A Genealogia de Jesus

Lucas 3.23-38

As genealogias eram usadas para uma série de propósitos e nem sempre há um consenso sobre o objetivo teológico delas. A maneira mais simples de conhecer um indivíduo era conhecendo sua ascendência. Também era possível conhecer a ascendência de alguém e concluir algo sobre ele. O que temos nos dois casos é apenas uma inversão da direção. Em termos populares, “filho de peixe, peixinho é”, ou “tal pai, tal filho”. E os nomes bíblicos eram mesmo compostos com a expressão “ben”, no hebraico, ou “bar”, no aramaico, ambas significando “filho de”.

A exemplo temos o comum nome Josué, o qual podia ser distinguido pelo sobrenome “ben-Num”, filho de Num (Dt 1.38). O nome do pai identificava o indivíduo ligando-o à uma família, a uma história. O mesmo acontece na composição do nome em aramaico, com o uso de “bar”, mais comum no Novo Testamento, como o nome de Pedro, Simão, a quem Jesus identifica pelo sobrenome Barjonas, isto é, “filho de Jonas” (Mt 16.17), ou no falso profeta de Atos 13.6, cujo nome era Barjesus, “filho de Josué”, ou “Jesus”.

Tanto Simão quanto Jesus eram nomes bem comuns no primeiro século, sendo distintos, não meramente pela questão do nome, mas por causa da ascendência. Na visão generalista, eles seriam como seus ascendentes. Eram de quem eram filhos. E, realmente, muito do que os filhos são tem a ver com seus genitores, tanto em questões genéticas, comportamentais, de personalidade, profissão, forma de expressar, de pensar etc. São muitas as conexões que a carne e o sangue fazem entre alguém e seus ascendentes.

Todavia, ao lermos a genealogia de Jesus, avaliarmos a história de seus ascendentes, bem como sua própria vida, podemos tirar princípios muito importantes que falam sobre nós mesmos e nossa complexa composição ontológica (quem somos como seres). Além do mais, é possível que venhamos a discernir a relevância de reconhecermos nossas mais profundas raízes ascendentes, a fim de preservarmos aspectos benignos. Também podemos ver como Jesus significa um total rompimento com qualquer padrão de erros e malignidades herdados da ascendência, quer espontaneamente quer por genética.

Antes de considerarmos essas importantes questões, precisamos entender porque Lucas escreveu da forma que temos na passagem.

Após introduzir o início do ministério público de Jesus, Lucas traça sua origem. Esta é a forma de apresentá-lo como alguém intimamente ligado à história daquele povo por meio de seus ancestrais. Jesus não apareceu simplesmente do nada. Conquanto Deus tenha se apresentado em Jesus essencialmente divino, ele assumiu todas as naturalidades de qualquer indivíduo que vem ou já veio à essa existência terrena e carnal. Isto é, Deus veio ao mundo pela mesma porta de entrada que todo ser humano, com família, história, conflitos familiares históricos, assim como todos nós temos uma família e uma história. Jesus se apresentou como um ser divino plenamente humano.

De modo proposital, Lucas inverte a genealogia de Jesus. Geralmente as genealogias bíblicas partem dos ancestrais mais importantes até o indivíduo a respeito de quem se quer falar mais detalhadamente ou justificar seus feitos e obras. Neste caso, Lucas começa da ascendência seminatural de José (já que Jesus fora gerado pelo Espírito sendo José pai apenas de criação), passando por uma série de pessoas até chegar ao primeiro homem, Adão e em seguida a Deus, pai de Adão e de todos os homens por tê-los criados todos a partir de um só. Com isso Lucas liga Jesus muito mais profundamente às suas raízes. Lucas o apresenta como o Messias, a raiz de Davi, o descendente prometido a Abraão e a Eva, porém suas raízes são desde a eternidade, porquanto, precisamente de Belém viria o Cristo, como profetizou Miqueias (5.2).

Assim como se dá com qualquer um de nós, seus ascendentes comunicam algo a seu respeito, embora nenhum ancestral seu tenha definido integralmente quem ele é e veio a ser. Ao ligá-lo ultimamente a Deus, fica aparente a realidade de que cada indivíduo possui derradeiramente uma ligação a Deus como Criador, como Pai. Isso graças a Jesus, pois ele é quem estabeleceu essa conexão, porquanto ninguém vai ao Pai senão por ele; pela fé nele recebemos o poder de sermos feitos filhos de Deus, tendo sido adotados e incluídos em sua família (Jo 1.12; Ef 1.5; 2.19).

1. Uma Nova Pessoa, um Novo Começo

Primeiramente, isso implica que, em Cristo, cada ser humano é religado à sua mais profunda raiz, que é Deus. Jesus é o mediador de nossa filiação. Sendo assim, cada um dos pequeninos de Deus, em sendo uma nova criação, não mais terrena apenas, porém celestial, recebem o poder de se tornarem uma nova pessoa segundo Deus, segundo Jesus, não conforme os rudimentos, as mazelas e pecados que nossos antepassados nos transmitiram. Agora, em Jesus, todos recebemos de Deus um novo começo, assim como ele, Jesus, iniciou um novo começo para seus antepassados e para o mundo inteiro. Em Jesus Deus começa uma nova história para todos aqueles que confiam em sua graça transformadora e salvadora.

Embora tenha tido em sua linhagem sérios problemas étnicos, Jesus tem em sua genealogia a estrangeira moabita Rute e a prostituta Raabe. Ou tendo como ascendente direto do rei Davi a Natã, fruto de um relacionamento ilícito e perverso de Davi com Bate-Seba, feita viúva à força pelo rei. Ou  ainda, a Manassés, provavelmente o indivíduo mais perverso e depravado de toda a história hebraica, e Acaz, o rei que assassinou o próprio filho em um culto idólatra. O fato de ter esses e tantos outros problemas em sua árvore genealógica não definiu quem Jesus seria com base nas atitudes, caráter, personalidade, costumes, genética de seus ascendentes. Mesmo reunindo em si toda essa carga histórica e biológica, Jesus veio como um indivíduo totalmente novo, ontologicamente independente, ainda que relacionado. Jesus preservou em si a dignidade de cada um deles como seres humanos e como filho de Deus.

2. Ninguém Vive Para Si

Em segundo, além do rompimento com os ciclos contraditórios de seus ascendentes, seus conflitos e peculiaridades, a genealogia humana de Jesus esclarece que, embora muitas das pessoas cujos nomes foram registrados ali sejam totalmente desconhecidos, nenhum deles é insignificante. Mesmo que o mais notório a seu respeito tenha sido, por exemplo, ter nascido de uma relação esquisita e ardilosa entre uma nora viúva e seu sogro hipócrita, como nasceu Perez, filho de Tamar e Judá, seu sogro (Gn 38.1-24; Lc 3.33). Tantos outros nomes nessa lista são completos desconhecidos. Contudo, cada um guarda em si um papel que vai além de si mesmo, pois para que Jesus nascesse a existência dessas pessoas foi humanamente necessária e divinamente planejada. Foi por meio delas que o Salvador do mundo veio.

Em última análise, nenhuma dessas pessoas viveu para si. Cada uma delas, apesar de qualquer coisa existiu para cumprir um propósito maior que elas mesmas, embora enquanto vivas jamais tenham tido essa percepção. Discernir isso nos leva a considerar a dignidade da nossa existência na execução da vontade de Deus. No final das contas, não é o que fazemos ou deixamos de relevante para o mundo, mas o que Deus faz para o mundo através de nós, nem que seja “apenas” gerar filhos.

Jesus não deixou nenhum descendente carnal, (Is 53.8,10) porém ainda hoje sua posteridade se prolonga como prometido a Abraão, como as estrelas do céu e como a areia da praia (Gn 22.17). Ele se apresentará novamente com todos os filhos que Deus lhe deu, apesar de nenhum sequer ter sido gerado por meios terrenos (Is 8.18). Jesus viveu muito além de si mesmo, viveu para a humanidade e a recebeu como parte da sua herança. Seus filhos espirituais continuam a nascer continuamente todos os dias como fruto da semeadura espiritual que ele fez oferecendo sua vida como propósito para o benefício de outros. A supremacia de Jesus é que ele fez isso espontaneamente.

3. Além do Berço e a Sepultura

A terceira consideração a fazermos sobre a genealogia de Jesus é a que diz sobre a vida ser muito mais do que os eventos ocorridos no tempo entre o nascimento e a morte, entre o berço e a sepultura. Conquanto para muitos a vida comece no nascimento, na verdade ela começa muito antes de vários degraus na ascendência genealógica. Quando chegamos neste mundo a vida já estava aí, e continuará quando partirmos. Não somos especiais como achamos que somos. Sim, todos têm sua importância, mas não da forma que pensam.

Geralmente somos muito autocentrados e reducionistas quando se trata da existência, como se a vida se tratasse apenas ao que está relacionado a nós. Mas isso não é verdade. Como descendentes de um ancestral comum, a humanidade deveria ter um senso de coletividade mais abrangente que levasse em consideração as pessoas que vieram antes de nós, bem como as que ainda virão.

Somente Jesus possui a dignidade de reunir em si mesmo todas as coisas, fazendo com que tudo e todos convirjam a ele. Ele é o primeiro e o último e nele tudo subsiste. Inclusive nós somos participantes dele, pois nele existimos e nos movemos, como disse Paulo aos pensadores gregos de Atenas (At 17.28,29). Como geração de Deus, um pensamento sóbrio a nosso próprio respeito é mais adequado, de um lado; porém muito mais audacioso de outro, já que, sendo assim, nossa existência possui um propósito que ultrapassa os limites sanguíneos e étnicos, geográficos e temporais.

4. O Propósito de Deus é Cristo

Em quarto e último lugar, porém mais importante, é que a sucessão de pessoas e histórias passadas de geração em geração pelo laço sanguíneo tanto possui raiz em Deus quanto se dirige a ele.

Durante a vigência da descendência terrena do primeiro Adão os seres humanos seguiram os passos errantes de seu representante, pecaram e morreram. Agora, quando se manifestou o segundo Adão, que é Cristo, a geração do ser humano celestial está sendo conduzida ao propósito de todo homem: ser como Cristo Jesus.

No princípio, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e o ordenou que se reproduzisse e povoasse a terra. O resultado lógico desse ato e ordem seria que a terra haveria de ser povoada com a imagem e semelhança de Deus. No entanto, isso só está sendo plenamente cumprido em Cristo. Por isso, quando alguém converge a Jesus significa uma profunda volta ao princípio de tudo, mas não como antes, incomparavelmente melhor. Digo isso porque o que está preparado para os que se encontram em Cristo não se pode comparar nem por um segundo. Pois através dele é que temos acesso a Deus, a imortalidade e a vida eterna.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Site desenvolvido com WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: