Jesus é Senhor do Sábado

Êxodo 20.8-11

O Descanso de Deus e o Espírito do Shabbath

Você já reparou que para as 10 Palavras (ou Mandamentos) há advertências e promessas, mas não há punições? Somente depois e em outra parte foram acrescentadas punições severas, inclusive sob pena de morte. Ainda assim, a morte biológica parece mais uma figura da morte espiritual do homem quando este se afasta de Deus, já que a morte física não acontece no momento da transgressão.

Creio que isso fala muito sobre a bondade de Deus, de sua santidade e que sua vontade para o homem é que ele seja como seu Pai que está nos céus. A lei de Deus é santa e reflete o que deveria haver dentro de cada um de nós. A santidade, vista dessa maneira, não poderia ser algo alcançado pela força da lei, por obrigação, mas por prazer em Deus e em sua santidade.

É dessa forma que podemos entender o propósito de Deus em que estes mandamentos estivessem inscritos, não em tábuas de pedras, mas em “tábuas de carne”, isto é, em nossos corações. Essa impressão na mente e no coração fora profetizada por Jeremias (31.33): “Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.” Veja que desde sempre a vontade de Deus era inscrever sua lei em nosso coração por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu. Pensemos na quarta Palavra que se refere ao Sábado do Senhor. Nessa Palavra podemos tomar algumas aplicações básicas acerca do descanso ali ordenado.

1- O Descanso é um Convite à Devoção

Em Êxodo, o ponto de referência para a santificação do sábado é a Criação – na qual em seis dias Deus trabalhou, mas ao sétimo descansou. O sábado foi instituído por Deus com o “sinal” da aliança entre ele e seu povo, conforme Êxodo 31.13,17 e Ezequiel 20.12.

A sétima parte do tempo deve ser separada (sétimo dia), e não a quinta ou oitava. No entanto, não é propriamente o sétimo dia da semana que é importante, mas a cessação de todo trabalho. Embora sejam 6 os dias de trabalho e apenas 1 o do descanso, este 1 dia de descanso é de consagração particular e especial. Ele serve como uma compensação de todos os outros dias de fadiga. O dia de descanso é um momento de dedicação não ao trabalho, mas ao Criador. Esse dia é um alento e o tempo de renovar o “fôlego”.

Mas o que há de tão importante nisso? O dia de descanso é um tempo em que o homem deve parar de lidar com as coisas criadas e se relacionar mais exclusivamente com o Criador. É um momento de contemplação daquilo que foi produzido pelas mãos e pela glória do Senhor Deus, não pelas mãos e suor do homem. É um tempo de deixar que o coração se encha da quietude e que se deixe maravilhar pela grandeza de Deus escrita nos céus e a proclamação da glória de Deus no firmamento.

O reformador João Calvino dizia ter o sábado o propósito de o povo de Deus “ouvir a lei e realizar os atos de culto, ou, pelo menos, no qual consagrassem particularmente à meditação de suas obras, de sorte que, por esta rememoração, fossem exercitados à piedade”. Assim, concluimos que o dia de descanso é propício a contemplação e ao culto.

Além disso, é também um tempo de autoreflexão. O ócio consagrado a Deus deve ser empregado para olharmos para dentro de nós mesmos e vermos o quanto precisamos de Deus. Levítico 16.31 nos diz que é proprio para nos humilharmos diante de Deus. Pode-se acrescentar ainda que é um momento oportuno para a prática do jejum. É dessa forma que podemos aproveitar melhor o descanso que Deus sabiamente reservou para nós.

Devemos usufruir do Dia do Senhor para descansar em Sua graça dedicando:

a) Tempo para contemplar e se maravilhar com o Criador admirando sua glória na criação, por exemplo, os pássaros, as plantas, as estrelas e adorando somente a Ele.

b) Somente a Ele nosso culto pessoal com devoção e com cânticos espirituais, louvando de coração;

c) Tempo para ler, ouvir e meditar em Sua Palavra;

d) Tempo para refletirmos sobre nossa condição espiritual, a de nosso coração e de nosso ser como um todo;

d) Mais fervor à prática da oração e da misericórdia.

2. O Descanso é um Convite ao Deleite e à Celebração

Os profetas expandiram e delinearam o conceito mosaico da guarda do sábado (Isaías 58.13,14a; Jeremias 17.21-22). Seu caráter é moral. Este período de cessação do trabalho deveria ser um tempo deleitável na presença de Deus e para a comunidade. Além de ser o sinal da aliança, em todo o Antigo Testamento o shabbath significava basicamente três coisas:

I. Todo trabalho deveria cessar (mesmo que habitassem no deserto ainda e não tivessem lavouras);

II. Era um momento para reflexão interior, pois em Levítico 16.31 é dada uma ordenança de humilhação;

III. Deveria ser um dia dedicado a “reverenciar o santuário de Deus” (Lv 16.3,30); aqui o sábado é descrito como propriedade de Deus;
Em Números aparecem instruções acerca das ofertas a serem observadas neste dia (28.9,10).

Em Levítico 23.1-8 as festas do Senhor estavam também associadas a cessação de toda atividade comum de outros dias.

A guarda do sábado estava muito além do ócio, mas essencialmente ligada ao deleite e à celebração.

Em Deuteronômio 31 temos uma indicação mais direta acerca do propósito das reuniões solenes referentes ao ano sabático que deveria ser um momento para a instrução exercida pelos sacerdotes e anciãos.

A celebração, a leitura e o ensino da Lei sugerem a centralidade do culto a Deus. O sábado deveria ser um dia de consagração total voltado para a contemplação e reconhecimento dos homens sobre a atividade, a majestade e o poder de Deus demonstrados tanto na criação do mundo quanto na redenção de seu povo.

Nesse sentido, a graça de Deus concedida aos homens dando um dia separado para tais propósitos indica que o objetivo da criação não é a humanidade, que seu ápice não é o homem, mas o Criador e nossa relação com ele. O sábado foi feito por causa do homem, disse Jesus. Tendo Adão sido criado no sexto dia, no sétimo ele já teria entrado no descanso de Deus sem nem sequer um dia de trabalho. Todas as atividades criadoras de Deus nos seis dias fluem para um período universal de descanso que inclui o homem, os animais, e até mesmo a terra. Portanto, o sábado foi posto por causa da necessidade humana de relacionar-se com o Criador.

3- O Descanso é o Convite à Imitação de Deus

Ao lermos o quarto Mandamento em Êxodo 20.11 percebemos que o princípio implícito no shabbath é imitar a Deus, visto que seria inconsistente afirmar que Deus necessitaria de um descanso, senão que servisse de modelo para a humanidade. Em João 6.16,17 Jesus diz que Deus continua trabalhando até hoje, e Jesus trabalha inclusive no sábado fazendo o bem. O descanso de Deus para a humanidade só é possível pois Deus continua trabalhando (cf. Is 64.4). A consumação de uma jornada de trabalho semanal deve desembocar em um descanso de gozo e satisfação que imita o descanso de Deus. Veja o texto de Êxodo a seguir:

A conclusão que tiramos dessa ordenança claramente se volta para a imitação de Deus baseada na cessação do trabalho. O ócio santificado aqui incluía todos que estivessem sob o teto da família, até os animais.

4- O Descanso é o Convite ao Gozo do Céu

Além do repouso concedido aos servos e aos animais, o sábado é visto como prefiguração da perenidade do descanso espiritual. No início do ciclo de dias semanais e na culminância do descanso no sétimo dia reside uma expressão escatológica sobre a qual a humanidade se apoia. Em que sentido? No sentido de que a História principia com uma abertura e se dirige para um fechamento, o que fala a todos os homens o sentido da existência na terra, mesmo antes e fora da redenção.

Quando atentamos para a descrição da criação do cosmos em seis dias, a criação do homem no sexto dia e sequencialmente a declaração de consumação das obras de Deus no sétimo dia, compreendemos que:

O homem fora criado antes do sábado (Gn. 1.26-2.3) e o sábado fora estabelecido por causa do homem. Podemos destacar duas verdades fundamentais acerca disso: a) a obra consumada de Deus precedeu a criação do homem em seis dias; b) a criação do homem precedeu a instituição do sábado, ou do descanso no sétimo dia. Assim, o descanso não se limitava a, nos dias atuais, uma data no calendário. O sábado foi estabelecido como princípio de vida tipificador do descanso eterno, não meramente como um marco temporal.

Jesus reivindicou sua autoridade sobre toda a criação, incluindo o sábado, como totalmente legítima. Portanto, vemos que Jesus traz o homem à uma correta relação com o Pai também na guarda do sábado, uma vez que desde o princípio da criação a obra de Deus precedeu o descanso do homem, e para o homem – a vida em seu ciclo semanal – inicia com o descanso.

Jesus afirmou tanto que o sábado foi feito por causa do homem, quanto asseverou ser Senhor do sábado (Mc. 2.27,28). Ele mesmo santificou esse dia, em cumprimento total dele, foi sepultado no sábado deixando-o, enquanto mandamento legal, encravado na cruz. O sábado como instituto da lei de Deus pré e pós-mosaica foi plenamente satisfeito por Jesus, o único que o podia consumá-lo e sua prefiguração foi suplantada pela chegada daquilo que ele aguardava.

Nas palavras de Paulo, o sábado era a sombra do que havia de vir. Quando Cristo veio passamos a conhecer o corpo que projetava essa sombra (Cl 2.16). Porquanto “a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas” (Hb 10.1) , ninguém pode ser aperfeiçoado pela guarda do sábado senão pela fé em Jesus. E sim, após o advento da lei o sábado foi incorporado a ela, e não constitui uma ordenança independente, como fora anteriormente à lei, assim como a circuncisão. Tanto é que para os cristãos o dia da ressurreição (oitavo dia) passou a ser denominado o Dia do Senhor.

Tendo Jesus adentrado o eterno descanso de Deus, agora por meio dele todos também entramos no descanso celestial, não pela guarda de um dia, mas pela fé em Jesus, o único caminho (leia Hebreus 3.11-4.11). Por isso Jesus é nosso descanso, não o tempo e o espaço. Nós que pela fé nele estamos firmados já entramos no descanso prometido, e desde já desfrutamos do eterno descanso aguardado desde os dias de Noé.

Isso não significa que enquanto estivermos sob a condição da presente era devemos ignorar todos os bons princípios ensinados por Deus em sua lei. Por isso, seguem algumas aplicações à luz dessa explanação. Devemos usufruir do Dia do Senhor para descansar em Sua graça, dedicando:

a) Nosso culto a ele em adoração e com cânticos;
b) Tempo para ouvir e meditar em Sua Palavra;
c) Mais fervor à prática da oração, do jejum e da misericórdia;
d) Tempo para congregar e participar regularmente da ceia do Senhor;
e) Tempo para voltarmos nossos pensamentos à aguardar a consumação de todas as coisas com a vinda do Senhor.

Em Cristo, que nos deu o verdadeiro descanso.

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