O Que é Perdão?

Lucas 17.1-10

É comum as pessoas terem uma compreensão generalizada e distorcida sobre o significado prático do perdão. E isso dá origem a uma série de problemas como veremos a seguir.

Pensa-se que o ofendido ganha uma espécie de direito sobre o ofensor. Esse pensamento fica claro através da atitude do ofendido, pelo fato de demonstrar sua mágoa ou mesmo ódio, e ainda achar que é justificável. Ficamos magoados e chateados. Porém essa não é a raiz do problema. A questão é que ao pensar ter um direito sobre o ofensor, o ofendido fica exposto à tentação de impor condições para liberar o perdão. Incorre-se no desejo de humilhar e punir o outro de alguma forma, deixar clara a ofensa para estimular um remorso, culpa ou arrependimento e assim ter um motivo para perdoar. O fato é que dessa forma, muitas vezes, não há liberação de perdão.

Há quem acredite que perdoar é deixar que os sentimentos ou algum sinal confirmador subitamente surjam para convencer a pessoa que o momento de perdoar chegou. As pessoas usam uma frase do tipo: “o tempo vai curar”. Mais uma vez, o problema é que o tempo não cura nada, e se os sentimentos é que mandam no perdão, pode-se dizer que pouquíssimas pessoas realmente perdoam, e quando o fazem, é por motivações equivocadas. Variados casos procedem desses dois conceitos de perdão e se multiplicam em outros conceitos igualmente errôneos.

Uma senhora, cujo marido já havia falecido e ela não o havia perdoado, depois de ouvir sobre como Jesus ensinou sobre o significado e a importância do perdão para que nossos relacionamentos sejam saudáveis, questionou o que faria, já que não podia mais dizer ao seu marido que o perdoava. Era notável que ela passou muito tempo sem perdoar o marido por achar que tinha o direito de não perdoá-lo em vista da ofensa cometida contra ela. Ela precisava compreender o significado do perdão ensinado por Jesus. Em termos bem diretos, no que concerne às relações humanas, o benefício do perdão não é para quem recebe, mas para quem o concede.

Nas relações humanas, o benefício do perdão não é para quem o recebe, mas para quem o concede.

A falta de perdão aprisiona as pessoas e fixa a lembrança do próximo com base na ofensa cometida. Mesmo que o outro parta sem ter ouvido o perdão, a mágoa continuará no coração de quem não perdoou. De forma que o maior beneficiado do perdão é quem perdoa. Pois este é o sentido do perdão: é deixar ir, relevar, considerar uma dívida paga, cortar qualquer ideia de reivindicação de um suposto direito, não se colocar em uma posição de vítima, abrir mão do ressentimento.

Mas esse é só o início do que siginifica perdoar o próximo segundo Jesus. Posto que ele nos ensina muito mais sobre a importância de perdoar por causa de nossa existência naturalmente propensa a escândalos e tropeços, assim como o que o perdão deve ser para nós, por causa de Jesus.

1. Ofender é inevitável vv. 1-2

“Disse Jesus a seus discípulos: É inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual eles vêm!”

Lucas 17.1

O Senhor aprofunda um importante fato sobre a dimensão da importância e necessidade do perdão como cuidado mútuo: neste mundo, escândalos e tropeços fazem parte da nossa existência.

Tanto pelo pecado dos que facilmente ofendem, quanto pelo pecado daqueles que facilmente são ofendidos. Há pessoas que se tornam um escândalo para outras sem sequer saber disso. Elas existem, e isso é suficiente para que outros se sintam ofendidos com esse fato. Ou você nunca teve alguma antipatia por alguém sem sequer a ter conhecido pessoalmente? Tal é a nossa condição. Não precisamos fazer muita coisa para sermos motivo de tropeço para alguém, e alguém para nós.

Por essa razão, muito mais cuidado se deve ter, pois, embora seja corriqueiro, não devemos ter por normal ou pensar: “É assim mesmo. Fulano se chateia a toa”. Jesus aponta a gravidade de fazer alguém tropeçar com a advertência: “ai por meio de quem eles [os escândalos] vêm”!

Definindo “Escândalo”

Um “escândalo” é qualquer coisa que faz alguém “tropeçar”, “desviar” ou “cair em uma armadilha”. Jesus deixa claro que ser motivo de tropeço para alguém é algo muito grave. Discernimos mais dessa gravidade quando atentamos à comparação hiperbólica que ele faz entre ofender alguém e organizar a própria morte: “Melhor fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e fosse atirado no mar, do que fazer tropeçar a um destes pequeninos.” (v.2 ARA). Mesmo que para nós essa pareça ser uma linguagem caricata, figurada por seu exagero aparentemente desproporcional, Jesus nos ensina que fazer alguém se desviar é certamente uma das piores coisas que podemos fazer na vida. Tropeçar é menos pior do que fazer tropeçar. Nós é que não conseguimos admitir a gravidade do jeito que Jesus diz ser grave.

Com isso Jesus descarta qualquer possibilidade de desprezarmos o fato de termos ofendido o nosso próximo. Ofensas acontecem e continuarão a acontecer, mas façamos de tudo para não sermos motivo de escândalo para ninguém.

2. Cuidar é preciso vv. 3-5

Com essa situação existencial em mente, o Senhor nos encaminha à maneira pela qual devemos lidar com as ofensas alheias. A comunidade dos discípulos de Jesus deve cuidar uns dos outros e isso se faz, inicialmente, pela repreensão direta. Ao sermos ofendidos, temos o dever de reprovar a atitude do ofensor a fim de que haja a possibilidade de reconhecimento e reconciliação. Aqui Jesus introduz uma condição: “se ele se arrepender, perdoa-lhe.” (v.3 ARA) É comum as pessoas pensarem que essa condição é absoluta, fazendo com que elas somente queiram perdoar se o nosso irmão demostrar arrependimento. Porém, essa condição é relativa.

Jesus nos coloca em uma situação em que mesmo não havendo arrependimento, devemos perdoar, pois são essas as suas palavras ao estabelecer a hipótese de sermos ofendidos sete vezes pela mesma pessoa no mesmo dia. Na prática sabemos que pela segunda vez já teríamos dúvida suficiente se realmente haveria algum arrependimento em nosso ofensor. No entanto, se ainda existe alguma dúvida de que o arrependimento é uma condição relativa e não absoluta para se perdoar, basta lembrarmos o que em outra ocasião o Senhor disse a Pedro quanto a quantas vezes (no mesmo dia) se deve perdoar: “não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18.22 ARA)

Em suma, não se trata apenas de conceder o benefício da dúvida. O perdão deve ser sempre abundante, sem medidas, pois afinal esse é o tipo de perdão com que Deus em Cristo nos perdoou. E é o mesmo padrão que precisa residir em nós ao pedirmos que Deus nos perdoe do mesmo modo que temos perdoado aos nossos ofensores. Pois também se não os perdoarmos, nosso Pai celeste não nos perdoará (Mt 6.12, 14-15).

Em vista de esse ser o padrão que Deus requer de nós, surge uma total sensação de carência de virtude divina por parte dos discípulos. Disseram eles por todos nós: “precisamos de mais fé”. Uma petição como essa revela que estamos muito mais interessados em responsabilizar a Deus pela nossa aparente incapacidade do que realmente perdoar. Afinal, fé é um dom de Deus.

É por isso que Jesus nos conduz à realidade de que o que precisamos ter é apenas uma pequena fé posta em ação. Não é uma grande fé que faz grandes coisas, mas a confiança na grandeza do agir de Deus. A fé pode ser como um grão de mostarda; o impossível pode ser comparado a ordenar que uma árvore obedeça a nossa palavra, arranque a si mesma do chão com suas profundas raízes e se lance ao mar. Com isso, Jesus deixa claro não ser o tamanho da fé, mas a prática dela que vê grandes coisas acontecerem.

Se ainda assim, perdoar for (sempre é?) algo muito difícil ou até impossível para nós por causa de nossa fraqueza, incapacidade e conceitos, então devemos entender que perdoar é uma necessidade tão importante que Deus o ordenou para nosso cuidado mútuo. Ele é o maior interessado e envolvido no nosso bem. Porém a responsabilidade de perdoar é toda nossa.

3. Perdoar é um dever v. 6-10

Para os discípulos de Jesus, perdoar não é primariamente um sentimento, nem uma vontade, mas uma questão de obediência. Todos, igualmente, devem ter a consciência do dever de perdoar do mesmo modo que Deus, em Cristo nos perdoou. Jesus nos apresenta isso através de uma situação hipotética e introduz uma ponderação: o patrão terá que agradecer ao empregado por ter feito apenas o que é seu dever de empregado? E conclui dizendo: “Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer.” (v.10 ARA) Em resumo, Jesus afirma isso: “perdoe e não pense que fez um favor ao seu próximo, você apenas fez o que deveria ter feito. Essa é sua obrigação como servo de Deus.”

Definindo Perdão

Perdoar é mesmo uma grande e importante exigência de Jesus. Quando perdoamos alguém não estamos fazendo um favor a ninguém, senão a nós mesmos. Perdoar deve ser entendido e recebido como uma responsabilidade natural de todo cristão, haja visto a condição propensa às ofensas a que estamos constantemente expostos. Portanto, perdoar é também reconciliar.

Lembre sempre que perdoar, como Jesus ensina neste trecho, além de ser a maneira estabelecida por ele para cuidarmos uns dos outros em um mundo de escândalos, é obedecer a Deus. O esquecimento da ofensa realmente pode vir com o tempo e, sendo possível, a convivência pacífica, como resultado do perdão. No entanto, tudo começa com uma atitude de cuidado mútuo e de obediência a Deus. Assim, não é o tempo que cura, Deus sim. Perdoar não é esquecer, é conviver em paz sem levar em conta a “dívida”, sem dor, sem ressentimentos.

A mágoa ou qualquer outro sentimento arraigado em nosso coração por ocasião de uma ofensa pode ser curado quando perdoamos e confiamos que Deus faz grandes coisas quando decidimos obedecê-lo em fé singela. Ele pode remover qualquer raiz de amargura que tenhamos desde que façamos o que ele nos ordena: perdoar.

Será que você está sendo motivo de escândalo para alguém? Busque o arrependimento e a reconciliação para que seu próximo tenha a chance ter o coração tratado. Ou em direção a quem você precisa exercer sua fé e liberar perdão?

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