A Outra Face

“Ao que te bate numa face, oferece-lhe também a outra;” Lucas 6.29

O princípio de oferecer a outra face ensinado por Jesus dificilmente se aplicaria a um esportista de luta. Também não se trata de literalmente se deixar esmurrar pela segunda vez, já que dessa maneira, mesmo Jesus nunca fez (Jo 18.22-23). Então do que se trata?

O princípio explicitado por Jesus está além de um mero gesto de oferecer o outro lado da face para ser ferido. Trata-se de uma atitude de não resistência, ou, melhor ainda, de não retaliação “na mesma moeda”. No contexto de Mateus 5.38-42 Jesus cita o que foi dito aos antigos: “Olho por olho, dente por dente” e que se tornou icônico no mundo inteiro, não obstante já existirem outras versões em mais antigas civilizações (regra de ouro). Mas estaria Jesus revogando a Lei de Moisés? Pelo contrário, Jesus está deixando claro que aquela pedagogia foi superada.

No contexto do mundo antigo, estabelecer um critério de justiça retributiva na mesma proporção podia implicar duas coisas: 1. Quem quer que ferisse propositalmente alguém causando-lhe dano severo ou permanente seria assombrado pela ferida na mesma proporção; 2. Esse mandamento refreava qualquer vingança que extrapolasse a “razoável proporcionalidade”. Por exemplo, se em um ato violento um indivíduo sofresse uma lesão permanente em um de seus olhos, ele seria tentado a retribuir muito além de ferir o olho de seu agressor, chegando a tirar-lhe a vida.

Além do mais, este mandamento não deixava margem para uma “justiça com as próprias mãos”. Toda demanda judicial seria julgada pelos sacerdotes e juízes da cidade (Dt 19.17), também eram previstas outras formas de reparação indenizatória (Êx 21.18-27).

Logo, Jesus traz como atitude superior ao espírito humano o princípio de não pagar mal com mal. Ou, nas palavras de Paulo, não se deixar ser vencido pelo mal, mas retribuir com o bem o prejuízo sofrido. No mesmo sentido, as demais afirmações quanto a ter sua túnica tomada, obrigado a andar uma milha, ser xingado e caluniado com suas adequadas atitudes deixam claro que Jesus exige de seus seguidores o amor incondicionado para que se tornem semelhantes ao Pai (Lc 6.32; Mt 5.44-46). Quando revidamos na mesma proporção ou acima dela estamos nos identificando com as atitudes do perverso, não com a de nosso Pai celeste. Nisso Jesus sempre deu exemplo de sua humildade, como testemunhou Pedro: “Pois ele, quando insultado, não revidava com insultos; quando maltratado, não fazia ameaças, mas se entregava àquele que julga retamente” (1 Pe 2.23).

Jesus ensina que o perdão e o amor são a resposta condigna acima de toda circunstância adversa que soframos por causa das atitudes maldosas de outras pessoas, não o impulso nervoso e cheio de “direitos” de retribuição justificada. Ele demanda de seus discípulos muito mais do que atos de bondade, ele estabelece a necessidade de consistente atitude ética que coaduna com o espírito cristão que afirmam com palavras. Jesus ensina que devemos fazer aos outros o que desejamos que os outros façam a nós, e isso não significa que devemos sempre esperar algo em troca, já que até mesmo os pagãos fazem isso. Pelo contrário, devemos nos tornar o modelo que o mundo precisa. Mesmo assim, ele deixa claro que, mesmo não esperando receber dos homens algo em troca, os cristãos que assim procedem estarão juntando “tesouros” para si nas regiões celestes e aumentando sua herança espiritual. tal nada tem a ver com posses no mundo por vir, mas com as riquezas da alma que vão sendo acrescentadas desde já à medida que praticamos as palavras de Jesus. É dessa maneira que nos tornamos como ele.

Por fim, uma das maneiras práticas de exercitar essas atitudes em direção a alguma consistência pode começar por decidir-se por emprestar a alguém não por saber que pode receber de volta, mas justamente porque não será materialmente reembolsado. Neste caso, se alguém precisa, o melhor é dar do que estabelecer um empréstimo. Assim, você estará livre, pois antes mesmo de ser uma dívida, ela já estará perdoada. Quando ofendidos ou caluniados, nossa atitude deve ser concentrar nossos pensamentos e palavras em direção a Deus Pai em favor daqueles que precisam de perdão por não saberem o que fazem.

Poucos de nós seres humanos estão comprometidos com tão elevados valores espirituais e pelas motivações corretas. Talvez por isso o mundo sempre seja violento e ameaçador mesmo quando as pessoas se dizem pacifistas, fazem yoga, meditação, sejam religiosas dentre outras coisas. O que vale não é o que se diz da boca para fora (aparência ou impulso), mas o que procede de dentro (essência e atitude). Sem isso nenhum de nós pode realmente oferecer a outra face sem cometer o equívoco de um gesto literal vazio.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Site hospedado por WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: