A Natureza da Fé

Vivemos em um país em que declarar ter fé é bastante comum. As pessoas até costumam a qualificar a cultura de classe mais humilde tendo a fé entre as virtudes de um povo trabalhador. Este sentimento reflete em parte a natureza da fé, mas segundo a Escritura, fé é bem mais do que ter um pensamento positivo. Ela possui multifaces de significado, o que a tornar conceitualmente complexa, mas na prática extremamente simples. Hebreus 11.1 define fé como “certeza” e “convicção” de coisas futuras e de fatos invisíveis.

1. Confiança

Partindo dessa definição, a fé declarada na Escritura possui como fundamento a confiança nas promessas e na palavra de Deus. Dessa forma, crer tem como fato gerador o que Deus revelou sobre as coisas que ele fez e as que irá fazer. Toda confiança se baseia em deixar-se persuadir por aquilo que Deus disse, não simplesmente em coisas aleatoriamente esperadas por nós. Ter fé sempre implica uma entrega aos desígnios de Deus, a partir do que se conhece de seu caráter e sua palavra. Por exemplo, Davi demonstrou fé quando amaldiçoado por Simei. Disse ele a seus homens que queriam calar o blasfemador: “Ora, deixai-o amaldiçoar; pois, se o SENHOR lhe disse: ‘Amaldiçoa a Davi’, quem diria: ‘Por que assim fizeste?'” (2 Sm 16.10). Davi demonstra uma atitude bastante aberta a uma possibilidade com base na soberania de Deus.

Da mesma forma, Jó entendeu, pela fé, que se ele havia recebido o bem de Deus também poderia receber o mal (Jó 2.10). Em ambos os casos não se pode falar de pessimismo ou de culpar a Deus, mas de reconhecer que ele faz como lhe apraz e a fé simplesmente vê e se submete. Sendo assim, fé enquanto confiança em Deus possui como pressuposto conhecê-lo e estar aberto às mais variadas possibilidades de seus desígnios, quer de eventos futuros, quer presentes ou passados; quer consideremos bons, quer ruins.

Além do que, em determinadas situações Jesus se via surpreso com a fé de algumas pessoas, especialmente aquelas que pouco conheciam a seu respeito. Foi assim que o Senhor se admirou com o raciocínio cheio de confiança do centurião quando mandou seus servos suplicarem o favor do Mestre. Jesus declarou aos discípulos: “Afirmo-vos que nem mesmo em Israel achei fé como esta.” (Lc 7.9). Portanto, fé tem uma relação íntima com intrepidez, com pensamentos e atitudes inusitados, com fervor santo nascido da fé e unido com ela, todos sempre apoiados no conhecimento que se tem de Deus. Crer é um entregar-se ousadamente aos cuidados dele.

2. Obediência

Outro significado de fé que percebemos na Escritura é o relacionado à forma de agir a partir do conhecimento que se tem de Deus e de sua palavra. Nesse sentido a fé se exprime por meio da obediência. O exemplo clássico que temos é o de Abraão. Tiago argumenta que a obediência do patriarca foi a maneira pela qual ele demonstrou sua confiança em Deus, pois, segundo afirma, “foi pelas obras que a fé se consumou” (Tg 2.22). Ele poderia ter crido em Deus sem ter ativamente obedecido ao comando de oferecer seu filho Isaque? Tiago expõe que não, pois a obediência é o que dá expressão à fé. Tiago não pretende discutir a natureza da fé apenas afirmando que ela seja posta em prática, não entrando em questão se é muita ou pouca fé.

O Senhor Jesus, por outro lado, trouxe o ensino de que não existe uma razão proporcional entre tamanho da fé e grandeza de uma realização, como os apóstolos pensaram (Lc 17.5). Jesus afirma que uma ínfima fé, comparada por ele a um grão de mostarda, pode realizar grandes coisas, até mesmo impensáveis, se tão somente sua palavra for obedecida (Lc 17.10). Dessa forma, a fé, por menor que seja, quando posta em prática por obediência a Deus, pode realizar o impossível, pois tudo é possível ao que crê (Mc 9.23).

Tiago adverte que professar a fé em Deus é algo que até mesmo os demônios fazem, e ainda tremem (Tg 2.19). A questão é que esses seres não dirigem suas ações em conformidade com sua crença e temor, tornando essa fé puramente intelectual. Pedro, de outro lado, exorta para que a fé seja associada com a virtude e demais fruto do Espírito, do contrário a simples profissão sem praticá-la revela falta de discernimento (2 Pe 1.5-8)

3. Doutrina

Um terceiro significado dado à palavra na Escritura é aquele concernente à sua matéria. Nesse sentido ela se apresenta como um conjunto de verdades reveladas ao povo de Deus. É assim, por exemplo, que a comunidade cristã primitiva compartilhava e crescia na “doutrina dos apóstolos” (At 2.42). Dentre os apóstolos, Paulo combatia inicialmente o conteúdo dessa fé enquanto ensino cristão, mas logo que convencido por ela passou a ser reconhecido como alguém que a pregava (Gl 1.23).

O tema desse corpo doutrinário está especialmente identificado com a convicção de ser Jesus o Messias, tema típico do evangelho. Logo, a doutrina cristã se revestiu do atributo kerigmático solidificado com o uso do discurso para o ensino das verdades do evangelho de Jesus, posteriormente sob a forma de preceitos (2 Co 4.13). Tais preceitos são essencialmente definidos no ensino evangélico de uma só fé que também se propõe a unificar os crentes sob o mesmo ensino (Ef 4.5,13). Portanto, a fé também se expressa através das proposições e verdades ensinadas por Jesus, mantidas e pregadas pelos apóstolos, e, finalmente transferidas aos santos como um corpo doutrinário cujo conteúdo é o evangelho (Jd 1.3). O conteúdo dessa fé produziu para a igreja muitas confissões das quais a mais conhecida é o chamado “Credo Apostólico”.

Ao contrário do que as pessoas supõem, o Credo não é uma “reza”, nem um complemento à Escritura, tão pouco foi redigido pelos apóstolos. O que se tem é um registro das doutrinas fundamentais da fé em Cristo. Ele é composto pela síntese das verdades mais básicas do evangelho tanto na questão doutrinária quanto histórica dos fatos nele dispostos. O Novo Testamento possui várias confissões como essa em forma de proposições teológicas e hinos cristãos primitivos. Leia os seguintes: Filipenses 2.5-11; Colossenses 1.15-20; 1 Timóteo 3.16; Hebreus 1.1-4; 1 Pedro 2.21-25). Embora esses e outros hinos tenham sido introduzidos no texto bíblico por razões e propósitos diversos, sua existência e uso mais peculiar é ensinar à igreja o conteúdo da confissão de fé.

4. Tradição

Em 2 Tessalonicenses 3.6-7 Paulo admoesta a igreja para que evitem corromper a tradição apostólica imitando irmãos desordeiros. A tradição mencionada aqui se refere a “entregar alguém para ser ensinado, moldado”. Nisso, o apóstolo expõe a tradição baseada na prática do evangelho da qual os irmãos haviam sido testemunhas. Em suma, Paulo relembra o exemplo de procedimento cristão baseado na fé que os tessalonicenses tiveram dele e de seus colaboradores para que imitassem as mesmas pisadas da fé (2 Co 12.18). O significado de fé aqui vai além da doutrina e abrange o modelo de conduta cristão entregue para ser imitado e moldar a ética e os costumes da igreja de Deus (1 Co 11.16).

Geralmente Paulo associa doutrina e tradição com piedade (1 Tm 4.8), a prática da verdade, o evangelho. Assim, todo o conteúdo do ensino do evangelho que fundamenta a fé cristã também subsidia as práticas da igreja segundo o exemplo apostólico. Vê-se, portanto, que a fé como tradição não pode sofrer acréscimos, omissões ou reformulações, ela é um modelo a ser seguido.

A igreja não tem domínio sobre esse tipo de tradição, ela apenas deve zelar para que as atitudes que começaram em Cristo sejam repetidas pelos cristão e não sejam perdidas ou modificadas ao longo dos séculos (Jo 13.15; 1 Co 4.6; 1 Pe 2.21).

5. Dom

Por fim, fé é um dom de Deus, mediante o qual nos relacionamos com ele e somos salvos (Ef 2.8). É a resposta ao estímulo de Deus pelo fato de ter ele entregue seu Filho para nos salvar. Ela é um dom de Deus porquanto se assim não fosse, nenhum de nós por si mesmo jamais confiaria em Deus. Se Deus não nos desse a conhecer sua salvação ninguém jamais a buscaria nem alcançaria por esforço próprio, muito menos creria como indagou Isaías: “Quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor?” (Is 53.1). Mas porque Deus nos revelou fomos conduzidos a crer, pois a fé vem pela pregação (Rm 10.17).

Semelhantemente, nem todos que ouvem creem na mensagem do evangelho. Desde a palavra pregada por Jesus muitos ouviam de mal grado e as parábolas eram a maneira de semear a fé entre os eleitos e “endurecer” os que não criam, embora fossem expostos da mesma maneira (Mt 13.13). Assim, crer é uma dádiva da graça que possibilita ver a salvação de Deus. Sem essa graça todos andamos na escuridão também os demais na incredulidade permanecem cegos em seu entendimento (2 Co 4.4).

Derradeiramente, fé é “estar aberto às possibilidades que Deus apresenta”, é contar com Deus, o que vai além de esperar o evento ou coisa concedida; é o recebimento da mensagem da salvação e meio de relacionamento com Deus. É, portanto, o resultado da correta percepção espiritual do realizado por Deus. Crer é pensar, agir e um vir a ser conforme a verdade revelada no evangelho.

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