Onde é o Céu?

Embora a indagação “onde é o céu?” pareça peculiarmente infantil, a resposta a esse questionamento revela que tal ingenuidade seja apenas aparente. Está é, na verdade, uma complexa pergunta com uma resposta mais difícil ainda, por diferentes razões.

A mais comum dessas dificuldades, possivelmente, tem a ver com o imaginário popular sobre onde ou como é o céu. Entre as primeiras imagens está a de uma existência etérea (abstrata, não física) em que as pessoas se assemelham a anjos (sem corpo, mas com alguma semelhança humana, apesar das asas) tocando arpa entre as nuvens. A verdade é que essa imaginação não guarda nenhuma relação com o conceito bíblico-cristão de céu.

Uma segunda cena pictórica gerada na mente das pessoas consiste na projeção de uma vasta planície gramada e arborizada onde todos estão vestidos de branco e viverão eternamente nesse lugar fazendo não sei o quê. O que ainda é condizente são as vestiduras brancas mencionadas em visão no livro de Apocalipse.

Ambas as imagens desconsideram a essência do que é o céu: não um lugar, mas um estado de espírito em bem-aventurança perene sob a emanação contínua e infinita da majestade, poder e amor de Deus. Eu disse que a resposta era complexa. Mas vamos descomplicar com o ensino da Escritura.

O céu é um estado de espírito em bem-aventurança perene sob a emanação contínua e infinita da majestade, poder e amor de Deus.

1. O céu não é um lugar

A antiga concepção judaica de céu segmentava-o em três dimensões espaciais:

I. A atmosfera terrestre onde aves voam e os elementos climáticos se formam (nuvens, raios, trovões, etc); II. O espaço sideral no qual os astros são sustentados; III. O terceiro céu cujo trono de Deus se acha, assim como as almas incorpóreas dos que faleceram, incontáveis anjos e seres (Ap 5.11-12; 7.9-12) e para onde dirigimos nossas orações (Mt 6.9). É para onde o apóstolo Paulo entende que fora arrebatado (2 Co 12.2-4).

A questão é que este terceiro céu não pode ser um lugar do modo habitual que se imagina. Não existe uma porta secreta após as nuvens cósmicas pela qual se entra em um jardim paradisíaco.

Na verdade, ainda há muitos resquícios do paraíso do Éden na imaginação popular. Existem pessoas que até hoje procuram o lugar mencionado no segundo capítulo de Gênesis na esperança de entrar no paraíso, como quem busca Atlântida.

O problema é que o Éden, palavra que originalmente significa “prazer”, embora estivesse associado ao jardim onde o ser humano estava e onde Deus aparecia para passear no fim da tarde, não se referia propriamente à geografia (se na África, Iraque, ou outro lugar, não importa), mas a quem estava lá. Gênesis 2 se refere a um jardim no Éden. E dele saía um rio que se dividia em quatro. Para maiores detalhes leia a passagem toda.

2. O céu é um estado de espírito

Quando comparamos essa descrição com Apocalipse 22.1, entendemos que não se tem em vista um lugar que proporciona o estado de espírito anteriormente mencionado. A João fora mostrado um rio da água da vida que fluía “do trono de Deus e do Cordeiro” (Jesus). Daí decorrem todas as bem-aventuranças eternas que João percebeu na visão, como a imortalidade, a ausência de enfermidade e maldição, etc. Contudo, o principal dessa antecipação dada ao apóstolo do amor é que os servos de Deus contemplarão a sua face (em Jesus), estarão em sua presença, servirão e reverenciarão a ele perpetuamente.

Entenda: Salomão, milhares de anos antes, discerniu que Deus não habita em templos construídos pela mão humana, pois nem mesmo o céu ou o céu do céu podem conter Deus (ver Atos 17.24ss).

“— Mas será que, de fato, Deus poderia habitar na terra? Eis que os céus e até o céu dos céus não te podem conter, muito menos este templo que eu edifiquei.”

(1Reis 8.27 NAA)

Nós habitaremos em novos céus e nova terra onde muito da criação que hoje conhecemos estará presente tendo sido feitos novos por Deus (Ap 21.1,5), porém, como dito antes, não será o lugar que caracterizará o Paraíso, mas a presença de Deus. Veja, por exemplo, o que o Salmo 16 nos fala sobre o Messias desfrutar da presença de Deus: “na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente.” (v.11). A origem de todo deslumbre, prazer e alegria eternos que caracterizam o céu vem de Deus e é ele próprio.

Em verdade, Deus sempre foi, e nesse momento é a fonte de nosso estado espiritual mais sublime. Nós é que fomos engodados pelo nosso próprio entendimento e conhecimento do bem e do mal.

Jesus disse que o reino de Deus encontra correspondência dentro de nós, não no exterior. Embora exteriormente o domínio de Deus esteja plenamente difuso. Por essa razão, que desconsidera como primária qualquer noção de tempo e lugar, Jesus disse ao ladrão na cruz ao lado: “hoje estarás comigo no Paraíso” (grifo meu). Nas palavras de um antigo hino cristão composto por Charles Butler: “Onde Jesus está, aí é o Paraíso.”

Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós.

Lucas 17.20-21

Assim, o Paraíso ou céu, é Cristo em nós. É a habitação de Deus em nós. Quando todos formos ressuscitados, pois teremos nossos corpos reconstituídos e aperfeiçoados com uma natureza esplendorosa, o lugar não será o mais importante, mas a presença de Deus em todos caracterizará uma era tal que a humanidade jamais experimentou.

O Paraíso será qualquer dimensão em que o ser humano, (dois ou três, ou milhões) esteja e onde a consciência de si e do próximo esteja completamente tomada pela percepção da presença gloriosa e dadivosa de Deus. Onde estivermos, ali o Senhor estará. E onde o Senhor está, ali é céu. Portanto, o céu é onde quer que estejamos e possamos fruir do amor perene de Deus em Cristo em nós e através de nós.

Leia também a série de 4 exposições Céu, um mundo de amor, de Jonathan Edwards aqui.

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