumisse todo o povo.

Quanto a Nadabe e Abiú, eles cumpriram seu propósito na história de Israel e do mundo. Seus nomes servem ainda hoje como exemplo e aquilo que para eles foi destrutivo, para nós é instrutivo a fim de não cometermos o mesmo erro. Pois aquilo que foi escrito, para o nosso ensino foi escrito. Nenhum de nós sabe o que Deus decidiu acerca deles após esse episódio. Nenhum de nós poderá julgá-los, já que o mesmo exemplo foi dado pela perversa cidade de Nínive (Lc 11.32). Jesus disse que ela se levantaria no dia do juízo e condenaria seus contemporâneos do primeiro século, pois se tornaram muito piores do que aquelas que se arrependeram; estas, no entanto, demonstraram que nada aprenderam com a história.

Semelhantemente, as cidades de Tiro, Sidom, Sodoma e Gomorra sofrerão juízo menos rigoroso, pois se tivessem alcançado a oportunidade do evangelho em seus dias quais temos hoje, teriam se arrependido. Muito maior rigor haverá para os que tendo ouvido os exemplos mas não se arrependem.

A principais lições de todo esse acontecimento são: Deus não se deixa zombar, não faz acepção de pessoas nem permite que seu nome seja profanado, manipulado para finalidades egoístas. Nesse caso, é certo o ditado: aquilo que o homem semear, isso ceifará.

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