Dons Espirituais

Ainda existe uma área bastante cinzenta nas teologias e nas denominações em geral quando se trata de dons. Às vezes há uma visão muito aumentada sobre os dons de um lado, enquanto outras permanecem míopes quanto as capacitações espirituais que Cristo entrega aos membros de seu corpo. De um lado, tudo é dom, de outro, poucas ou somente algumas habilidades são tacitamente assumidas como dons. Neste último caso há uma tendência de confundir habilidade natural com o dom espiritual. Porém, são concessões distintas. Discernir ambas é essencial para que a igreja possa aceitar os dons do Espírito da maneira que Cristo Jesus ordenou que seja e se empenhe por alcançar plenamente sua função espiritual no corpo.

Habilidade Versus Dom

Uma habilidade é qualquer capacidade aprendida ou desenvolvida por alguém que lhe confira por si mesmo a possibilidade de domínio sobre um conhecimento ou técnica. Por exemplo, um irmão ou irmã pode ter uma excelente formação acadêmica e profissional como administrador mas não necessariamente ser capacitado com o dom de “governo”, mencionado por Paulo em 1 Coríntios 12.28. Ele ou ela simplesmente aprendeu uma habilidade e, legitimamente, pode exercer suas competências para o serviço da igreja. Contudo, isso não é o que caracteriza um dom. É igualmente possível que além dessa habilidade aprendida alguém receba também o dom de administrar, mas ainda assim são capacidades distintas. Mesmo sabendo que todo o necessário para se aprender uma habilidade tenha sido fruto da graça de Deus, como a saúde, inteligência, as condições econômicas etc, um dom da graça está sempre além da outorga comum a crentes e descrentes.

Um dom difere de uma habilidade por duas razões: 1. O dom é “favor que alguém recebe sem qualquer mérito próprio”. Nesta definição, a capacidade adquirida pelo crente vem de uma forma extraordinária, isto é, fora do comum. 2. É uma capacitação dada pelo Espírito Santo sem o qual jamais seria possível para o indivíduo realizar. Nas palavras de Jesus, “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Jesus mesmo sempre deixou claro que tudo o que fazia não vinha de si mesmo (Jo 3.2; 5.19,30). Portanto, um dom é uma habilitação adquirida sem que a pessoa tenha feito qualquer esforço para aprender ou desenvolver. É a manifestação extraordinária de uma graça espiritual que sem o Espírito de Jesus jamais pode se realizar.

Assim, é possível ter uma habilidade, mas não ter o dom correspondente, ao passo que é possível ter o dom sem jamais ter feito algo para adquirir uma habilidade. Um dom não é simplesmente algo que faço com facilidade, com prazer ou por pura espontaneidade. Essas não são características do dom, mas de uma habilidade natural. É perfeitamente provável que tanto uma habilidade quanto um dom correspondente coexistam, mas um não pode ser trocado pelo outro.

Classificação e Finalidade dos Dons

Todo dom possui um fim proveitoso. Isso indica que Deus dispôs cada membro do corpo de Cristo do modo que lhe aprouve com suas funções peculiares. Devemos compreender os dons outorgados à igreja não exclusivamente como os de liderança (apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Ver Ef 4.11). Cristo dotou e distribuiu dons por todo o corpo de modo a promover a edificação do corpo, a unidade da fé, o serviço, a maturidade em amor e o crescimento.

Os dons de liderança não são mais importantes, possuem uma função primordial no sentido de servirem aos demais e encabeçarem a edificação. Nem todos serão evangelistas, pastores e mestres, mas líderes com esses dons ajudarão os demais servos de Deus a se aperfeiçoarem no uso de seus próprios dons e de sua identidade escatológica em Cristo enquanto eles mesmos também se aperfeiçoam no serviço e no caráter de Cristo Jesus.

Em regra parece que os dons não são autoevidentes. Cada membro deve ter seu dom descoberto e desenvolvido para que efetue sua cooperação no corpo. Paulo nos diz que devemos procurar com sinceridade os melhores dons (1Co 12.31). Deveríamos corretamente concluir, então, que os dons não são naturalmente perceptíveis nem facilmente acessíveis, eles devem ser buscados com disposição e fervor. Entre os objetivos na carta aos coríntios (12-14) Paulo intenta persuadir seus leitores e ouvintes acerca da realidade dos dons e da melhor maneira de se utilizá-los para o benefício de toda a igreja.

A primeira maneira prática de cooperar para que nossos irmãos busquem e descubram seu dom (ou dons, há crentes como Paulo que recebem mais de um ou vários) é evitar a adequação a um sistema denominacional. Não devemos incorrer no erro comum de encaixar pessoas nos programas e manter adaptando os membros aos “eventos e ministérios” da igreja. Em segundo lugar, ao invés disso, devemos adotar um estilo mais discipulador pessoal e trabalhar conjuntamente a fim de que eles (e nós) possam procurar com zelo os melhores dons que o Espírito dotou. A igreja deve refletir a multiforme sabedoria, graça e poder de Deus através dos dons espirituais.

Portanto, os dons de liderança são diferentes apenas quanto sua posição e função, nunca quanto a sua importância. Todos são igualmente importantes, embora nem todos sejam “boca”, “olhos” ou “pés”, mas cada membro possui uma posição, função e contribuição enriquecedora e vital para o corpo de Cristo, a igreja. E esta é a maravilhosa maneira pela qual Deus dispôs cada membro com sua dignidade e função para que, enfim, todo o corpo seja um.

No próximo post desse assunto veremos mais especificamente os dons de liderança e o exemplo de Paulo com um modelo.

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