O Cântico da Cruz

A profecia no Antigo Testamento, sem dúvida, constitui um fenômeno excepcional. Em boa parte, indivíduos falaram de experiências que não tiveram, sobre pessoas que nunca viram, em tempos que não viveram, e em circunstâncias que não experienciaram. Embora nem sempre esse fenômeno remeta a eventos futuros, quando assim se evidenciam, apresentam quadros de eventos de tempos muito distantes, e, às vezes, com uma riqueza de detalhes tentadora aos críticos. Isso por que lhes é incocebível que assim tenha sido, a não ser que os textos tenham sido manipulados posteriormente. Contudo, dificilmente a crítica literária resiste à factualidade de textos já consolidados quando os eventos profetizados se cumpriram. Este é o caso de Salmos proféticos com cunho futurista.

Outro artifício literário é desconstruir a narrativa posterior como tendo sido adequada artificialmente na tentativa de explicar o texto. O que acaba frustrando completamente essa suposta abordagem, já que as evidências quase sempre são abundantes, dentro e fora do cânon bíblico.

Como exemplo, Isaías 53 permanece um quadro vívido e permanente com o tema insofismável do sofrimento vicário do Messias pelo seu povo, algo que seria incompreendido, já que a pergunta inicial continua a ecoar: “quem acreditou na nossa pregação? E a quem o braço (salvação) do Senhor foi revelado?” (53.1). Uma mensagem que requeria a fé para ser recebida, caso contrário ela seria prontamente rejeitada, como se deu com muitos judeus no primeiro século e até hoje.

Mas não somente os reconhecidamente profetas falaram da parte de Deus sobre eventos futuros. O próprio rei Davi foi tido como um sobre quem o espírito de profecia (vidência) repousava (Atos 2.30) e que mensagens de eventos vindouros haviam sido a ele reveladas.

Esse é o caso do Salmo 22, que toda a tradição milenar judaica, certamente seus contemporâneos e o próprio Jesus conheciam muito bem, mas que pouca (ou nenhuma) relação guarda com as experiências de Davi, mesmo em suas fases mais difíceis. Por outro lado, ou em um tempo muito depois, alguns versos desse cântico delineam com uma vivacidade espantosa os sofrimentos e angústias de um indivíduo, e até mesmo as palavras e gestos de seus algozes. Tal espanto se deve pela semelhança indubitável com a crucificação de Jesus.

Uma das sete frases de Jesus pendurado no madeiro foi a citação do primeiro verso do cântico do Salmo 22. Composto pelo rei Davi cerca de 1000 anos antes de Cristo, nessa poesia Davi fala de sofrimentos e situações pelos quais ele mesmo não passou, como os ossos desconjuntados, as mãos traspassadas, a exposição vergonhosa e nua diante de seus acusadores e, por fim, a menção de que ele passaria pela morte, mas Deus lhe daria vida novamente.

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” foram as palavras da poesia de Davi que foram vivenciadas por Jesus. Tendo sido desamparado por Deus na cruz, ele experimentou uma morte violenta, imerecida, vergonhosa e solitária. Enfrentou tudo isso pois confiava tanto em Deus a ponto de passar pela morte por todos os homens para demonstrar que aqueles que confiam em Deus, ainda que morram voltarão a viver.

“Lembrar-se-ão do SENHOR e a ele se converterão os confins da terra; perante ele se prostrarão todas as famílias das nações. […] A posteridade o servirá; falar-se-á do Senhor à geração vindoura. Hão de vir anunciar a justiça dele; ao povo que há de nascer, contarão que foi ele quem o fez.”

Salmo 22.27-31

E esse é exatamente o motivo de a Páscoa ter tamanho significado para judeus e cristãos: A passagem da morte para a vida. Aquela Páscoa se tornou irreprimível da História porquanto nela Jesus derramou a sua vida para nos salvar enquanto seus lábios proferiam os versos deste cântico.

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