Onde Congregar Depois da Crise?

Pensando em algumas experiências e conclusões ao longo de alguns anos, percebi que de modo geral a espiritualidade cristã dos membros de igreja é bastante rasa na vivência, embora jamais o seja verdadeiramente na proposta. Porém, pelo conforto e comodidade em ser apenas membro comungante, muitos cristãos reduzem a vida da igreja ao básico do básico, como ler a Bíblia, orar e congregar. Sem dúvida, esses são os fundamentos mais rudimentares e indispensáveis. O problema está posto quando isso é também o único alvo.

A vida de um seguidor de Jesus é cheia de desafios pelos quais a fé nele conduz. Leia Mateus 5 a 7 que prontamente você verá muitos desses desafios da fé em Jesus: amar aos inimigos, orar pelos que perseguem, dar a quem pede independente da ocasião, oferecer a outra face a quem bater em uma, orar sem hipocrisia, e tantos outros.

É verdade, o ambiente em que você congrega pode não definir que tipo de cristão você será, mas induzirá bastante. E se você relaxar, com o tempo também passará a definir sua visão de vida cristã conforme o grupo em que se está inserido. E isso não significa necessariamente algo ruim. Mas há situações em que, certamente, tal conformidade será prejudicial para a sua fé. Por isso, pense em três aspectos importantes para refletir sobre onde congregar. Não é um rol taxativo, apenas exemplos que considero relevantes.

1. Procure igrejas em que a exposição das Escrituras seja o ponto mais forte.

Não se contente em ter “boas pregações”. “Boas pregações” podem ser superficiais naquilo que gera mudanças na alma. Há muitas pregações boas em que o máximo que fazem é anunciar o que todos gostam de ouvir. Então, não busque uma mensagem que seja boa aos seus ouvidos, mas uma que seja realmente centrada em Cristo. Conhecer mais a Cristo, amar, obedecer e confiar nele devem ser as metas de todo ouvinte. Há muitos sermões que são bíblicos, mas que nem de longe são cristãos.

Não basta estar de acordo com a Bíblia, deve estar de acordo com Jesus, ele é a Palavra de Deus. Ele é a personificação e o antítipo de todo conhecimento de Deus e prática da sua vontade. Ele sustenta sua vida espiritual e a Escritura dá testemunho dele (leia Lc 24.27; Jo 5.39).

Atente para o fato de que a palavra e a oração são os serviços mais essenciais e importantes da igreja desde os primórdios (At 6.2-4), além, é claro, do “partir do pão”. Portanto, busque um lugar em que possa se alimentar, não de “refrigerante espiritual” e guloseimas, que só irão te deixar inchado e doente, mas do genuíno leite espiritual que te dará crescimento para a salvação (1Pe 2.2). Essa é a razão pela qual a pregação cristocêntrica deve ser o ponto mais forte, mas nunca o único.

2. Fuja de igrejas legalistas

Igrejas que revivem a maldição da lei apenas para sustentar sua estrutura geralmente pesada, estéril e mórbida, de entretenimento, passa-tempo ou para exercer controle sobre sua vida não pode ser um lugar sadio, por mais que você ame as pessoas ali. É melhor ter comunhão com elas em suas casas do que permanecer em um ambiente tóxico “em nome” seja lá do que.

Igrejas do tipo mencionado assumem uma doutrina aparentemente bíblica, mas anticristã, pois acabam negando a Cristo pelo medo de perderem “contribuintes”. E não pense que isso é exclusividade das igrejas neopentecostais. A presença da filosofia da prosperidade e da maldição de Malaquias está em todas as denominações. Eu disse: todas, mesmo! Não somente por causa das denominações em si, mas em geral devido à visão do pastor local ou da liderança. Isso significa que as confissões e símbolos de fé dizem uma coisa, o pastor… bem, na prática, os pastores (ou líderes, presbíteros, anciãos, etc) dessas igrejas dizem outras que são coerentes com sua própria cosmovisão ou política.

Uma denominação pode afirmar que Cristo levou sobre si nossas maldições e cumpriu toda a lei por nós, mas reviver a maldição da lei para convencer seus membros a contribuírem por medo ou obrigação.

Em Cristo, já morremos para aquilo a que estávamos obrigados pela lei, e ressuscitamos com Cristo para viver de modo agradável a Deus, como servos da justiça. E sim, Deus ama a quem dá com alegria, não com tristeza, por costume ou imposição (2Co 9.7).

A espiritualidade da nova vida em Cristo conduz à liberdade, não à escravidão da lei. Guardamos os seus mandamentos por que o amamos, não por sermos constrangidos pelas ameaças da lei, mas constrangidos pelo amor de Deus mediante o convencimento livre do Espírito em nós que nos leva a sermos participantes de toda graça que Deus escolheu para abençoar todos os envolvidos nesse serviço. E isso de maneira alguma se limita a um lugar exclusivo.

Cada pessoa ou necessidade humana é o gazofilácio da nossa oferta generosa diante de Deus, em qualquer lugar da cidade ou do mundo. Digo que o lugar da tua oferta não precisa ser um lugar, mas o teu próximo. Igrejas da maldição de Malaquias vão querer convencê-lo de que quem não contribui como eles querem não pode usufruir da estrutura predial a que chamam de templo ou igreja. Essa é a sua deixa. O Estado já faz isso e as semelhanças vão bem mais além. Contra a liberdade, o amor, a benignidade não há lei que condene.

3. Procure uma igreja em que você tenha uma perspectiva de envolvimento direto

Não se junte a igrejas em que você será apenas um eterno “espectador” daqueles que estão à frente dos trabalhos. Mais uma vez, em Cristo, todos os crentes fazem parte do Corpo, e cada um possui uma função proveitosa. Temos apenas uma Cabeça nesse Corpo, não muitas. Todos são servos com diferentes dons e atuações, porém nenhum mais importante que o outro (leia 1Co 12.20-23 e Efésios 4.7-16). Respeite a todos que merecem respeito, mas imite aqueles que são líderes não pelo cargo, influência ou posição, mas pelo exemplo de cristãos.

A menos que seja reconhecido pela igreja com determinado dom e tenha espaço imediato para exercê-lo com humildade, em geral, envolver-se ativamente de modo relevante leva algum tempo. Então seja paciente e não se prenda ao que pode fazer “dentro”, mas olhe para “fora”.

Nosso ministério como igreja tem relação essencial com nosso chamado para fora. É isso que a palavra “igreja” significa. Não deixe que a espiritualização polarizada do termo diminua sua importância e significado em direção à obediência e à pratica da fé. O mundo é o lugar para exercer nosso serviço, inclusive o espaço onde a igreja se reúne. Independente de onde estiver, sirva a Cristo por onde for.

Enfim, nunca esqueça: estar em Cristo é muito mais do que fazer parte de uma lista de membros. Deus não está obrigado às nossas convenções. Nós é que escolhemos nossos confortos convenientemente. Ser cristão nunca é confortável. Se você perceber que está muito confortável em algum lugar, reveja algumas coisas. Pode ser que você tenha se habituado aos costumes locais e não esteja olhando para o contexto infinitamente mais abrangente do que é viver em Cristo e se tornar mais parecido com ele, custe o que custar. Vale a pena sofrer o que for para ganhar a Cristo e ser achado nele, ainda que tenha de abrir mão de coisas consideradas importantes pela coletividade.

Que o Pai te abençoe e te dê discernimento.

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