Sal da Terra

Você sabe qual o seu propósito no reino de Deus? Ou sua utilidade para a sociedade? Quando ouvimos essas questões é bem comum pensar instantaneamente no que “fazemos”, qual função ou cargo temos na igreja ou na vizinhança, que tipo de profissão exercemos. Contudo, o objetivo de fazermos esses questionamentos não tem a ver com ativismo religioso, político ou social. Tem relação, sim com o que desempenhamos, porém somente em segundo lugar. O que se tem em vista é quem somos, daí definiremos o que fazemos.

Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens.

Mateus 5.13

Bem antes de comissionar seus discípulos a uma missão que objetivaria, no espaço e no tempo, os confins da terra e a consumação do século, Jesus semeou nos apóstolos a semente do ser antes do fazer. Sua mensagem do monte sempre se referiu a “bem-aventurados são”. Sim, ele incluiu também a prática da justiça, da pacificação, da esmola e várias outras, mas todas decorrentes de quem eles deveriam “ser” no mundo.

Já haviam pelo menos quatro principais grupos no primeiro século entre os judeus na Palestina que estavam envolvidos com algum tipo de ativismo. Eram eles:

1. Essênios (eremitas): tinham a si mesmos como uma comunidade “santa”. Se distanciaram dos vícios e pecados comuns da sociedade, mas sacrificaram os relacionamentos sociais. Não queriam ser influenciados para o pecado, porém seu isolacionismo não influenciava ninguém para a santificação, a menos que esse alguém se retirasse como eles. Esta era uma atitude negativa.

2. Zelotes (reacionários). Eles estavam no meio da comunidade e buscavam influenciá-la para as suas ideias revolucionárias. O problema era que acreditavam ter que fazer isso na base da força bruta, na resistência análoga ao combate e à guerra. Espadas e porretes não mudam ninguém para melhor.

3. Fariseus (moralistas): eram guardiões dos preceitos morais, mesmo inventores de muitos deles. Criavam uma série de regulamentos que tornava praticamente impossível agradar a Deus. O problema deles era a hipocrisia, pois nem eles praticavam o que diziam. Estabeleciam padrões rígidos para os outros, mas viviam veladamente de forma bem diferente.

4. Saduceus (elitistas religiosos): a cúpula da religião judaica na qual estavam incluídos os sumo sacerdotes. Só aceitavam a lei de Moisés como Escritura e acreditavam que pobres, deficientes e outros considerados “abaixo” deles eram pecadores que nasceram assim por seu próprio pecado ou pelo pecado de seus pais. Cuidavam de assuntos sociais, políticos e religiosos, acreditando terem sido postos ali por Deus para isso, representavam a ortodoxia e viam a si mesmos como os guardiões da lei e da ordem social, política e religiosa (algo similar aos togados de nossa época). Não precisa nem mencionar o classismo social elitista que tinham por causa dessa posição e, por consequência, seu afastamento das questões populares imediatas.

Nenhum desses grupos é dito por Jesus como sendo “o sal da terra”. Todos estavam errando o alvo, embora estivessem fazendo algo que consideravam bom para a sociedade e para a religião, ou apenas para si mesmos. Nenhum deles estava fazendo a diferença que Jesus tem em vista para seus discípulos no intuito de promover uma comunidade que preserva e dá sabor ao mundo.

Os discípulos, aqueles que não estavam buscando se identificar com nenhum grupo característico ou assumir qualquer identificação com uma seita exclusivista, eram os que Jesus denominou o sal da terra. Eles estavam embrenhados na sociedade. Não estavam concentrados como os demais grupos. Nem tinham essa ambição. Por que o sal, para dar sabor, deve estar espalhado no alimento, não amontoado num canto.

Se assim não for, o sal perde sua efetividade. O sal palestino não era como o cloreto de sódio de nossos dias. Se não estivesse aplicado, ele perdia a força. E se os discípulos de Jesus viessem a se tornar como os grupos que buscam preservar uma identidade comunitária se isolando, eles se tornariam insípidos e para nada serviriam. Não passariam de uma vitrine, de sal no saleiro. Jesus chama a atenção para a impossibilidade de salgar o sal que perdeu sua efetividade.

Não é assim com aqueles que são de Jesus. Pois para o sal permanecer sal, a única maneira é não querer preservar a si mesmo, por que o sal só pode ser realmente sal se ele estiver aplicado no meio. Ele precisa se dissolver no alimento para poder dar gosto.

Essa é a condição existencial do sal. Essa é também a condição ética dos discípulos. E igualmente sua condição comunitária. Os discípulos, como sal da terra devem estar mesmo entre a sociedade e dar gosto a ela. Eles devem ser os responsáveis por dar gosto a um mundo insoso. Suas obras devem fazer surgir no mundo o melhor que há. Assim como o sal levanta o gosto dos alimentos. Também são sim uma comunidade: “vós” não “tu”. Mas essa comunidade é diferente. Pois sua razão de ser no mundo não é concentrar-se num só lugar, mas se epalhar e dar gosto ao mundo.

Jesus disse que eles eram antes que eles fossem ou tivessem feito qualquer coisa. Não precisariam ser notáveis, pelo contrário, sua notoriedade se daria exatamente por não chamar a atenção, mas ainda assim fazer toda a diferença pelo proceder cristão.

O ponto é: cristão, a sua presença no mundo faz toda a diferença se você for realmente quem Jesus diz que você é.

Se você não assumir quem você é em Cristo, enquanto discípulo de Jesus, você se torna um ser indiferente para o mundo. Não adianta professar a Jesus e se isolar do mundo. Sua presença deve estar embrenhada na comunidade humana, mesmo que não seja notado. Basta que você viva o que Jesus ensinou e sua presença fará diferença, mesmo sem nenhum reconhecimento. Assim é o sal. Só se percebe sua presença pelo poder de realçar, de fazer aparecer o que há de bom nos outros. No mais, sentir gosto de sal na comida, é ruim demais. Sem ele, tão ruim quanto.

Portanto, o sal é realmente diferente, em um bom sentido. Precisa ser diferente dos demais alimentos para não perder sua função. Precisa estar no meio, imiscuido, do contrário, sal isolado no saleiro não pode dar gosto a nada. Sal no lugar errado, também se torna completamente indiferente para o resto do mundo.

Como cristão, preciso ser mais firme em atitudes e palavras deixando sempre muito claro meus valores, mas sem agredir ninguém, sem ofender, sem corroer relacionamentos. Você só precisa estar no meio daqueles que são diferentes de você, que não creem no que você crê e demonstrar amor. Foi o que Jesus disse: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.” (Jo 13.35) Você e eu não somos do mundo, mas Jesus não nos tirou nem pediu ao Pai que nos tirasse do mundo, mas que nos guardasse do mal (Jo 17.15-16). Sua intercessão é para que o mal não venha sobre nós com a força tentadora de praticá-lo contra o outro.

Não pense que se isolar em sua rotina domingueira, ou qualquer que seja o dia que congregue, seus afazeres religiosos e denominacionais irão fazer de você o sal da terra. Você estará sendo apenas sal dentro do saleiro. Consequentemente, sua religiosidade não terá utilidade alguma para a sociedade, não dará sabor algum à terra. Se acha que deixando de se relacionar com quem é diferente de você e se isolando em seu pequeno mundo cristão, você irá preservar sua qualidade de sal, saiba que irá exatamente perdê-la, pois o sal não foi feito para preservar a si mesmo, mas para preservar ao outro.

Para ser sal da terra é preciso se dissolver para dar gosto àquilo que necessita de sabor. Necessário é que estejamos, não entre o que já está salgado e que nos preserva, mas entre o que precisa ser salgado e livrado do perecimento natural neste mundo.

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