Jesus Teve Filhos?

“Eis aqui estou eu e os filhos que Deus me deu.” Hebreus 2.13

Família é a base de toda civilização. Mais do que isso, ela representa o mais importante laço entre pessoas segundo a bênção mais antiga acompanhada de mandamento: “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos” (Gênesis 1.28). Assim, a constituição da família é precedida pela bênção divina que a torna possível pela fecundidade e pela ordenança da multiplicação da imagem e semelhança de Deus sobre toda a terra.

Agora, mais anterior a isso tudo, reside a constatação de que não é apropriado viver o homem só. Mesmo que uma atividade laboral suficientemente abrangente e um domínio generalizado já houvessem sido a ele entregues, a solidão humana sempre esteve no desígnio divino como uma necessidade a ser suprida de modo a tornar sua existência mais excelente. Desde então, a família é o que concede à vida humana uma expressão dessa excelência.

Contudo, essa realidade sempre é confrontada com tantos casos de desordem, desestrutura e tragédia familiares. O primeiro casal e seus primeiros filhos exemplificam essa sombra projetada pelo pecado sobre a família. O pecado, assim, tornou ambígua a excelência da unidade familiar como projeto de Deus, embora não a tenha destruído. Bem longe disso.

A família é preciosa demais para os cristãos sob o risco de subversão de todos os valores quando ela é ameaçada ou sofre interferências pecaminosas. Ela é entendida e preservada como uma ordenança legítima e fundamental para a atual existência. E é aqui, na fronteira do mundo presente e o mundo porvir, que a família encontra sua limitação.

Jesus disse que o laço matrimonial não possui parte no Reino de Deus, caracterizando-o como uma característica essencialmente do presente século (Mc 12.25). O casamento tipifica a relação de Cristo e a Igreja. E como símbolo tipológico que é será consumado no fim deste século quando a união do Noivo com a Noiva tornarem-no cumprido e superado.

De modo semelhante, a família tipifica a comunhão dos filhos de Deus em seu Reino, e o desígnio divino de tornar a terra repleta da sua imagem e semelhança. Sabemos que em Cristo todos os tipos são cumpridos por ser ele o antítipo. E toda sombra é dissipada, por ser ele o corpo que a projetava. Assim, Jesus covergiu para si a plenitude de toda excelência terrena e temporária que aponta para a realidade celestial e perpétua.

Diante disso, cabe o questionamento do por que Jesus, embora tenha nascido em uma família, não constituiu a sua própria da maneira pela qual a conhecemos. Jesus, então desobedeceu a ordenança do “Sede fecundos, multiplicai-vos”? Acredito que não. Ele a cumpriu de modo muito mais perfeito e pleno.

A discussão sobre uma suposta esposa e filho de Jesus só é levantada fora do circulo cristão. A influência é puramente secular com base no gnosticismo de um pseudo-evangelho. Mas essa reflexão sequer existe no meio cristão, em qualquer perspectiva. O fato é que Jesus não teve esposa nem teve filhos do modo usual. Seu relacionamento familiar se deu em termos de solidariedade com a humanidade, o povo de Deus.

É óbvio que sua relação de carne e sangue com os filhos e filhas de Deus foi iniciada pela sua encarnação, como argumenta o autor de Hebreus: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou” (2.14). Era necessário que sua identificação também se desse por meio da encarnação, que além de ser uma obra do Espírito, também se deu através de sua ascendência humana. Como Deus, sua origem divina foi semeada na humanidade por meio da natureza do Espírito Santo, implicando uma procriação sobrenatural e não condicionada à vontade humana. Isso é importante, pois semelhantemente, a descendência de Jesus não vem pelo plano natural, mas sobrenatural ou espiritual.

Significa que Jesus realmente não casou nem teve filhos naturais, mas claramente sua Noiva é a Igreja e seus filhos são os muitos filhos que Deus lhe deu, como citado em Hebreus: “Eis aqui estou eu e os filhos que Deus me deu.” (2.13). A citação é de Isaías 8.18 em que o profeta identifica seus filhos como sinais e prodígios de Deus. Ao aplicar a passagem a Jesus, Hebreus tece o argumento de que a obra redentora de Cristo recebeu como herança incontáveis filhos espirituais. Esses filhos foram gerados, não por procriação natural, mas pela espiritualidade da fé nele.

A semente da palavra do Reino, na verdade, produz o renascimento, que é espiritual, como afirma Pedro (1Pe 1.23). Os renascidos do Espírito são, portanto, filhos do Reino. Como filhos de Deus em Cristo, são sinais do Reino na presente era e estão aí para prodígio e testemunho de que Deus está reunindo em um só corpo seus filhos.

Embora Jesus não tenha procriado sequer um filho natural, pois profeticamente sua linhagem foi interrompida pela necessidade de sua morte expiatória, ele foi abençoado com a fertilidade espiritual para gerar a muitos e ver a sua numerosa posteridade (descendência) como referido por (Isaías 53.8, 10).

Filhos gerados naturalmente, são filhos da carne. Filhos gerados em Cristo, pela palavra, são filhos espirituais. Uma forma de geração não anula a outra, tanto quanto não implica na outra. Filhos da carne, mesmo de crentes são filhos carnais, a menos que nasçam do Espírito pela palavra. Isto é, a menos que se tornem crentes em Jesus, não são filhos de Deus, pois Deus não possui netos. De outro lado, os filhos espirituais não são necessariamente aqueles que possuem relação consanguínea conosco. Assim, filhos carnais podem vir a ser também filhos espirituais. Da mesma forma, não-filhos carnais podem vir a ser filhos espirituais, mesmo sem os laços de sangue.

O fruto da evangelização e discipulado é entendido como a procriação de filhos espirituais em Cristo, como Paulo refere várias vezes (1Co 4.14, 15; 2Co 12.14, 15; Gl 4.19; 1Ts 2.7, 11) e semelhantemente o faz João (13.33; 1Jo 2.1, 12, 14, 18; 3.7, 18; 4.4; 5.21; 3Jo 1.4). Desse modo, todo cristão nascido de novo é potencialmente fértil para gerar filhos espirituais em Cristo.

Gerar filhos naturais continua sendo uma importante ordenança para o ser humano em muitos aspectos. Acredito ser abençoador em muitas dimensões para a alma humana. Contudo, mais importante ainda é a geração de filhos espirituais. Quanto mais glórias são destinadas aqueles que geraram filhos nascidos do Espírito! E estes podem ser os mesmos que procedem de nossas entranhas.

Nossa conclusão tem como parâmetro a Jesus como o verdadeiro “pai de uma multidão” (hb. Αβρααμ). A partir dele numerosos filhos de Deus têm sido gerados através dos séculos. E a geração continua nesse momento, pois pela fé em Jesus todos os dias filhos do Reino estão sendo gestacionados naquela que é a família de Deus, a Noiva do Cordeiro, e o povo de Deus: a Igreja.

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