O Que Tem o Socialismo Com o Cristianismo?

“Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade.” (Atos 2.44-45)

O pensamento socialista é bastante complexo e não tenho a pretensão de discuti-lo neste post. Minha intenção é refutar biblicamente a falácia que é usarem o texto bíblico para justificar a ideologia marxista como algo benéfico, inclusive com premissas no Novo Testamento.

Não havia capitalismo nem na idade média nem na antiguidade. E o socialismo é objetivamente uma concepção filosófica de economia política como proposta de superação do capitalismo. Assim, o pensamento socialista só surgiu por volta do século XVIII, mais de mil e setecentos anos depois.

Assistência, não um sistema econômico-político

Quando analisamos cuidadosamente os textos usados como suposta referência, o contexto e os fundamentos do sistema de coleta e distribuição na Igreja Primitiva nada têm a ver com a ideia marxista.

Primeiramente, não há nenhuma pretensão de se estabelecer um sistema econômico nem um modelo de sociedade na comunidade dos apóstolos em Atos. A narrativa de Lucas apenas registra o que se passou a praticar tendo como essência o sentimento de unidade entre os discípulos de Jesus.

Depois, no movimento voluntário dos crentes em Jesus, os proprietários expontaneamente decidiram usar seus bens e propriedades para atender a uma necessidade do novo estilo de vida da comunidade cristã.

Como podemos ler, tal atitude não partiu de um ideal de sociedade, mas simplesmente da fé em Jesus que os uniu. Está dito que “os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum.” A venda e distribuição dos valores formaria uma conjuntura insustentável a médio prazo. Pois em algum ponto os recursos teriam de vir, e de onde viriam?

Comunidade escatológica

Um importante fato que residia nessa fase, e que possivelmente cooperou para esse comportamento, era a expectativa da comumidade acerca da volta de Cristo (Atos 1.11). Parafraseando Lutero, a igreja vivia como se Jesus tivesse sido crucificado ontem, ressuscitado hoje e fosse voltar amanhã.

A comunidade cristã estava profundamente interessada na volta do Senhor e aguardava ansiosamente tal dia. Essa característica escatológica da igreja chegou a gerar algumas questões problemáticas por ocasião da incompreensão de alguns irmãos. Especificamente, o desentendimento era quanto ao dia da volta.

Em 1 Tessalonicenses 5.1-3 Paulo busca relembrar seu ensino à igreja, que provavelmente estava discutindo a segunda vinda, pois ainda pairavam dúvidas. Posteriormente, essa discussão pode ter dado origem a outro problema (2Ts 3.6-16). Aparentemente, em vista da vinda do Senhor ser próxima, alguns decidiram não trabalhar mais, implicando em viver às custas de outros irmãos. Paulo os repreende na primeira e na segunda carta, pois não foi o exemplo e ensino que deixou àquela igreja.

Pedro também combateu semelhante sentimento de zombaria de alguns do meio sobre a vinda do Senhor, como se ela não fosse acontecer devido à demora (2Pe 3.4-5). Pedro ensina que o Senhor não adiou sua vinda, ele apenas aguarda com longanimidade que os homens encontrem a salvação, pois o dia virá repentinamente, sem aviso (2Pe 3.9-10).

Não seria difícil que alguns dos cristãos que inicialmente se desfizeram de suas propriedades e bens para atender as necessidades dos irmãos posteriormente tenham se sentido frustrados pela expectativa urgente da vinda do Senhor como se ela fosse ocorrer naquele momento, em sua própria geração, mas não aconteceu. Como repreendida pelos apóstolos, essa frustração não vinha do adiamento da parousia, mas da inconstância dos que haviam criado uma expectativa imediatista e se arrependido das atitudes precipitadas que tomaram baseando-se em um entendimento equivocado.

A conclusão é óbvia: para continuar a atender as necessidades dos irmãos, era preciso que alguém trabalhasse e provesse recursos. Pois uma vez que a vinda do Senhor não ocorreu no tempo como supunham, a assistência não duraria muito tempo sem uma fonte de recursos constante.

Origem da assistência cristã

Em uma segunda perspectiva, a contribuição voluntária no meio cristão remonta aos dias do ministério do Senhor. Enquanto ensinava, ele e seus discípulos eram servidos por algumas mulheres que dispunham de bens para atender as necessidades deles (Lc 8.1-3). Temos aqui a primeira referência ao serviço diaconal cristão, sim, iniciado por mulheres.

Posteriormente, a própria igreja em Atos tomou a mesma atitude como se lê em 2.44-45 e 4.32-35. Em pouco tempo, alguma distorção surgiu na motivação da prática, haja vista o que é relatado acerca de Ananias e Safira em Atos 5.1-11. A repreensão de Pedro é esclarecedora quanto a voluntariedade das doações. O apóstolo explana que os valores da venda da propriedade pertenciam ao casal por direito. Todavia, eles retiveram parte do valor e dissimularam diante da igreja e dos apóstolos afirmando que a quantia entregue era o todo da venda.

Logo após, entendemos que a distribuição dos mantimentos necessários já ocorria diariamente e havia alguma organização nesse serviço. Mas, de alguma forma, algumas viúvas não estavam recebendo os donativos. Essa situação gerou um descontentamento entre os judeus hebreus e os judeus helenistas. Esses últimos possivelmente passaram a confabular algum descaso no atendimento das necessidades da judias helenistas viúvas. Então, o que era inicialmente voluntário, tornou-se objeto de murmuração.

É desse contexto que surge o ofício diaconal na igreja, ao menos de modo mais distinto, pois como vimos, já havia sido realizado inclusive por mulheres.

A impossibilidade de um sistema

Ainda outra situação se desenvolveu a partir da prática em foco. Os hebreus que possuíam propriedades provavelmente passaram a ser perseguidos e espoliados (Hb 10.34). O confisco de seus bens pode ter acontecido de uma perseguição imperial aos cristãos atiçada pelos judeus não cristãos. Se essa prática ainda era corrente até o tempo em que a epístola aos hebreus foi escrita, então essa medida sufocaria a subsistência da comunidade cristã como a vimos inicialmente em Atos.

De fato, depois de Atos se tornou um costume conhecer e atender as necessidades dos irmãos em todas as partes, especialmente em Jerusalém, onde a perseguição deve ter sido mais intensa, e devido a uma grande fome que ali se abateu (Rm 15.25-27). Em Atos 11.27-30 é dito que Paulo e Barnabé foram enviados para atender à grande fome ocorrida em Jerusalém entre 41 e 54 d. C.

Além desse caso extraordinário, a prática não era generalizada nem estendida a toda situação ou pessoa. Havia alguma espécie de triagem após a qual alguns cristãos eram escolhidos para receberem os donativos, como se entende de 1 Co 16.1-4. Ela se repetiu nos séculos seguintes, porém sua ocorrência sempre se deu no espírito do Novo Testamento, de forma voluntária, e na medida da convicção pessoal, na medida das posses de cada um.

Embora trabalhasse, o próprio apóstolo Paulo não recusava as doações enquanto expressão de gratidão e de associação com ele em prol do evangelho (Fp 4.10-19). E o caráter puramente circunstancial e voluntário da assistência percorre todo o Novo Testamento. Paulo novamente é quem trata de modo mais específico a prática de ofertar como algo bastante característico da igreja, mas sempre com ênfase na liberalidade da atitude, nunca numa obrigação ou ideal forçosamente imposto pela liderança apostólica, ou de quem quer que fosse.

Caráter da assistência cristã

2 Coríntios 9 é o texto neotestamentário que mais detalha como as doações eram coletadas e distribuídas, e principalmente em que espírito deveria ser realizada.

Primeiro, Paulo reconhece a disposição mental da igreja de Corinto e seu entusiasmo na prestação de assistência (2Co 9.1-2). O fervor de espírito dos macedônios nesse serviço estimulou a muitos outros. Isso indica que os cristãos foram motivados por um mesmo sentimento. Nesse caso, além de voluntária, a participação teve um estímulo pelo exemplo, mas partiu inteiramente do interior de cada um.

Depois, Paulo relembra os motivos pelos quais instruiu que a coleta fosse feita com antecedência e se tornasse uma expressão da graça divina, não do desejo de se ter mais (v.5). Ele parece tratar de um provável atraso ocorrido no envio dos suprimentos, pelo que pede que os irmãos não o evergonhem faltando como o compromisso por eles firmado em participar desse serviço aos necessitados. A expressão de gratidão, então seria cumprir a palavra, a de avareza seria a de reter com base no pensamento de ter a mais.

No centro de sua argumentação está o seguinte: “Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria” (v.7). Em seguida, Paulo conclui colocando algumas implicações dessa participação voluntária: Deus pode dar a vocês muito mais do que têm oferecido. Os irmãos pobres são atendidos em suas necessidades. Deus é glorificado. E evidencia a liberalidade dos que contribuem, bem como a superabundante graça de Deus neles.

Em tudo isso é evidente que surgiram instruções apostólicas no sentido de organizar a prática, porém nunca de torná-la uma obrigação. O que se buscou foi estabelecer um modelo de conduta cristã que visassse socorrer os necessitados. Nunca se teve em vista criar um sistema econômico ou social, pois a contribuição era feita em prol dos que passavam por necessidades, não de toda a comunidade. À medida que algum necessitado surgia era amparado: “então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade.” (At 4.35).

A vida comum e motivações

Cabe lembrar que a comunidade dos apóstolos ainda era um movimento à margem do judaísmo e do império romano. Porém, isso não significa que todos os cristãos tenham vendido todas as suas coisas, deixado de trabalhar e passado a viver de doações juntamente com os mais carentes. Pelo contrário, ainda era necessário que trabalhassem e assim dispusessem de recursos para continuar a demonstrar essa generosidade (At 20.33-35; Ef 4.28). Logo, apesar de todas as dificuldades, ainda havia alguma normalidade no trabalho secular.

Ao contrário do socialismo, a assistência cristã nunca se baseou em palavras e ideias, mas na prática em si. Pois evidentemente, Jesus e a igreja sempre tiveram em estima a atenção aos pobres (Mt 11.5; 19.21; Gl 2.10). Mas para muito além do socialismo utópico que antecedeu Karl Marx, antes da produção comunista defendida por ele e Engels, já havia quem tivesse um discurso e uma ideia sobre o socorro dos pobres, porém nunca efetivou esse desejo no coração e nas atitudes.

Outro judeu, que não Marx, que não Jesus, censurou o emprego dos bens alheios em prol do que bem lhe coubesse. Sabemos que era Judas quem dizia defender o amparo aos pobres, principalmente economizando para supostamente usar nesse sentido. Porém, suas reais intenções nunca tiveram aos pobres como alvo de misericórdia. João demonstrou a hipocrisia de Judas que presenciou o que disse:

“‘Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?’
Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava” (João 12.5-6). Mesmo assim, Jesus o colocou na administração dos recursos dele e dos discípulos. O que nos ensina: o Senhor tem interesse naquilo que realmente fazemos, não no que meramente falamos. Pois é em nossa prática que somos provados.

No final, o socialismo é apenas uma ideia aparentemente boa. Agora, a verdadeira generosidade não depende de um sistema implantado, apenas de uma voluntariedade no coração que beneficia tanto a quem recebe quanto a quem dá, e por fim glorifica a Deus.

Mâmon versus Mâmon

O Novo Testamento abundantemente condena a avareza e a coloca como um tipo de idolatria. Também esclarece que “o amor do dinheiro é a raiz de todos os males (1Tm 6.10). E o socialismo é a pior forma de capitalismo. Se você conhece mais a fundo essa teoria social-econômica, sabe que ela fundamentalmente assume ser impossível deter o capitalismo (a luta de classes). Assim, ela propõe o surgimento do socialismo a partir do capitalismo, por meio do desenvolvimento tecnológico e da transformação em produção comunista.

O problema é que isso cria uma elite muito mais poderosa e detentora de todos os meios de produção, tornando as grandes massas completamente reféns, sem direito a propriedade ou qualquer bem que não seja tutelado pelo Estado. Basta ver como funciona a China comunista que adotou exatamente essa tese, e como vivem os mais vulneráveis em contraste com os pertencentes às elites naquele país.

O capitalismo é horrível em muitos sentidos desde sua origem. E o socialismo já se mostrou monstruoso em suas fases de implantação. Todos em alguma medida já sofremos com as duas concepções. Contudo, independente de ambas, o que sempre funcionou melhor para as pessoas foi a liberdade.

As multidões sempre buscam e alcançam maneiras de se adaptar à realidade. São os movimentos espontâneos da sociedade que determinam como a realidade será administrada. Ao menos é assim que funciona em Estados democráticos. E o socialismo pretende mudar a realidade através de um sistema artificialmente e autoritariamente implantado. Pelos frutos se conhece a árvore. Busque e veja quais foram os frutos do socialismo na História.

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