Juízes: a Força do Povo de Deus

Josué, o sexto livro do Antigo Testamento, termina com a morte de um grande líder militar e espiritual de Israel. Neste desfecho dramático de transição entre gerações, Josué confrontou os israelitas que ainda possuíam deuses entre si e, assim, não poderiam servir a Deus tendo uma vida dividida.

Monumentos da fé em breves lembranças

Infelizmente este sincretismo apenas se intensificou ao longo do tempo em Israel (1 Re 18.21). Mesmo assim, em Siquém, Josué faz todo o povo se comprometer em temer ao Senhor e em servi-lo com integridade e fidelidade, exigências básicas da renovação da aliança com Deus (Js 24.25). Apesar disso, há uma forte desconfiança da capacidade de o povo se manter fiel ao Senhor, como o próprio Moisés já havia previsto (Dt 30) e Josué fez questão de reafirmar. Há pelo menos dois fatores diretamente relacionados à fraqueza espiritual de Israel: a primeira ligada às lideranças, e a segunda à Terra e os povos vizinhos.

Quanto às lideranças, profundamente caracterizadas pelas figuras patriarcais e as promessas de Deus a eles, desvaneciam como algo do passado, a despeito de a nova geração estar herdando a terra prometida a Abraão, Isaque e Jacó. A própria descendência sacerdotal chegava a um ponto de interrupção com a história recente (Js 24.33), um importante marco delineador da iniciada vivência no deserto e da futura experiência espiritual do povo na Terra Prometida. A liderança militar também já se tornava uma lembrança da antiga geração, aspecto ressaltado pela sensação de repouso depois de décadas em peregrinação no deserto e frequentes batalhas.

Confundindo perigos com oportunidades

Quanto aos fatores relacionados à Terra e seus moradores, Israel teria desafios ainda maiores pela variedade de divindades presentes e das constantes ameaças espirituais e geopolíticas da circunvizinhança. Nesse contexto Israel seria tentado a confundir esses perigos com oportunidades através de alianças políticas e miscigenação, práticas reiteradamente proibidas por Deus (Êx 23.31-32; 34.11-17; Dt 7.1-2; Jz 2.2)

Além de todos esses elementos de transição no livro de Josué, o mais relevante é a ligação entre o estabelecimento das tribos e o período monárquico, evidenciado na repetitiva frase: “Naquela época não havia rei em Israel” (Jz 17.6; 18.1; 19.1; 21.25). Tal conexão sugere que o livro de Juízes foi escrito posteriormente aos eventos que narra, em algum ponto do período da monarquia. Ao que parece o intervalo entre os juízes e os reis foi de aproximados trezentos anos (11.26).

Escolhas erradas

O fato é que Israel fora escolhido para representar o reinado de Deus estabelecido por meio de uma teocracia (Êx 19.5-6), não de uma dinastia monárquica. Mas conforme os acontecimentos no livro de Juízes vão sendo descritos, alguns pontos norteadores evidenciam a aspiração nacional de um representante político, como de fato aconteceu e já havia sido previsto (Dt 17.14-15). São estes:

  1. A necessidade de uma liderança espiritual (Mediador);
  2. A necessidade de uma constituição Teocrática (Lei de Deus);
  3. A necessidade de uma liderança nacional (Libertador).

Cada uma dessas necessidades deveria apontar para a iminência do reinado de Deus no meio de Seu povo, contudo foram entendidas por Israel como uma dessemelhança com os povos vizinhos que possuíam reis. Em paralelo, aspectos negativos são levantados no livro para demonstrar a carência de um monarca israelita. É possível todos esses elementos apenas compunham a visão do escritor, que conjeturava a monarquia como uma maneira legítima da adequação política de Israel, ou simplesmente o reflexo de um anseio nacional implícito. Os aspectos são os seguintes:

  1. A falta de unidade das tribos (a perda da fé em Deus como elemento unificador);
  2. A depravação moral e espiritual (apostasia, sincretismo e idolatria);
  3. Fidelidade inconstante, mesmo tendo líderes chamados e capacitados por Deus (juízes, libertadores e profetas).

Para cada uma dessas ênfases é possível ressaltar a história de três importantes líderes em Juízes que apontam características relacionadas às necessidades mencionadas (não necessariamente na mesma ordem): Débora, Gideão e Sansão.

A unidade tribal

O livro de juízes possui uma narrativa que costura eventos de cada tribo de Israel sob o mesmo pano de fundo político e espiritual. O livro começa dizendo que o Senhor designou Judá para derrotar seus inimigos e Judá convocou a tribo de Simeão que foi junto. (1.2, 4, 8, 19). Além dessas duas tribos, é dito que a família de José também obedeceu ao Senhor (1.22-26). Mas no mesmo capítulo introdutório as demais tribos aparentemente não consultaram ao Senhor nem lhe obedeceram, pois não expulsaram os seus inimigos: Benjamim, Manassés, Efraim, Zebulom, Aser, Naftali e Dã (1.21, 27, 29-36). As histórias dos juízes de várias tribos de Israel acentuam o clima de anarquia, pois “cada qual fazia o que achava mais reto” (17.6; 21.25). A atuação deles de Norte a Sul provavelmente aconteceu concomitantemente durante dois ou três séculos até a elevação de Samuel, cujo papel reuniu características de juiz, sacerdote, profeta e rei. O mais próximo de uma unidade entre as tribos se deu no período de Débora, mencionado em seu cântico, que foi profetisa e juíza em Israel (4.4, 5; 5.1-31). Apesar da promessa de que de Judá não se apartaria o cetro até que viesse o reinado messiânico (Gn. 49.8-10), a fraqueza espiritual dessa tribo apenas adiou esse cumprimento.

Sacerdócio corrompido

Tendo o livro de Josué terminado com o relato da morte de Eleazar, o sacerdote, filho de Arão, o sumo-sacerdote, a história dos levitas é retomada em Juízes de modo quase insignificante. Sob circunstâncias parecidas à falta de unidade entre as tribos em Juízes, a importante tribo de Levi só é mencionada no final do livro com duas histórias bastante bizarras (Jz 17-20). A tribo se torna objeto de superstição e evidente fonte de sincretismo para o povo.

Como a eles não havia sido dada a herança da terra como às demais, os relatos se dão em Efraim, onde provavelmente os levitas estão habitando, e onde Eleazar, o sacerdote, fora sepultado, na cidade de Gibeá em Quiriate-Jearim, localizada da região centro-oeste de Israel. Com a dissolução dessa tribo sacerdotal, a fé de Israel foi substituída pelo sincretismo, a idolatria, a imoralidade e a violência.

É evidente que a Lei de Deus fora esquecida e negligenciada. A própria liderança estava de todo corrompida. Israel deveria ser uma nação teocrática, mas toda a história de Juízes demonstra que até que escolhessem um rei para si conforme os costumes das nações, o caos estaria instalado.

Israel havia rejeitado o governo de Deus e o surgimento dos juízes de um lado põem essa rejeição em evidência, mas por outro, salientam que todos esses homens de Deus tiveram atividade momentânea, fruto da inconstância e fraqueza de Israel. Em alguns pontos da história parecia que a fé tornaria aos trilhos, mas ao morrer aquele juiz tudo voltava a ficar como antes.

Apesar das distorções da fé em Israel ainda havia pessoas que conheciam ao Senhor e eram fiéis. Dentre os juízes despertadores da fé no Deus verdadeiro está Gideão (6.11–8.35). Sem dúvida este é o juiz mais hesitante, contudo é um dos que mais ressaltam como uma pequena fé em um grande Deus pode fazer grandes coisas.

A história de Gideão delineia os tempos de fraqueza espiritual em Israel, mas da força que provém da fé em Deus (6.14), da paz que ele garante a seu povo (6.24) e do que ele é capaz quando se busca fazer sua vontade (6.27; 7.2, 22). No entanto, mesmo no fim da vida de Gideão resta a percepção de que o Senhor ainda não reina sobre Israel (8.22, 23, 27, 31-35). No capítulo 9 fica cada vez mais patente o surgimento de uma monarquia com características bastante ímpias e inconsistentes com o caráter do povo de Deus.

A necessidade de libertação

Israel viveu um período de grande afastamento espiritual e de tremenda inconstância nos caminhos de Deus. Deus proveu libertadores (3.9, 15) que trouxeram salvação e vitória ao seu povo, no entanto, por todo o livro esse aspecto permanece sempre intermitente e incompleto. A necessidade de um salvador capacitado com o verdadeiro poder de socorrer e que tivesse sobre si a unção de Deus é manifesta.

Nesse período, há outros nomes que podem ser mencionados como figuras salvadoras do povo mesmo sob circunstâncias imperfeitas, como no caso de Sansão (nome que significa “como o sol”) (13-16). Esse importante líder teve seu nascimento preanunciado pelo anjo do Senhor:

  • Nasceria de uma mulher estéril;
  • Seria consagrado a Deus desde o ventre materno (Nazireu);
  • Alguém sob a bênção e direção de Deus (pelo Espírito).

Sansão foi um libertador sobre quem repousou o Espírito do Senhor de tal maneira que o habilitou a fazer proezas até o último dia de sua vida (13.25; 14.6, 19; 15.14; 16.28). A história de Sansão relata os feitos de Deus por meio dele, porém não retira a sensação de que Israel carece de um libertador que dure para sempre e que julgue com sabedoria e justiça sobre seu povo. Sanção é um líder displicente com a lei de Deus, principalmente quanto à sua consagração.

O povo de Deus sempre careceu de um elo eterno que pela fé o conduzisse às coisas espirituais mais excelentes, que imprimisse em seus corações a Lei de Deus, mas sobretudo que reinasse com justiça e os trouxesse uma salvação eterna. O Libertador que traria a paz e a vitória definitiva ao seu povo, que abençoaria e concederia o dom do Espírito Santo a cada um e os constituiria em um verdadeiro sacerdócio real, uma nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus (Êx 19.5,6; 1 Pe 2.9; Ap 1.6; 5.10).

Da tribo de Judá não se levantou o governador, da tribo de Levi não houve quem ensinasse a Lei de Deus, e do meio deles não se levantou o prometido Libertador (Sl 22.1-3; Is 59.19-21). A mensagem do obscuro período de juízes revela a dependência do povo de Deus alicerçada na fé e na obediência. Em sua inconstância e ignorância foram sustentados pela graça de Deus de modo que puderam tirar força da fraqueza, característica do poder de Deus que se aperfeiçoa na fraqueza. Juízes não chama a atenção para o comportamento do povo de Deus como um padrão, mas para o Deus que fortalece os fracos e salva os oprimidos.

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