O Significado Apostólico de Igreja

A recente crise sanitária em todo o mundo causou uma mudança brusca na forma como as pessoas congregam. Apesar de que este movimento já vinha acontecendo gradativamente como uma característica do século XXI, sendo desdenhosamente apelidado de “igreja emergente” ou “desigrejados”. Digo isso por que alguns conceitos recentes relacionados à forma como os membros de igrejas tradicionalmente participam da coletividade que até então eram rejeitados por alguns, principalmente líderes, passou a fazer parte, definitivamente, da realidade de muitas congregações.

Acredito que em um pouco mais de tempo, assim como já aconteceu na Europa, como acontece em países asiáticos e extremistas (por motivos diferentes), a tendência natural do corrrer da história é que a instituição igreja se torne cada vez mais descentralizada, simples, forte, atuante, com maior influência na vida das pessoas e livre dos conceitos que engessam a fé, causam escândalos e divisões, bem como problemas de várias ordens, assim como toda agremiação de pessoas. Com isso, uma ressignificação (ou volta) ao conceito de igreja deva ganhar mais força daqui em diante.

No primeiro século, onde a centralização, o “papismo” e a domesticação da vida alheia estavam se formando, o Espírito atuou para quebrar o controle humano que estava tomando parte das assembleias cristãs. Quando todos buscavam consolidar uma organização religiosa centrada em Jerusalém, ou em outro lugar exclusivo, o Espírito os espalhava, os impedia de ir para outros lugares, movia pessoas inimagináveis e criava diversos outros centros de comunhão e pregação nas cidades menos prováveis até que chegasse a Roma. A contribuição, por exemplo, era conforme as necessidades reais das pessoas, não um imposto na fonte. O culto e o discipulado aconteciam onde a conveniência ou o Espírito mandasse. Isso tornava a igreja cristã muito mais dinâmica e entusiasmante.

Como toda reunião humana precisa, havia ordem e decência, mas não manual ou controle artificial. Por mais que os homens considerem importantes, as chancelas humanas não têm nenhum valor diante de Deus. O que tem valor é o que foi estabelecido em Cristo, que é alcançado pela fé e experimentado pela prática das palavras de Jesus. As cidades e a vida cotidiana das pessoas já têm chefes suficientes, reuniões formais, manuais, costumes moralizantes, controle, imposto demais, e a isso chamam empresa.

É por essa razão e outras que o retorno ao significado prático de igreja pode estar ganhando força, falando de um ponto de vista humano. A igreja não é uma empresa. Embora considero bastante lúcida a seguinte constatação de autoria indefinida: “No início, a igreja era uma comunhão de homens e mulheres centralizados no Cristo vivo. Então a igreja mudou-se para a Grécia, onde se tornou uma filosofia. Em seguida, mudou-se para Roma, onde se tornou uma instituição. Em seguida, mudou-se para a Europa, onde se tornou uma cultura, e, finalmente, mudou-se para a América, onde se tornou uma empresa.” Acredito que a maneira de voltar a um relacionamento é voltando ao conceito neotestamentário de igreja.

João Boanerges

Depois de Paulo, João é o que mais indica os contornos do que é a igreja. Dentre os sinais, o mais direto e claro, talvez, seja aquele em que menciona a morte de Cristo pela nação e para reunir os filhos de Deus em um só Corpo (11.51, 52), visto como uma profecia do sumo sacerdote Caifás. Apesar de não usar a expressão igreja, João já havia exposto o sentido de que os filhos de Deus são incluídos no Corpo mediante o recebimento da luz (conhecimento), a aceitação do Verbo de Deus na pessoa do Filho unigênito. Para ele, a igreja tem relação com a vida espiritual que o Espírito sopra sobre os crentes, e, portanto, a reunião dos filhos de Deus é fundamentalmente sobrenatural e seu critério de inclusão é a fé em Jesus. Os sinais, a cruz e a ressurreição são centrais nessa condução do quarto evangelho. Seu ponto de vista encerra com o propósito de estimular a fé em Jesus para que crendo, tenham vida em Jesus.

Já em Apocalipse, no sentido terreno, a igreja é mártir (testemunha) de Jesus. Sua condição é de peregrina, perseguida e vencida pelo seu perseguidor. João se vale abundantemente do termo igreja como aquela na qual Jesus anda no meio, a Noiva adornada e uma comunidade multiétnica, multicultural, inumerável, reunida diante do trono do Cordeiro.

Na primeira carta e em Apocalipse, esse é o significado escatológico de igreja: o povo que foi comprado pelo sangue e nasceu do sangue, da água e do Espírito. Não obstante os filhos de Deus devam aguardar serem oprimidos na terra, subirão até Deus e viverão diante dele, pois para isso foram remidos por aquele que esteve morto mas vive.

Simão Pedro

Nas cartas do apóstolo Pedro, igreja significa um povo eleito em um estado doméstico escatológico de desenvolvimento onde os que têm crido são como crianças que devem desejar ardentemente o genuíno leite espiritual, a palavra do evangelho. Dessa forma amamentados na casa paterna, estão sendo conduzidos ao crescimento em meio às dores de um mundo estranho e hostil por meio da preciosa fé que posuem em Cristo. O alvo escatológico dessa comunidade é uma “casa espiritual” cuja Pedra Fundamental é Cristo, e todos os pequeninos do Pai são pedrinhas que vivem. O objetivo é o amadurecimento dessa comunidade de filhinhos em um reino de sacerdotes santos, de adoradores.

Dessa maneira, Pedro pontua a comunidade igreja como cristãos em condição temporária de refugiados, sem lugar fixo nesta terra, que será desfeita pelo fogo, e até mesmo a, se perseguidos por causa da justiça, continuar firmes em seguir os passos de Jesus, ainda que sejam caluniados ou esbofeteados por isso. Cefas, que também se vê como uma ovelha do Supremo Pastor, por fim, exorta seus leitores a não mais viverem segundo a carne, mas conforme Jesus, pois é necessária esta conformação aos sofrimentos de Cristo para serem santos como ele é santo.

Assim, Pedro define igreja por meio de um contraste entre como ela está momentaneamente – em sofrimentos; e o que ela será – uma comunidade purificada, gloriosa e santa. O caminho até lá só pode ser percorrido seguindo a Jesus, que sofreu no tempo em que esteve em um corpo carnal, mas que agora é puro, glorioso e santo.

Paulo de Tarso

Paulo foi quem na verdade aplicou o sentido de igreja à realidade de cada comunidade cristã nas diferentes regiões por onde esteve. No sentido local, as igrejas que Paulo “plantou”, na realidade, foram assembleias domésticas. O que ele chamava de igreja no sentido local, era a reunião em domicílios daqueles que haviam crido em Jesus pela pregação do evangelho (geralmente dele). Quando muito, ele usava, por exemplo, a Escola de Tirano ou uma sinagoga, o templo judeu, a ágora, ou o mercado. Mas isso era somente para pregação pública. A igreja mesmo se encontrava nas casas.

Quando Paulo se refere a reunião em 1 Coríntios “Quando vos reunis no mesmo local…”, ou “na igreja”, ele tem em vista o fator fenomenológico (social?) enquanto companhia uns dos outros no mesmo ambiente. Este é apenas um sentido geolocal, circunscrito a uma determinada região geográfica, pessoas que saem de onde estão para irem a outro lugar, onde se reúnem.

Além desse sentido, Paulo fala de uma igreja que foi reunida pelo Senhor em um só Corpo. É a reunião mística dos membros do Corpo que não está condicionada a uma geografia, nem prédio, nem denominação, mas presente nas regiões celestiais em Cristo. Para ele esta é uma realidade contemporânea, pois a fé antecipa o que há de vir.

A implicação desse último indicativo teológico de Paulo é que onde dois ou mais crentes se reunem, em nome do Senhor, aí é igreja, é assembleia. São as pessoas em torno do nome de Jesus que qualificam a reunião como igreja no tempo e no espaço, pois estão unidos e reunidos no Senhor nas regiões celestiais (dimensões transcendentes). Tanto é que mesmo os coríntios se reunindo, Paulo os repreendeu dizendo que quando se reuniam, não era a ceia do Senhor que comiam (1 Co 11.20). Isso significa que mesmo estando reunidos, onde quer que estivessem, não era o lugar e as circunstâncias criadas por eles que determinavam esse encontro místico com suas características espirituais.

A consonância dos membros com a verdade e a prática dela em Cristo, segundo o que aprenderam no evangelho pregado e vivido por Paulo é que dizia estarem eles ou não reunidos em nome do Senhor. Dessa forma, ele dizia não ser a ceia do Senhor que estavam memorando por ignorarem a importância do significado daquele rito. Isso nos mostra que é a centralidade do evangelho – Cristo – que torna um encontro uma assembleia de igreja.

Portanto, é possível estar no “lugar” de igreja e não se estar em nome do Senhor. Ao passo que é verdadeiro estar em um “não-lugar” de igreja e estar reunido em nome do Senhor. Seja uma praia (como Jesus frequentemente fazia em Cafarnaum), uma casa, uma escola, uma sinagoga, uma prisão, à margem de um rio.

O inverso também é verdadeiro, pois o lugar só é determinante para a conveniência. De forma que posso estar reunido como igreja, em nome do Senhor, sem qualquer aparato ou procedimento meramente convencionado, bem como posso “estar em uma igreja.” Um lugar convencionado não se transforma exclusivamente em “igreja”, “templo” pois como vimos, não é o lugar que define a igreja. É a igreja que define o lugar. Foi assim que Jesus disse não ser nem no monte, nem em Jerusalém, mas em espírito e em verdade. Jesus define as pessoas, o povo eleito; as pessoas definem o lugar, por que onde estiverem dois ou três, em seu nome, ali Jesus está no meio deles.

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