Não Entristeçam o Espírito de Deus

Éfeso existe desde o ano 133 a.C. como capital da província romana na Ásia. Estava entre as cinco cidades mais relevantes do Império Romano e foi de grande importância para a expansão do cristianismo. Ali veio a se estabelecer uma importante comunidade cristã dois séculos depois.

A carta à igreja em Éfeso foi escrita por volta do ano 61 d.C. pelo apóstolo Paulo, estando ele ainda preso em Roma. Seu propósito magno é a exortação à unidade da Igreja como Corpo sob a soberania da Cabeça, que é Cristo (1.20-22). Aos Efésios pode ser compreendida didaticamente em duas partes: Na primeira parte, Paulo estabelece a doutrina evangélica (1.3 – 3.21); e na segunda parte, dirige exortações e aplicações práticas (4.1 – 6.20).

Das exortações práticas contidas nos versos 25 a 32 do capítulo 4, podemos ler alguns imperativos negativos quanto a pecados, os quais, possivelmente a igreja em Éfeso estaria cometendo e perturbando a comunhão e a unidade do Espírito. Esses pecados estariam prejudicando os crentes no sentido de viverem um estilo de vida que agradasse a Deus e implicava em resistência à orientação do Espírito Santo.

É importante, antes de tudo, que compreendamos a economia pneumatológica (forma como o Espírito atua na Igreja) presente na carta que nos remete à unidade da propriedade de Deus, seu povo: a) Deus, pelo seu livre propósito, decretou que mediante a fé em Jesus todos os que cressem fossem selados com o Santo Espírito da promessa (1.13); esse Espírito foi por ele designado como o penhor da herança (1.14), sendo a garantia de que o prometido será plenamente “pago”; b) Por meio de Cristo, todos temos acesso ao Pai no Espírito (2.18), isto é, na mente, no poder e na vida do Espírito, pela participação em sua natureza santa; também somos habitados por Deus através do Espírito; c) É ele quem a todos fortalece por sua ação no nosso homem interior; e faz com que Cristo habite em nosso coração, pela fé, tendo como fundamento o amor; d) Ele quem opera a unidade entre todos os que foram vocacionados e unidos ao Corpo de Cristo; ele é o mesmo em todos, age por meio de todos e está em todos (4.3,4); daí a necessidade de nos esforçarmos por preservá-la. Os deveres exigidos por Deus nesse texto é que não sejamos empecilho uns para com os outros de forma a corroer essa unidade que o Espírito opera entre os membros do Corpo.

Sendo assim, em 4.25-32, a exortações feitas por Paulo ordenam os crentes a evitarem pecados pois causam ônus a atuação do Espírito na igreja. Com exceção dos demais verbos imperativos, somente aquele no verso 31 demanda uma ação que está no imperativo aoristo na voz passiva (“longe de vós…”). Nesse contexto o verbo sugere o afastamento de “toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia”, sob a atividade de outro, ou expressa um pedido do autor aos destinatários.
Após essa exortação, seguem as advertências para que os crentes não entristeçam o Espírito. Todas elas têm a ver com a relação mútua entre os vocacionados de Deus e objetivam a preservação da unidade que o Espírito Santo promove (4.3). As reprovações e mandamentos atacam as ações que infligem tristeza ao Espírito Santo, por isso, antes de vermos sobre essas ações, vamos entender o que significa entristecer o Espírito.

“Entristecer” pode ser entendido como causar inquietude espiritual, perturbar. O verbo lypeite significa causar escrúpulos em alguém. Conotativamente quer dizer “ser uma pedra no sapato de alguém”. Tomando o sentido conotativo, a palavra escrúpulos provém do latim scrupulus, diminutivo de scrupus e remete a uma pequena pedra pontiaguda que era usada como subunidade de medida de peso romana, submúltiplo do scrupus. Alguns comerciantes romanos costumavam lesar seus clientes na hora de pesar o produto, alegando não terem scrupulus, consequentemente não podendo fazer uma medição mais precisa. Com isso, tiravam vantagem na quantidade do produto a ser pesado e no valor pago pelo comprador.

Trazendo ao contexto do que Paulo adverte, entristecer o Espírito de Deus é perturbar ou causar lesão. No entanto, entendemos que Deus jamais é alterado em sua essência, mesmo pelos nossos piores pecados ou intenções corruptas (Tg. 1.17). Entristecer o Espírito é, portanto, lesar, não a essência do Espírito de Deus, mas a influência do seu poder e agência entre os irmãos na fé. É causar danos aos membros do Corpo de Cristo, e derradeiramente à unidade da Igreja, cujo originador é o Espírito Santo. Assim, é trabalhar contra o que ele está fazendo de bom em nós.

É nesse sentido que em 2 Coríntios Paulo afirma que a tristeza afligida a um crente é a tristeza de todos, e na mesma proporção o é a alegria (2.1-11). Em Romanos 14.15-17 Paulo afirma que mesmo por motivos fúteis alguém pode entristecer seu próximo e fazê-lo “perecer”. Tal atitude é oposta ao amor fraternal e ao Espírito Santo. E diz ainda que o reino de Deus é justiça, paz, e alegria no Espírito Santo (v.17). Logo, aqueles que não se refreiam, lesam um irmão ou irmã e consequentemente a obra de Deus em suas vidas (v.20). Mais uma vez, não é que o homem tenha a capacidade de anular os intentos divinos, acrescentar-lhe ou diminuir-lhe em algo. Simplesmente, o que fazemos de ruim é primeiramente danoso a nós mesmos, e em segundo lugar ao nosso próximo, em favor de quem Cristo morreu.

Dessa forma, há mais de uma maneira de entristecer o Espírito. Calvino, comentando sobre esse tema, afirma que em habitando o Espírito Santo no crente, quando este último se entrega a todo tipo de impureza, é como se estivesse expulsando o Espírito Santo “de seus aposentos”. É notório que o Espírito Santo é pessoal, pois a expressão utilizada por Paulo aqui, lypeo, é causar tristeza, dor, aflição, e somente pessoas podem sentir essas coisas. Hendriksen acredita que entristecer o Espírito só não é tão forte e significativo quanto “resistir ao Espírito”, e nem tão agudo quanto “extinguir o Espírito”.

Efetivamente, o que entristece o Espírito Santo, naturalmente, será tudo aquilo que fere sua santidade, e sendo Ele “um só Espírito”, a desunião também lhe causará tristeza. Tudo o que for incompatível com a sua própria natureza virá a feri-lo. Assim sendo, até mesmo por ser o “Espírito da verdade”, ele é entristecido inclusive por todo abuso da fala que o ser humano por vezes o faz. Vejamos quais abusos exemplificativamente são alvo da repreensão de Paulo.

Não mentir ao próximo (v.25), que não se resume meramente ao que se diz, mas ressoa um apelo à união vital dos crentes na comunhão do Corpo; esse versículo reflete o mesmo tipo de exortação que lemos em Zacarias 8.16-17 a uma atitude sem a qual não pode haver vínculo entre os membros desse Corpo.
Por outro lado, mesmo alguém em razão, nessa obstinada busca por justiça pode acabar alimentando sentimentos que minam a confiança e engendram dissensões entre irmãos. A ordem, portanto, é não reter a ira, mesmo a que é justa, para não ceder ao ressentimento (v.26); o Senhor não retém a sua ira perpetuamente (Sl 103.9), muito menos os crentes que foram perdoados devem dar lugar à mágoa. O final do versículo pode ser uma alusão ao que o Salmo 4.4 refere a consultai no travesseiro o coração e sossegai.

A persistência pode causar males ainda piores para toda uma congregação. Com o senso de insatisfação da justiça o indivíduo pode cair em uma terrível armadilha passando a difamar, insultar, acusar falsamente, isto é, fazer o papel de Satanás, se deixar guiar ou governar por ele (v.27), por aquilo que ele faz. Proporcionalmente, quanto mais nos sentimos ofendidos, mais ofendemos as pessoas, mais entristecemos o Espírito, um verdadeiro ciclo desvirtuoso.

A escalada do pecado pode ir cada vez mais fundo, e o que antes era verbal e moral pode passar a um estado mais crítico onde o furto entra em cena. Porém, Paulo pode estar se referindo a uma prática recorrente entre os gentios em sua vida pregressa e que podiam se ver tentados a uma recaída. Ele ordena a não mais furtar, mas trabalhar com honestidade para que ao invés de defraudar o próximo, tenham com que socorrê-lo em sua necessidade (v.28). Não basta não fazer o que é ruim, é preciso fazer o que é bom. Nesse caso, trabalhar e ajudar os mais carentes.

Outra maneira reprovável de agir diz respeito ao uso de linguagem que corrompe. Com a expressão “um pouco de fermento leveda toda a massa” está sendo posto que todos podem ser influenciados à permissividade de expressar verbalmente algo destrutivo. Podemos animar as pessoas ou destruí-las com a nossa língua (Pv. 12.18; Tg. 3.2-10). Porém, não são meramente palavras obscenas que lesionam. Conversação imoral, piadinhas indecorosas, maledicência, fofocas e tolices podem corromper bons costumes. Isso porque a linguagem é facilmente absorvida e incorporada inconscientemente aos nossos hábitos.

Em contrapartida a tudo isso, o apóstolo recomenda o cultivo de uma linguagem que seja construtiva, sadia e útil. Podemos entristecer o Espírito quando agimos ou reagimos verbalmente de forma agressiva. A melhor maneira de evitar isso é usando temperança no linguajar, nas conversas e, acima de tudo, buscar construir uma linguagem e vocabulários que sejam compatíveis com o estímulo positivo, a edificação, a instrução, aconselhamento e admoestação de outros. Todas essas e semelhantes ações fortalecem a unidade ao invés de miná-la como a linguagem pecaminosa o faz.

Algumas implicações são dignas de nota a partir daí. Em primeiro lugar, devemos honrar a obra de Cristo em favor de cada um dos crentes, e individualmente de cada um de nós. Se cremos na nossa salvação, devemos crer na salvação de nossos irmãos e, assim, honrar o sangue que foi derramado em favor deles também. Não podemos honrar a Deus ou a Cristo dando lugar à mentira, visto que ela quebra qualquer vínculo relacional entre aqueles que conheceram a verdade. A mentira ou falsidade cria uma aparência que encobre reais intenções e bloqueia o acesso ao eu sincero. Portanto, mentir impossibilita diretamente a manutenção da unidade.

Não podemos ainda honrar ao seu Espírito pela imoralidade de nossos atos, em destaque, a ira. Muitas maldades são cometidas quando as pessoas pensam estar com a razão. Cedendo à ira por uma suposta defesa do direito acabam cometendo injustiças muito maiores do que as sofridas. A amargura pode brotar mesmo de uma discussão trivial. A melhor coisa a fazer em momentos de ira é sossegar, arrazoar primeiro consigo mesmo e depois com o envolvido (quando possível) para que não haja ressentimentos e sentimentos de desconfiança. Quando deixamos que barreiras emocionais interfiram em nossos relacionamentos a unidade do Espírito não está sendo preservada, mas ameaçada.

Assim, não é possível prejudicar nosso próximo sem entristecer o Espírito Santo. E isso pode acontecer tanto de forma verbal – quando surgem acusações e difamações, cultivo de linguagem corrupta, gritarias e xingamentos – quanto de forma física e comportamental, como na prática de furto. Quando assim fazemos servimos de instrumento para quebrar a unidade do Espírito no vínculo da paz. O elo que nos mantém unidos é corroído visto ser sensível a nossas ações erosivas. Ao invés disso, devemos nos tornar colaboradores da obra do Espírito na igreja (nós e o próximo) agindo com benignidade, compassividade e perdão, a mesma maneira pela qual Deus em Cristo nos trata.

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