A Origem Bíblica das Cidades

E Caim se retirou da presença do Senhor e habitou na terra de Node, a leste do Éden… edificou uma cidade e a chamou de Enoque, o nome de seu filho. (Gênesis 4.16‭-‬17 NAA)

Questionar o estado das coisas nem sempre faz parte da vida comum. Simplesmente aceitamos muitas coisas como elas estão sem nem ao menos refletir sobre a realidade delas, a origem, implicações e desembocaduras. É o caso, neste exemplo, dos aglomerados de pessoas convivendo em determinados espaços denominados de cidades. Por qual razão vivemos em cidades? Como elas vieram a ser o que, muitas vezes, são hoje em dia? O que dá significado último à permanência das pessoas nos espaços urbanos? Seriam as urbes apenas uma convenção lógica do crescimento populacional? O que justifica se manter nesse ajuntamento?

Na Roma antiga, os habitantes de cidades eram denominados cidadãos, pessoas circunscritas a uma localidade onde eram-lhes atribuídos direitos e definida sua situação entre a coletividade, ou política. Esse sentido vem principalmente do conceito da polis grega, designando a forma de convivência entre os cidadãos. Assim, orignariamente, as cidades denotam as relações humanos em um dado espaço. E isso cria uma espécie de “contrato” implícito (ora explícito) entre os habitantes daquela localidade, daí o termo sociedade (de sócios).

Já a Bíblia nos dá conta que a primeira cidade fora edificada em decorrência de uma complexa condição espiritual e psicológica. A configuração imaterial das cidades atuais está profundamente ligada às reminiscências ecoadas por Moisés no livro de Gênesis que nos falam sobre a mencionada condição. Para se chegar a uma compreensão básica do porquê e para quê vivemos em cidades basta analisarmos indutivamente as experiências narradas por Moisés no livro das origens. Sua própria experiência com a cidade egípcia remonta a cena de um indivíduo em fuga, medo, exílio e vagante como o foram Adão e Caim. A diferença é que o movimento de Moisés se dá de forma centrífuga, para fora da cidade, enquanto em Adão, e mais objetivamente Caim, se observa um deslocamento centrípeto, para o centro de refúgio. Mas o elemento psicológico do sujeito perturbado é comum a todos eles.

Caim e seus descendentes são ainda mais característicos, já que foi o primeiro homem a construir uma cidade e dar a ela o nome de seu filho, Enoque (outro, não o que foi arrebatado por Deus). A cidade de Enoque surgiu da condição errante de Caim após assassinar seu irmão e temer por vingança. Seu comportamento fóbico e errático reflete seu pai Adão, este em busca de exílio entre as árvores do jardim, aquele, entre os becos e vielas das habitações.

A idiossincrasia dessas experiências humanas primitivas dizem muito, ainda que não tudo, a respeito dos estereótipos presentes nas estruturas sociais dos dias de hoje. Ou não reconhecemos que a violência, a vaidade, a depressão e o medo integram a realidade das comunidades urbanas? Na verdade, essa psique social apenas se reproduz em ciclos cada vez mais frequentes e profundos. A torre da cidade de Babel é símbolo de toda a conjuntura complexa que as cidades comportam.

Alguma resposta semelhante pode ser vista no comportamento de outros homens na Bíblia, como Elias, Jonas e João Batista. Estes, no entanto, se isolaram por causa das cidades. Eles estavam em processo de distanciamento do convívio concentrado em regiões populosas. Como se percebe nesses dois últimos nomes e mesmo com Jesus, nem sempre é a condição do próprio indivíduo que impele para fora do centro urbano, mas a psique da própria cidade. Veja: Elias se escondeu nas cavernas do deserto ao extremo sul de Judá fugindo de Jezabel e do rei de Israel, Acabe. A cidade se tornou para ele uma ameaça e motivo de inadequação. Jonas se refugiou em um navio fugindo da presença de Deus indo na direça contrária da ordem divina. Sua missão era ir para o centro da grande cidade de Nínive, mas fugiu para Társis, extremo oposto. E Jesus, tendo passado agonias de morte no jardim do Getsêmani, foi depois crucificado pelos cidadãos de Jerusalém do lado de fora da cidade.

Em resumo, a primeira cidade foi construída pelo primeiro homicida da história cujo intuito era se esconder por medo de represálias. Isso caracteriza a origem da urbanização como a projeção de uma mente atemorizada que busca isolamento e para isso se afasta e levanta muros ao seu redor.

Porém, apesar desta caracterização bastante negativa sobre as cidades, os centros urbanos são também tidos pelas pessoas como lugar de conforto, segurança, prosperidade. Agora isso se deve não pelo que os seres humanos fazem das cidades, mas pela convergência que Deus planejou para a polis. Tanto é assim que a escatologia bíblica apresenta uma cidade santa que desce do céu da parte de Deus (Ap 21.2). Ela é apresentada em pleno contraste com a Babilônia, a Grande Meretriz adornada pelas riquezas e luxúrias humanas.

A Nova Jerusalém, no entanto, representa a humanidade redimida, santificada e adornada pela virtudes divinas aplicadas por meio de Cristo. Nela, o ponto de atração de todos os povos é sua praça central por onde flui o rio da vida e onde está o trono do Cordeiro. Ele, como Autor da vida, por sua morte fora da cidade introduz os cidadãos dos céus à cidade celestial onde existem muitas moradas. Assim, o desígnio de Deus para a humanidade se concretiza na realização da cidade de Deus, da qual ele é o arquiteto e edificador (Hb 11.10). Não necessariamente um lugar, mas a reunião de todos os que foram redimidos pelo sangue de Jesus, desde o justo Abel até o último homem na terra. Esta é a cidade aguardada por todos os santos.

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