O Que é Santificação?

Quando não se tem alguma referência teórica e prática é habitual se deixar levar pelo senso comum. E nesse campo, ceder aos usos e costumes, bem como à moralidade é muito fácil. A santificação quase sempre é definida pela prática como uma série de comportamentos prescritos (dieta). E é essa ideia de certos comportamentos determinados em uma lista que acabam desviando as pessoas do que realmente significa santificação.

Como exemplo de usos e costumes tem-se por santificação não usar certos tipos de adereços como batom, brincos, camisa vermelha, calça jeans (mulheres), ingestão de álcool e uma infinidade de outros ritos. Alguns deles realmente são mais uma questão de bom senso e escolha pessoal. Mas o problema surge quando as pessoas estabelecem seus usos e costumes como uma regra de santidade para todos os outros, condenando e ameaçando todos os que não os seguem. Esse é um comportamento religioso comum, mas muito perigoso e difícil de ser superado.

Quanto à moralismos, muito do que se considera elevado entre as pessoas, Jesus disse ser abominável diante de Deus. Ele se referia a um código de conduta social convencionado e imposto por uma classe de pessoas sobre outras como comportamento aceitável, mas que não produziam vida com Deus.

No entanto, frequentemente Jesus reprovou a moralidade vigente entre os fariseus pois apenas servia para criar uma imagem social desse grupo como se eles fossem o padrão de santidade para o povo. Expondo a hipocrisia deles – pois impunham porém não praticavam, criavam preceitos, mas jeitosamente rejeitavam os mandamentos de Deus para guardar a própria tradição – Jesus direcionou seus discípulos para uma face diferente da santificação.

Nunca vemos Jesus levar a sério muitos dos costumes judaicos de sua época como constantes purificações com água, inclusive de objetos, o chegar próximo ou tocar em um cadáver, tocar em pessoas com lepra, deixar ser tocado por pecadores, assentar-se para comer e conversar com eles, considerar algum alimento impuro, dentre outras coisas. Entretanto, ele manteve o costume de frequentar as sinagogas e o templo com o intuito de ensinar, todavia não se limitando a estes locais como sendo os únicos admitidos por Deus. Na maior parte do tempo em que ensinava Jesus não estava em ambientes “religiosos”, mas onde as pessoas estavam: nas ruas, nas casas, na praia.

Em nenhum momento vemos Jesus se submetendo aos ritos de purificação do Antigo Testamento. Certamente, eles já faziam parte da comunidade judaica e eram amplamente empregados. Porém, a questão não é que Jesus estava rejeitando os preceitos de santificação do AT, ele os estava superando. Assim, ele simplesmente codificou o conceito de santificação não mais em uma dieta prescrita por Moisés, mas em seu próprio modelo de proceder. Em resumo, a partir de Jesus, a santificação deixou de ser uma lista de comportamentos sobre como ser santo e passou a uma maneira de viver conforme ele mesmo encarnou. Sendo santo Jesus sempre fez a vontade do Pai, e sua vontade é nossa santificação (1Ts 4.3).

Uma vez que o próprio AT já resumia a santidade à imitação de Deus “sede santos porque eu sou santo”, a única novidade é que, em Jesus, ser santo se tornou possível graças ao exemplo que ele deu e pelo poder regenerativo do Espírito que ele concedeu. De maneira que se alguém quiser ser santo precisa ser como Jesus, ter o Espírito de Jesus. É dessa forma que Pedro relembra a passagem de Levítico 11.44-45 aplicando-a à maneira de viver do cristão:

…segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está: “Sede santos, porque eu sou santo.”

1 Pedro 1.15-16

Jesus simplificou a santificação como um caminho a ser seguido, uma oração a ser feita, a verdade a ser crida. Deixou de lado as privações dietéticas comportamentais para instaurar um espírito, uma maneira de ver e tomar atitudes segundo um modelo pessoal: ele mesmo. É assim que Paulo recomenda a si mesmo como um modelo, já que também ele tomou a Cristo Jesus como seu padrão de imitação ao dizer: “Sejam meus imitadores, como também eu sou imitador de Cristo.” (1Coríntios 11.1)

Assim, todos os preceitos mosaicos passaram a ser subsidiários nas escolhas pessoais de consagração. Em que pese o conceito geralmente aceito de que santo é ser separado, o Novo Testamento trouxe a definição de como ser separado para o uso pessoal de Deus: a habitação do Espírito Santo. A santificação, então, não tem mais a ver com lugares, ritos nem a objetos e o uso deles, mas com uma resposta pessoal do encontro que se teve com Jesus, o Santo de Deus. Não são os comportamentos que conduzem à santificação, é a santificação que determina os comportamentos.

Ser santo, portanto, é ser guiado pelo Espírito de Jesus. E essa condução é o que nos torna semelhantes a ele. Ser santo é um processo de tornar-se cada vez mais parecido com Cristo, refletindo sua imagem em nossa vida, como quem o contempla pessoalmente. Afinal, sem a santificação ninguém pode discernir o Senhor. E quem não discerne, não pode se tornar como ele, pois não o conhece.

Além disso, devemos nos perguntar se determinados comportamentos que achamos serem atos de santificação não passam de moralismo ou comportamento legalista, usos e costumes. Então, podemos nos perguntar: “Jesus realmente reprovaria ou condenaria alguém ao inferno só por que essa pessoa usou um brinco ou tem tatuagem? Ou Deus permitiria que fosse lançado ao lago de fogo eternamente uma alma apenas porque em vida essa pessoa usou batom, saia, camisa vermelha, calça jeans, piercing, ingeriu ocasionalmente álcool?”

Jesus com certeza não fez muitas dessas coisas, porém deixou claro seu exemplo do que ser, e não apenas do que não fazer. Ficou explícito que todas as coisas me são lícitas, mas nem todas são convenientes, pois nem todas edificam e nem todas me conduzem à santificação. E a única forma de discernir o que me conduz à santificação ou não é pelo Espírito de Jesus em nós. O Espírito é o árbitro dos atos santificados em nossas vidas. E é a ele que devemos depender para nos tornarmos santos como Jesus.

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