Jesus Estimula a Excomunhão?

Todos sabemos que a causa da falta de amor entre os cristãos é o pecado. Geralmente, quando assim sucede, dificilmente os laços rompidos são reatados. Mas quando possível, realmente deveria haver uma grande satisfação comunitária na reordenação da comunhão do ofensor.

Em Mateus 18.17 o Senhor estabelece para a igreja em que circunstâncias a ofensa dá ensejo ao tratamento de um irmão ofensor. A passagem é registrada somente por Mateus e está em um contexto em que o ensino de transição são as palavras de Jesus sobre as noventa e nove ovelhas deixadas para que apenas uma fosse resgatada sob a seguinte conclusão: “Assim, pois, não é da vontade de vosso Pai celeste que pereça um só destes pequeninos.” (18.14).

Esse é o tom do principal texto tido como o da excomunhão (“…considera-o como gentio e publicano”), embora o Senhor não use esse termo ou sugira essa ideia, como lemos no versículo acima. Não é da vontade de Deus que nenhum se extravie, isto é, se afaste e seja deixado à própria sorte enquanto as noventa e nove (restante da comunidade) seguem como se nada tivesse acontecido.

Depois de ancorar qual a vontade divina para os seus discípulos, Jesus determina as instâncias que salvaguardam o ofensor (a ovelha perdida) em um litígio entre irmãos. Os passos são bem simples, mas demandam atitudes muito corajosas e amorosas para a recondução daquele que “se extraviou”. É importante colocar entre aspas, pois somente em um mundo ideal não existem líderes que abusam de suas posições e poderes de decisão ou influência para excluírem ou abandonarem irmãos sumariamente, ou ainda através da covardia, da falsidade e da dissimulação.

Em oposição a isso, o Senhor ensina a todos como cuidar da comunidade cristã, preservando-a por meio do amor, da paciência e da esperança. Jesus demonstra como não desintegrar sua igreja, mesmo que entre o trigo cresça o joio (até porque esse é serviço de anjos, e somente no último dia). Arrancar um membro do corpo é tão anticristão quanto deixá-lo perecer. Essa é a importância crucial de ter sempre ao Senhor como fonte detoda decisão, principalmente as mais sérias.

Jesus primeiro assenta o dever de uma repreensão em privado ao irmão ofensor. Mesmo que a ofensa tenha sido pública, a atitude recomendada é que se preserve o irmão lidando de forma pessoal, lembrando que a intenção é “ganhar o irmão”, não puni-lo.

Depois, caso ele resista, sob a companhia de mais um ou dois irmãos com o fim de convencê-lo, é possível que algo mais grave esteja em curso. Se mesmo assim o ofensor persistir em sua posição, toda a igreja é incluída na questão. Mas mesmo até aqui, todos os recursos são de foro íntimo da igreja. Portanto, nada se torna público como se costuma pensar a achar que dava ser.

O apóstolo Paulo sugere que as questões da igreja devam ser resolvidas no seio dela (1 Coríntios 6.4-8). E aliás, o recurso especial na última instância terrena aponta para a importância da igreja toda como a portadora de um poder de decisão maior que a própria liderança. Nesse ponto podemos vislumbrar a maturidade da igreja firmada por Cristo como um meio para a autoregeneração.

Se mesmo assim o ofensor não abrir mão de sua resolução, ele então deve ser tratado, conforme disse o Senhor, como “gentio e publicano”. Mesmo aqui, nada se diz sobre excluir alguém da comunhão, pois evidentemente, a forma de tratamento a ser dispensada depois de todos os recursos deve ser entendida do ponto de vista de como o Senhor trata os gentios e publicanos, não como os homens tratam.

Lembre-se que ao vê-lo comendo e bebendo com publicanos e pecadores os fariseus o censuravam, mas o Mestre replicou que os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Ele não veio chamar justos, mas pecadores ao arrependimento.

Quando deixado aos discípulos de Jesus o poder de excluir alguém, sabemos que pouco e raro amor está incluso. Na verdade, outros sentimentos e atitudes tomam lugar, como o sectarismo elitista e o desejo de destruição (leia Lucas 9.49,50,54). O espírito com que os homens tratam seus semelhantes é completamente outro daquele que Jesus os trata.

Ao considerar um irmão impenitente como gentio e publicano, o Senhor o coloca na posição de alguém que ainda não foi realmente convertido ao reino de Deus. Logo, precisa ser tratado como alguém que carece de cuidados mais básicos para que venha a se arrepender de seus pecados e conhecer o perdão e a salvação em Cristo.

Infelizmente, a igreja sofre quando vez após vez seus membros são abandonados e excluídos em nome da manutenção das noventa e nove que não precisam de arrependimento.

Os próprios conceitos de ligar e desligar não são autoevidentes como se presume em português, pois ligar aqui significa estabelecer o vínculo, e desligar, soltá-lo. Nas circunstâncias mencionadas, a interpretação mais condizente com o texto afirma o perdão (desligar, soltar, deixar ir, não levar em conta) ou não (ligar, reter) da ofensa. João 20.23 fortalece esse entendimento.

Obviamente que o apelo à excomunhão não se encerra nessa conclusão. A interpretação vigente no meio evangélico segue o texto que aborda o poder de ligar e desligar conferido pelo Senhor à igreja (aqui a toda ela). No entanto, nenhuma exegese ou comentarista bíblico honesto (sim, eu li todos os melhores comentaristas) que atenta para o texto entende que a referência aqui é ao desligamento de um irmão. Uma simples observação no contexto de Mateus 18, já exposto, e os termos “tudo o que” (ligares) e “tudo o que” (desligares) naturalmente não designam “qualquer um que”. O objeto é algo, não alguém. O objeto aqui é a ofensa, não o ofensor. Mas onde fica a disciplina, então? Nãonhá excomunhão na Escritura?

Podemos ver a severidade na disciplina em um caso singular tratado por Paulo em 1 Coríntios 5.1-13. O apóstolo chega mesmo a determinar a expulsão (v.13) e a não associação com o ofensor. Na ocasião, alguém estava cometendo uma grave imoralidade sexual tendo relações com a esposa do pai (logo, madrasta) e, ao invés de a igreja tratar a situação, parecia haver uma arrogância ou orgulho envolvido nisso.

Não sabemos se a igreja estava orgulhosa de modo geral (acerca dos conhecimentos e dons) ou se isso se devia propriamente à impureza flagrante, como se fosse um ato de masculinidade aceita. Tal problema tornava a situação singular, o que explicaria a radicalidade de Paulo para devidamente afastar o ofensor e recomendar que os demais se afastassem dele.

Quando lemos 2 Coríntios 2.5-11 há a percepção de que a questão fora tratada, e o irmão (aparentemente era mesmo irmão) fora isolado, causando-lhe, ao que sugerem as palavras de Paulo, uma grande tristeza por conta da “punição pela maioria” (v.6 a igreja). Em seguida, ao reconhecer que houve um efeito, Paulo recomenda que a igreja perdoe, conforte e demonstre publicamente seu amor pelo irmão ofensor para que não fosse consumido pela tristeza excessiva.

Assumir o ensino bíblico nessas e outras situações define se estamos ou não obedecendo a Cristo no sentido de ter cuidado uns com os outros no exercício da real disciplina. Vemos, assim, que mesmo os pecados mais escandalosos podem ser apropriadamente perdoados. Do contrário, não acredito que alguém conscientemente se anime a ser repreendido por Jesus pela ausência de misericórdia e temeridade na condenação, o que pode atingir inclusive inocentes (Mateus 12.7 e Marcos 2.17).

Tais circunstâncias nos levam a questionar: como saber com certeza em quais ocasiões a disciplina deve ser usada? É aqui que voltamos para o contexto de considerar como gentio e publicano de Mateus 18. Seguindo o ensino do Senhor, está dito que se dois concordarem a respeito de qualquer coisa que (não sobre qualquer pessoa) pedirem, será concedida pelo Pai que está nos céus. Então, o Senhor conclui dizendo estar no meio de dois ou três reunidos em seu nome, concordando ele mesmo com o pedido pelos irmãos.

As afirmações nessa passagem nos levam de volta para o caráter privado da repreensão feita a um irmão ofensor. É claro que em casos maiores, a decisão de irmãos quanto a perdoar, não perdoar, ou tratar como um não convertido alguém na igreja só pode avançar caso isto seja apresentado diante de Deus em oração. Assim, o Senhor deixa claro que onde a última instância terrena não resolve, somente o Pai tem o parecer final em uma sentença ou absolvição.

A dificuldade de reconhecer as ocasiões em que se deverá considerar perdoado um pecado é imediatamente explicada a partir da dúvida de Pedro no verso seguinte, quando questiona quantas vezes deverá perdoar. Jesus responde que até setenta vezes sete. O desenrolar do ensino do Senhor segue, então, ao dever de perdoar sempre e considerar que todos os irmãos igualmente tiveram um perdão muito maior que suas muitas ofensas.

Em suma, só resta mesmo uma única menção de um pecado pelo qual não se deve orar rogando o perdão de Deus. Nesse caso, a ofensa permanecerá ligada. 1 João 5.16 parece estar relacionado ao ensino de Jesus sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo como o pecado imperdoável, nem na terra nem no céu.

Se alguém, ainda assim insiste em impor sua própria disciplina acima da do Senhor, excluindo, difamando e abandonando a um irmão ofensor, deve reconhecer que esse não é o espírito de Jesus. Mesmo convertidos pelo Senhor, todos ainda somos pecadores carentes de arrependimento. Ainda que um irmão venha a falhar miseravelmente, o Senhor o ampara e concede a dignidade de ser tratado como gentio e publicano ao modo dele, não dos fariseus.

Há um triste engano de que se amarmos estaremos sendo coniventes com os pecados. Mas não é isso o que o Senhor ensina. Se perdoarmos, eles serão perdoados porque o Pai celeste já perdoou. Se não perdoamos, significa que nosso Pai também ainda não perdoou os nossos pecados e permanecemos neles.

Assim, aqueles que não amam e perdoam seus irmãos incorrem em atitudes dignas de cuidados como os que Jesus dispensou aos pagãos, com paciência, brandura e exortação. Que estejamos atentos para o triste dito: Deus perdoa, mas a igreja não. Pois nosso objetivo como critãos é ganharmos nosso irmão com a mesma disposição e alegria de quem tomou uma cidade fortificada, de quem encontrou a ovelha desgarrada. Mas mesmo que também venhamos a falhar nisso, graças a Deus por Jesus, o Supremo Pastor das ovelhas, que deixa as noventa e nove para resgatar a que se extraviou.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Site desenvolvido com WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: